♤
2012 D.C.
— O pedido dele é realmente esse?
— Sim. E ela possui consciência. É capaz de se mover... e de falar.
— Então usem todos os métodos necessários. Quero que a tragam até aqui. Sejam eficazes. Eu exijo resultados.
●●●
♤
O sol já se erguia firme sobre a pequena cidade de Santa Nahele. Pássaros disputavam o céu em cantos animados, enquanto, ao longe, o ronco preguiçoso de maquinários anunciava a construção de uma nova casa. A manhã parecia comum. Serena.
Até que—
— OÔ, MÃE!
O grito rasgou o ar como vidro estilhaçado, vindo de um dos quartos e despedaçando a tranquilidade que pairava sobre a casa.
— O QUE É?
A resposta veio da cozinha, igualmente alta, igualmente cortante, encerrando qualquer vestígio de paz.
— Quem entrou no meu quarto, mexeu nas minhas coisas e ainda fez questão de deixar tudo bagunçado?!
Na cozinha, Maria suspirou fundo antes de responder. Tinha 34 anos, estatura mediana, corpo arredondado, olhos amendoados e cabelos pretos alisados pela progressiva que moldavam seu rosto de pele clara. O cansaço matinal já pesava em sua expressão.
— Pra que essa gritaria logo cedo? São seis horas da manhã, mocinha! — repreendeu, em tom ríspido.
Foi então que, do outro quarto, surgiu a responsável.
— Fui eu!
Gabriela apareceu no corredor e seguiu até a cozinha com os braços cruzados e o queixo erguido. Aos dez anos, já carregava uma presença firme: cabelos cacheados de curvatura fechada, castanho-escuros, pele dourada e os mesmos olhos amendoados da mãe.
— Gabriela, por que você entrou no meu quarto e fez aquela bagunça? — rebateu Amanda, surgindo logo atrás, espelhando a postura da irmã.
Antes que a caçula pudesse responder, Maria interveio, erguendo a voz com autoridade.
— Não me interessa o que aconteceu. Cada uma tem seu quarto, mas só temos um guarda-roupa. Quando voltarem da escola, vocês resolvem isso. Porque, neste exato momento... estão atrasadas.
As duas irmãs viraram a cabeça ao mesmo tempo para o relógio na parede.
— Meu Deus, estou atrasada! — exclamou Amanda, desfazendo a postura de briga. — Mais tarde a gente conversa...
A ameaça ficou suspensa no ar antes que ela girasse nos calcanhares e desaparecesse pelo corredor.
— HMPF! — Gabriela a deu de ombros e voltou para o próprio quarto, terminando de se arrumar primeiro. — Anda logo, Amanda! — reclamou, indignada. Afinal, era com a irmã que fazia o caminho até a escola.
❖ Amanda
Do meu quarto, ouvi a voz da Gabriela atravessando o corredor.
— Já vou! — respondi.
Continuei de frente para o espelho.
Minha pele clara deixava as espinhas mais evidentes do que eu gostaria. Estiquei o rosto com os dedos, analisando cada detalhe como se aquilo realmente importasse. Desci o olhar devagar. Meus cabelos longos, espiralados, louro-escuros, caíam pelos ombros. Prendi tudo num rabo de cavalo alto, puxando bem os fios para trás, deixando o rosto completamente exposto.
Fiquei alguns segundos parada, encarando meu reflexo.
Ali estava uma menina de doze anos.
1,55 de altura.
Olhos castanhos amendoados.
E um corpo tão reto que, às vezes, eu achava que parecia uma tábua de passar.
Respirei fundo.
Vesti a jaqueta jeans preta por cima do uniforme azul-bebê de mangas curtas. Calça preta. Tênis preto com detalhes rosa. Dei mais uma olhada no espelho.
Com aquela cara séria demais para a minha idade, eu parecia quase uma vilã.
Peguei a mochila e saí do quarto.
Gabriela já me esperava no corredor. Tinha dividido o cabelo ao meio e feito duas tranças. Usava uma calça azul-real que ia até a metade da canela, rasteiras nos pés e mochila nas costas.
— Vamos.
Abri a porta de vidro da sala e segui até o portão de grade. Antes de sair, olhei para trás. Minha mãe nos observava pela janela.
— Vou levar as chaves! — ergui a mão, balançando-as no ar.
Ela assentiu.
Seguimos a pé. A caminhada até a escola era longa, mas tranquila.
Silenciosa demais.
O silêncio entre mim e minha irmã estava quase sepulcral — e um tédio danado começou a me incomodar. Resolvi quebrar aquilo.
— Gabriela, olha...
— Hm... — ela respondeu, comprimindo os lábios.
Percebi o desdém. Mesmo assim, continuei.
— Eu não me importo que você entre no meu quarto pra fazer... sabe-se lá o quê.
Apertei as mãos nas alças da mochila. Eu era a mais velha. Precisava impor limites. Mas também não queria ser a irmã chata.
— Só que, depois, deixa tudo arrumado. Guarda as coisas onde pegou. Imagina se fosse eu que tivesse feito aquilo no seu quarto. Você ia gostar?
Ela abaixou o rosto. Os olhos se fixaram no chão.
— Desculpa, Amanda. Vou tentar deixar organizado da próxima vez.
Quando ouvi aquilo, soltei o ar devagar, sem nem perceber que estava prendendo a respiração.
Não era só a bagunça.
O problema é que só tínhamos um guarda-roupa para dividir. Mesmo com quartos separados, aquele espaço era território compartilhado — e a gente tinha combinado que cada parte seria respeitada.
Cada lado, um pequeno mundo.
E eu só queria que o meu continuasse intacto.
♤ O silêncio entre as duas não durou muito. Gabriela percebeu o alívio no rosto da irmã.
— Amanda...
Chamou-a com curiosidade mal disfarçada.
— Você está interessada em alguém?
Amanda comprimiu os lábios. Os olhos se arregalaram, e o rosto começou a queimar.
— Da onde você tirou isso? — a voz saiu fina demais.
Ao notar a reação, Gabriela abriu um sorriso travesso.
— Hehe... Oia! Oia! Oia! Tem! Tem! Tem! Me conta! Me conta! Contaaaa!
Amanda abaixou o rosto e acelerou o passo, tentando fugir da provocação. A mente fervilhava tanto que ela deixou de prestar atenção ao caminho — e tropeçou na calçada.
— Aiii... meus dedinhos do pééé... — resmungou, lançando um olhar furioso para a irmã. — Viu o que você fez?!
— Eu não fiz nada! — Gabriela apontou, rindo alto. — Você que saiu correndo sem olhar onde pisa!
Amanda bufou, indignada.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Crônicas Do Véu I Biblioteca Real De Drakon
FantasyAmanda Verano Dias achava que sua vida em Santa Nahele era só pizza e papo com a irmã Gabriela e suas amigas, até um sequestro brutal a joga na Biblioteca Real de Drakon, um labirinto místico de árvores gigantes e guardiões implacáveis. Com o braço...
