━━━━━━ • Coriolanus Snow • ━━━━━━
Sentado na cama, a penumbra dominava o quarto, apenas quebrada pela luz difusa que Tigris inadvertidamente deixou entrar pela janela ao acordá-lo naquela manhã melancólica. Embora o sol estivesse ausente, a obscuridade do dia não era uma preocupação para Coriolanus. Seu olhar vago, perdido em um abismo de pensamentos, revelava a profundidade de sua angústia. Era como se, naquele momento, ele estivesse à deriva em um oceano de incertezas, sem uma bússola para orientá-lo.
Apertando a pulseira em sua mão com firmeza, como se buscasse extrair força dela, ele refletia sobre a mudança súbita e dolorosa que sua vida havia experimentado. Pela primeira vez, ele se encontrava sem um plano meticulosamente traçado para os dias à frente. A incerteza do futuro permanecia sobre ele como uma sombra sufocante, obscurecendo qualquer vislumbre de clareza em sua mente.
Duas semanas haviam se passado desde a partida de Lucy Gray, duas semanas que se estendiam como uma eternidade na solidão de sua existência. Coriolanus travava uma batalha interna, uma luta desgastante que ameaçava corroer sua resistência já fragilizada. A ausência dela era como uma ferida aberta, uma dor crua que se recusava a cicatrizar. O luto não podia ser completamente processado, pois a própria natureza da partida dela permanecia envolta em mistério.
A tragédia ganhava contornos ainda mais sombrios pelo fato de que Lucy Gray não recebeu um velório digno. O corpo carbonizado encontrado não era o dela, o que apenas aprofundava o mistério em torno de sua morte. A extração de material genético para identificação deixou Coriolanus em uma espiral de desconcerto e desespero. Ao mesmo tempo que surgia a comprovação de que aquele corpo não era o dela, ele tinha quase certeza que ela tinha sucumbido a explosão. Não havia como escapar. Ele se perguntava incessantemente sobre como a pulseira tinha parado na posse de um cadáver desconhecido.
"Ela sobrevive? A Lucy Gray da música? As pegadas..."
"Talvez ela voou para longe. Tenho certeza que ela está por aí em algum lugar. Ela é uma sobrevivente. Mas um mistério, querido. Assim como eu."
Cada canto do apartamento parecia um santuário de lembranças, um eco silencioso da presença dela. Coriolanus sentia-se envolto por memórias, como se cada objeto, cada centímetro do lugar, carregasse consigo a marca indelével de Lucy Gray. A sombra que ela deixou pairava sobre ele, intensificando a dor da ausência.
A letargia o consumia, trancado em seu próprio reduto, dias a fio, com apenas Tigris conseguindo romper a barreira imposta pela sua solidão. Tigris, preocupada, vislumbrava nos olhos dele a possibilidade de um desespero capaz de precipitar atos extremos. Contudo, mesmo imerso em sua própria melancolia, Coriolanus mantinha uma aura de orgulho, uma barreira intransponível para a autopiedade.
O apartamento, antes um refúgio, tornara-se uma prisão autoimposta. As distrações eram ineficazes; sequer tentou buscar consolo em atividades cotidianas. A raiva de sua própria incapacidade de superar o luto o corroía, enquanto o desejo de escapar, de esquecer, tornava-se uma âncora pesada demais para ser ignorada. O isolamento tornava-se sua única saída, uma muralha que ele construía para ocultar o sangramento interno.
Evitava o mundo exterior, suas distrações e suas tentativas de consolo. O anseio por um esquecimento era como um câncer emocional, corroendo-o incessantemente. Cada face, cada conversa, servia apenas para destacar a ausência de Lucy Gray. Ninguém possuía sua essência, seu olhar, seu sorriso – tudo parecia vazio.
Quando a notícia de sua viuvez jovem espalhou-se pela Capital, possíveis pretendentes começaram a surgir. Tigris, como uma espécie guardiã atenta, enfrentava investidas de mulheres que desejavam oferecer consolo a Coriolanus. Mas ele fugia desse caminho, recusando-se a aceitar consolação de estranhos. Não era isso que ele queria. O orgulho ferido, a dor silenciosa, eram suas companhias indesejadas, mas preferíveis à falsa compaixão que outros tentavam impor.
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O ENCANTO DA SERPENTE [Concluída]
FanfictionLucy Gray é capturada e levada à Capital quatro anos após a 10ª edição dos Jogos Vorazes. Entre os impenetráveis muros erguidos pela exploração incansável dos distritos, surge um casamento arranjado que serve como um delicado equilíbrio entre dois l...
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