Luíz
Lágrimas corriam pelo meu rosto enquanto eu corria com todas as minhas forças, elas pareciam queimar em meu rosto e ao mesmo tempo que sentia essa tristeza descomunal, também sentia raiva, uma sede de vingança, uma vontade de fazer aquele filho da puta se arrepender do que fez, mas como? Mal sabia como fiz aquilo antes, nem sabia que podia fazer aquilo, apenas aconteceu e fugi logo em seguida como um covarde, um covarde chorão e medroso.
- Eu sinto muito mamãe, se eu soubesse que podia fazer isso... se eu tivesse tentando antes dele... - Falo baixinho para mim mesmo, estava gaguejando pois ainda estava chorando; aquela dor estava agarrada em mim e não conseguia me livrar dela, não sabia se queria também. - Eu espero que a senhora me perdoe quando eu te ver de novo, eu deveria ter tentado mais! - Olho para minhas mãos, elas ainda brilhavam um pouco com faíscas dos raios que conjurei antes, apesar de não saber como.
Como estava correndo sem rumo algum, não estava reparando ao cenário em que estava até começar a reparar em várias árvores bem grandes, o mato estava bem mais alto e os barulhos da cidade ficaram mais baixos, tudo que podia ouvir eram os barulhos da mata, porém, era isso ou aquele zumbi de merda, então os animais eram a melhor opção. Já estava de noite e a única luz que tinha era a da lua, o seu brilho prateado e luz suave faziam a floresta parecer menos assustadora, porém, ainda podia sentir todo o meu corpo se tremendo só de pensar no que poderia estar me observando.
- A lua tá linda, não é atoa que o sol se apaixonou por ela! - Era algo que minha mãe costumava me dizer, ela era uma devota fervorosa da Deusa Jaci e sempre admirava a lua, apesar de nunca ter sentido essa tal "fé", olhar para a lua me lembrava de mamãe e isso me dava um certo conforto nesse cenário apesar de tudo.
Contudo, depois de tudo que acabou de acontecer, aquele monstro que queria me matar, aquela história de semideuses e minha mãe aparecendo com uma arma com o mesmo brilho da arma que aquele verme carregava, me pergunto, poderiam essas lendas serem verdade? Seria eu realmente um semideus? Mas isso não fazia sentido, semideuses são só personagens de histórias, eles não existem de verdade, mas imortais também não deveriam existir, no entanto acabei de ver um. O que caralhos estava acontecendo? E porque comigo de todas as pessoas desse mundo? Suspiro, finalmente parando perto de uma árvore para descansar, não poderia correr para sempre, mas também não poderia ficar parado e esperar a morte.
- Ah mamãe, como eu queria que a senhora tivesse aqui agora! - Sussuro; limpo minhas lágrimas e tento me acalmar, apesar de ser uma tarefa bem difícil, havia acabado de perder minha mãe, o meu mundo, de uma forma que nunca imaginei sendo possível e agora estava sozinho, possivelmente sendo caçado por um ser que quer meu sangue... este era o pior aniversário da minha vida!
Estava cansado, queria poder fechar os olhos e dormir, mas... como? Como se dorme em uma situação dessas? Se isso fosse um pesadelo, gostaria muito de poder acordar nesse exato momento, abraçar a minha mãe e dizer que tive um pesadelo horrível... porém, sabia que isso não ia acontecer o que doía ainda mais.
Agarro minhas mãos na terra, tentando descontar minha raiva em algo, porém isso não era o suficiente, nada era o suficiente. Se eu realmente sou um semideus, porque meu pai divino ou sei lá não me ajudou quando precisava? Por que ele não ajudou minha mãe? Por quê? Se aquele raio foi ele, porque ele não fez isso antes?
- Se você pode me ouvir, pai, se é que você realmente existe, me diz, por quê? Por quê? - Grito com raiva desse ser que nem sabia se existia ou não, mas se existia, ele era um miserável que não merecia meu tempo ou ter tido a oportunidade de conhecer minha mãe! E como aconteceu mais cedo, minhas mãos começam a brilhar com energia de novo e começo a disparar raios em todo lugar, botando fogo nas árvores, espatando os animais, não me importava se eu destruísse aquele lugar todo, nada iria retirar a minha raiva, a minha dor.
No entanto, enquanto deixava minha raiva me levar e transformava aquele lugar inteiro em carvão, pude ouvir um barulho, cesso meu ataque de fúria conta a floresta e fico atento, procurando de onde aquele barulho teria vindo, seria o miserável de novo? Se fosse, ele iria sentir a minha fúria de novo e dessa vez seria bem pior, no entanto, o que sai da mata me surpreende.
- Um veado? - Olho confuso para o animal, ele parecia me encarar curiosamente, o mais estranho eram os chifres da criatura que eram coloridos como o arco-íris, teria alguém jogado tinta nele? Era uma nova espécie? Seria mais um desses seres que não deveriam existir, mas existem? Ou seria apenas um truque daquele filho da puta? Não sabia bem o que pensar, então acabo mirando um raio bem perto do animal para ver como ele reagiria, o veado pula bem antes do raio atingir o chão e então se transforma em um rapaz lindo com cabelos cacheados, pele negra e olhos vermelhos que brilhavam como rubis, eram lindos, não sabia que alguém podia ter olhos daquele cor, sendo ele um pouco mais alto que eu mesmo, ele me encarava com um olhar de raiva.
- Pare esta loucura, Luíz! Não destrua a mata, ela não fez nada com você, na verdade, ela é sua melhor aliada! - O estranho grita. - Sei que está chateado, eu entendo, também estaria se fosse você, mas machucar a mata não a trará de volta e você sabe disso!
Suspiro ao ouvir suas palavras, o estranho bonitão estava certo, destruir a mata não traria ela de volta por mais satisfatório que fosse, porém acabo percebendo algo enquanto penso em minhas ações, haveria eu dito meu nome em vão enquanto andava pela floresta? Não me lembrava de ter feito tal coisa, e como ele havia se transformado de veado para humano?
- Como você sabe meu nome? E como você conseguiu fazer aquilo lá de se transformar em um animal? Você é amigo daquele monstro? - Tento lentamente me afastar dele, porém, ele me segue.
- Estive te observando por um tempo a pedido de meu pai e sobre eu me transformar, consigo fazer isso do mesmo jeito que você solta esses raios! - Olho para ele confuso, ele ri da minha cara. - Você, assim como eu, é um semideus, sou filho de Anhangá e você meu caro, Luíz, é filho de Tupã pelo que posso ver!
- Tupã, tipo o Deus do Trovão? - O pergunto incrédulo, ele balança a cabeça que sim. - Mas como? Os Deuses são reais? Isso... isso não faz sentido nenhum e se meu pai é Tupã, o criador deste mundo, por que ele não me ajudou a enfrentar aquele monstro? Ele basicamente tem poder para derrotar qualquer coisa desse mundo, não tem? - Estava falando bem rápido e minha voz estava trêmula, tanto estava acontecendo em um só dia.
Matheus suspira ao ouvir minhas palavras, como se estivesse com medo ou vergonha de me falar a verdade, porém, não hesita em dizê-la, mesmo ela podendo me afetar.
- Ele tem sim esse poder, porém, ele não toma mais ações nesse mundo com suas próprias mãos, já passou o tempo em que ele usava seus poderes para ajudar a população, ele já nos ensinou tudo que poderia e agora apenas assiste o seu trabalho! - Ele coloca uma de suas mãos em um ombro meu para me consolar. - Há muito tempo atrás ele disse que não ia intervir com assuntos mortais de novo, o motivo? Bom, ele já se apaixonou por uma mortal antes e quase destruiu o mundo inteiro apenas para ficar com ela, porém, no final ela acabou morrendo e preferiu ficar morta do que ter que lidar com os perigos de amar um Deus! Desde então, ele tenta não intervir em assuntos mortais, o máximo que ele faz é encontrar mulheres de tempos em tempos e ter filhos com elas para que sua prole possa agir em seu nome! Suponho que esse seja o motivo de seu nascimento já que os filhos dele são muito poderosos e perigosos! - Ele mostra todo o estrago que fiz na floresta, olho para baixo, me sentindo envergonhado. - Algo provavelmente está para acontecer, por isso Tupã fez com que seu nascimento acontecesse!
Várias emoções me atingiram de uma só vez, a minha existência era apenas para fazer algo em nome de um ser que nunca sequer esteve comigo? Ele nunca me ajudou em nada nessa vida, naquela luta talvez, mas tirando isso, onde estava ele quando eu passava fome? Onde estava ele quando minha mãe tinha que trabalhar como uma escrava para ganhar uma porcaria de salário que não dava para nada? Onde estava ele quando ela morreu? Ela era apenas uma parteira pra ele?
- Você tá bem? Parece meio chateado... - Matheus me diz preocupado, eu queria gritar, queria poder destruir tudo em meu caminho, mas acabo me ajoelhando no chão e chorando, chorando como nunca chorei antes, como se eu fosse formar um rio ali com minhas próprias lágrimas, Matheus acaba me abraçando e isso faz eu me sentir um pouco melhor, quem diria, um completo estranho me ajudando mais que meu pai divino.
- Obrigado! - Digo depois de passar alguns longos minutos chorando nos ombros dele. - E desculpe por isso, a gente acabou de se conhecer e você já teve que me ver assim! - Limpo minhas lágrimas e Matheus me dá um sorriso simpático.
- Não se preocupe, vi o suficiente enquanto te observava para saber que você é uma pessoa gentil e amorosa! É normal sentir raiva e dor em situações como a sua, você tem todo direito de se sentir assim e ninguém pode te dizer o contrário! Mas acredite, mesmo que o único motivo do seu nascimento tenha sido um provável futuro próximo, isso não muda quem você é e nunca vai! - Ele me abraça de novo e me ajuda a levantar, sorrindo enquanto o faz, ele pega uma de minhas mãos na sua. - Agora, que tal eu te levar à um lugar onde você não só vai estar seguro do Homem Seco, como também vai achar gente que entende como você se sente?
- Onde seria isso? No manicômio? - Matheus ri com minhas palavras e eu acabo rindo também já que sua risada era contagiante.
- Não, seu bobo! Vamos ao Acampamento Meio Deus! Basicamente minha casa e de muitos outros semideuses, tenho certeza que você vai adorar! - Ele parecia animado com isso tudo, sinceramente qualquer lugar que não fosse uma floresta escura e solitária seria melhor.
- Bom, mostre o caminho, garoto veado!
Continua...
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Acampamento Meio Deus
FantasiEm um mundo onde todos os mitos são reais, não seria diferente no Brasil. Os semideuses Brasileiros possuem um local seguro onde são livres das ameaças dos monstros e criaturas que vivem para os caçar, o homem do saco captura semideuses ainda crianç...
