1. Ecos de uma Verdade Esquecida

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Elias sempre se sentiu à parte do mundo ao seu redor, como se uma cortina invisível o separasse das trivialidades do dia a dia. Essa sensação de alienação era um eco constante em sua vida, talvez resultado de uma educação solitária ou do ambiente em que cresceu — uma casa repleta de antigos tomos e artefatos que sussurravam segredos das profundezas do tempo e do espaço. A recente morte de seu avô intensificou essa sensação, deixando-o com a herança de uma antiga mansão familiar, isolada no topo de uma colina, olhando para uma pequena e esquecida cidade rural, que parecia ter sido esquecida pelo próprio tempo.

Numa tarde tempestuosa, enquanto o vento uivava como presenças antigas em volta da casa de pedra, Elias desceu até o porão para arrumar alguns pertences do avô. O ambiente era sombrio e abafado, e a luz da lanterna lançava sombras dançantes nas paredes. Entre caixas empoeiradas e móveis cobertos de lençóis, ele se deparou com uma porta semiaberta, coberta por uma espessa camada de poeira. Impelido por uma curiosidade avassaladora, ele empurrou a porta, revelando uma biblioteca secreta que seu avô nunca mencionara.

O cômodo era pequeno, mas sua grandiosidade era evidente nas estantes que se erguiam do chão ao teto, cada centímetro ocupado por livros de couro gasto e pergaminhos amarelados. O cheiro de mofo e conhecimento antigo era quase palpável, um convite a mergulhar nas profundezas do saber oculto. Elias sentiu uma onda de emoções ao entrar, como se estivesse prestes a desvendar um mistério ancestral.

Com o coração acelerado, Elias começou a explorar os títulos, tocando as lombadas com reverência. O silêncio era ensurdecedor, quebrado apenas pelo sussurro do vento lá fora, que parecia lamentar a revelação. Foi então que um volume em particular chamou sua atenção. Era maior que os outros, encadernado em couro escuro e decorado com símbolos astronômicos dourados que brilhavam de forma hipnotizante. Seu título, "Arcanum Celestis", pulsava com uma energia que parecia vibrar em sintonia com o próprio cosmos. Ao folheá-lo, Elias descobriu que se tratava de um compêndio de conhecimentos astronômicos e teológicos, narrando eventos celestiais que pareciam mais fantásticos do que reais, como se cada palavra fosse uma chave para portais além da compreensão.

Um capítulo em especial parecia ter sido o mais consultado, evidenciado pelo desgaste de suas páginas. Intitulado "O Despertar de Kor'valis", descrevia um evento celestial raríssimo em que um ser de outro plano da existência manifestava-se através das estrelas. O texto detalhava com precisão a aparência de Kor'valis, um ente cósmico cuja presença era descrita como uma onda de luz pulsante, capaz de alterar a própria realidade. O relato mencionava um local específico, um deserto distante conhecido como Zhar, onde Kor'valis teria tocado a Terra pela última vez, deixando uma marca indelével no tecido do tempo.

Movido por uma curiosidade insaciável e um crescente senso de destino, Elias decidiu que precisava ver esse lugar, sentir o que seu avô havia sentido ao estudar esses mistérios. A ideia de que poderia estar a um passo de uma revelação tão profunda o consumia. Nos dias seguintes, ele se preparou para a jornada, reunindo suprimentos e equipamentos astronômicos, como telescópios e mapas celestiais que traçavam os caminhos das estrelas. Cada item que ele selecionava parecia carregado de significado, como se cada um fosse um elo que o conectava a um conhecimento perdido.

Em suas últimas noites na mansão, Elias passou horas na biblioteca, mergulhado em leituras sobre Kor'valis e tentando decifrar os padrões e previsões estelares antigos que seu avô havia estudado com tanto fervor. Ele anotava obsessivamente em um caderno, sentindo que estava à beira de uma revelação que poderia mudar sua vida e, talvez, a compreensão humana do cosmos.

Ao amanhecer do dia de sua partida, enquanto arrumava seu carro para a longa viagem, Elias sentiu uma mistura de excitação e medo. O sol despontava no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e rosa, e ele sabia que estava prestes a entrar em um mundo que desafiava a compreensão, onde a realidade talvez se mostrasse mais maleável e vasta do que ele jamais poderia imaginar. Com um último olhar para a mansão que fora seu lar por tantos anos — agora envolta em sombras e memórias — Elias partiu, guiado pelas estrelas e pelo sussurro de uma verdade há muito esquecida que agora começava a ecoar de novo em sua mente. A estrada se estendia diante dele, uma faixa de destino marcada por mistérios, enquanto os ventos da mudança o levavam em direção ao desconhecido.

O Sussurro das Estrelas - ByLiFearOnde histórias criam vida. Descubra agora