Elias deixou a segurança de sua casa pouco antes do amanhecer, quando a luz do dia ainda hesitava em romper a escuridão. O caminho para o deserto de Zhar seria longo e solitário, um périplo que atravessava vastas extensões de terras esquecidas por mapas e homens. Cada quilômetro percorrido afastava-o do familiar, mergulhando-o em um mar de incertezas.
Conforme dirigia, o mundo ao seu redor gradualmente se transformava. As cidades, antes vibrantes e cheias de vida, foram se esvaindo, dando lugar a pequenos povoados que pareciam perdidos no tempo, até que a paisagem se resumia ao implacável avanço do deserto. O asfalto se transformou em estrada de terra, e a vegetação rarefeita, em uma imensidão de areia e rochas.
À medida que o sol se punha, as cores do céu mudavam para tonalidades de cobre e ouro, refletindo sobre as dunas como ondas de um mar incandescente. Elias sentia-se como um navegante solitário, cruzando um oceano de areia sob o olhar impassível das estrelas. A vastidão do deserto o envolvia, despertando nele um profundo senso de conexão com algo maior. À noite, ele montava um pequeno acampamento e se sentava para observar o céu. Com cada estrela que surgia, o deserto parecia sussurrar, preenchido com a promessa de segredos antigos prestes a serem revelados.
Os dias passavam assim, entre a condução sob o sol escaldante e as noites passadas sob o manto estrelado, cada noite um pouco mais fria e silenciosa que a anterior. Com o tempo, Elias começou a sentir a presença de algo mais, uma sensação inquietante de estar sendo observado por olhos invisíveis. As noites no deserto de Zhar eram interrompidas por sons estranhos — sussurros quase imperceptíveis que pareciam falar diretamente à sua alma, o vento formando palavras que quase podia entender, ecoando histórias que transcendiam o tempo.
Numa manhã, ao chegar a uma pequena vila à beira do deserto, Elias decidiu buscar informações locais. Os habitantes eram um povo taciturno, com olhos que pareciam abrigar a sabedoria de gerações. Quando ele perguntou sobre Kor'valis e a "Noite das Revelações", notou uma mudança perceptível no ar. Os sussurros cessaram abruptamente, substituídos por um silêncio denso que parecia vibrar com uma tensão palpável. Um ancião, cuja pele estava tão calejada quanto a paisagem ao redor, finalmente se manifestou, sua voz baixa carregada de um temor reverente.
"Você não busca uma lenda, estrangeiro," disse o ancião, olhando diretamente para o horizonte onde o sol começava a se pôr, uma esfera de fogo prestes a se enterrar nas areias do deserto. "Você busca um despertar. E alguns despertares são tão antigos quanto o próprio cosmos, não devendo ser perturbados."
Elias sentiu um calafrio percorrer sua espinha. As palavras do ancião ecoavam os avisos encontrados nos manuscritos de seu avô, que alertavam sobre as consequências de tocar o que não deveria ser tocado. Ele sabia que estava se aproximando do coração do mistério, e o sentimento de destino que o impulsionava agora trazia um peso que ele não podia ignorar. Naquela noite, enquanto se preparava para mais uma vigília sob as estrelas, Elias começou a sentir uma perturbação no ar, uma vibração quase elétrica que prenunciava a aproximação de algo grande e terrível.
Conforme a noite avançava, Elias não apenas observava o céu, mas também se sentia parte dele. As estrelas pareciam dançar ao ritmo de uma música que apenas ele podia ouvir, uma melodia cósmica que o atraía cada vez mais para o desconhecido. Foi então que viu, pela primeira vez, formas se movendo na borda de sua visão. Pequenas sombras, talvez criaturas, que não pareciam pertencer a este mundo, mas sim emanações daquele ser cósmico que ele tanto procurava.
A tensão no ar era palpável, e as sombras pareciam sussurrar, revelando-se como ecos de uma presença antiga. Naquela noite, Elias mal dormiu, tomado por um misto de terror e fascinação. Ele estava no véu das estrelas, e o véu lentamente se levantava, revelando horrores e maravilhas que desafiavam a compreensão humana. Com a chegada da alvorada, ele sabia que nada seria como antes. Suas buscas o levaram até ali, e agora, não havia retorno. O deserto, em sua vasta solidão, tornava-se um espelho de sua própria jornada interior, onde o desconhecido pulsava com a mesma intensidade que as estrelas acima. Elias estava prestes a cruzar a fronteira entre a realidade e o além, e a jornada apenas começava.
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