Capítulo 14 - POV Katherin Vanderlaan

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"Senhorita?" Ouvi uma vozinha fininha me chamar, mas apenas resolvi ignora-la, me virando para o outro lado. "Senhorita? Senhorita Katherin?" Insistiu a moça, e irritada, sentei no colchão, deixando as cobertas caírem no chão. Uma façanha bem grande, na verdade, pois a cama era incrivelmente maior que a minha antiga, no apartamento da minha mãe. Caberia dois gigantes nela, sem dúvidas.
"O que foi? Dormir é proibido aqui também?"
A criada deu uma risadinha fraca, mordendo o lábio pelo nervosismo, e a vi virar só um pouquinho o rosto pra trás em uma tentativa falha de buscar a ajuda de suas colegas. Elas mantinham as cabeças abaixadas, fazendo o que tinham que fazer, abrindo as cortinas do quarto e pegando meu roupão. Quando a mesma voltou o rosto para mim, me encontrando com a boca escancarada, apenas imaginei de que ela havia odiado ter ficado com a função de me acordar, e que trocaria de lugar com qualquer outra agora.
"A rainha America gostaria que todas as garotas a encontrassem no salão das mulheres, senhorita."
"E se eu preferir dormir?" Perguntei, embora já estivesse me deitando novamente sem nem antes ouvir a resposta da criada, puxando os cobertores pra mim.
"Esta é a sua decisão, senhorita?"
"É, acho que é."
"Desejas tomar o café da manhã aqui?"
"Tanto faz!" Berrei pras cobertas que já me tapavam até a cabeça, deixando minha voz abafada. "Agora me deixe dormir!"
"Como desejares, senhorita. Avisarei a rainha sobre sua ausência na reunião." Resmunguei alguma resposta para ela, e depois de alguns minutos, finalmente tive o silêncio para mim novamente.
E eu tentei voltar a dormir, só que uma vez acordada, minha cabeça já começava a pensar nas mais diversas coisas. Imagens da próxima coleção que eu tinha pra fazer há apenas duas estações começaram a rodar pela minha mente, e tive que chacoalhar a cabeça algumas vezes para parar de pensar naquilo. A voz irritante da criada então substituiu os sapatos, repetindo diversas vezes sua última frase como um disco arranhado.
"Oh, meu deus! Reunião? Oh meu deus, oh meu deus, oh meu deus!" Pulei da cama, me atrapalhando com os lençóis que enrolavam na minha perna. Vesti meu roupão na minha maior rapidez e saí correndo, sem me importar em ajeitar o cabelo ou lavar o rosto caso ter ainda uma linha de baba seca no canto da boca.
Se a Tia Eleanor tivesse aqui, isso jamais teria acontecido, resmunguei em pensamentos, reclamando comigo mesma.
Tia Eleanor era uma mulher incrível. E cheia de truques também! O maior deles era como me acordar. Começava a me contar uma história de mansinho, e quando chegava na melhor parte, ela fechava o livro, dizendo que terminaria apenas na manhã seguinte, e para isto eu teria que acordar cedo. Eu soltava sempre alguns resmungos, protestava, mas no fim concordava. E antes de eu ir pra escola, mais um truque; Biscoitinhos da sorte.
"Biscoitos da sorte não trazem sorte de verdade. Mas conseguem te arrancar seus melhores sorrisos." Repeti sua velha frase, ainda me recordando de nossos dias juntas. E eu sorri. Era esse o poder dela. Ela conseguia fazer com que todos rissem, até os mais rabugentos. Ela conseguia me fazer sorrir todos os dias. Muito o contrário de minha mãe, que milagrosamente se lembrou que tinha uma filha quando meu rosto começou a ser estampado em algumas revistas, me obrigando a morar com ela e proibindo de que eu me encontrasse com tia Eleanor novamente.
No começo, costumava pensar em que tipo de conto eu mais me encaixava. Talvez Bela e a Fera, tendo sua vida nas mãos de uma besta. Ou Rapunzel, presa na torre por uma horrenda bruxa. Mas Cinderela sempre fora o que me retratou melhor, embora não tivesse irmãs e nem madrasta.
Estava ainda parada no meio do corredor quando decidi voltar para meu quarto atrás do último presente que minha tia me dera - um pote cheio de biscoitinhos da sorte - , porém minha testa bateu em algo duro, que praguejou alto. Olhei para seu rosto, vendo o príncipe esfregar os dedos em se queixo, lugar onde eu havia lhe machucado.
"Tens a cabeça dura, hein?" Ouvi ele dizer em meio a alguns ruídos, mas não de um jeito irritado. Ele ria, na verdade, fazendo com que eu não me sentisse tão mal.
"Me desculpe, alteza." Estava prestes a lhe contar toda a história dos biscoitos, justificando minha pressa, mas minha voz estava tão nervosa com ele me encarando, que resolvi dizer o menos possível. "Eu queria pegar uma coisa que esqueci. No quarto, meu quarto."
"Cuidado então, Cinderela." Segui seu olhar, pousado no par de pantufas que eu calçava, uma enorme cabeça da Cinderela estampado em cada pé. "Não vá perder seus sapatinhos." Apenas sorri, envergonhada demais pra dizer qualquer outra coisa.
"Seu nome é muito bonito, Katherin." Ele disse depois de um tempo, porém eu já não tinha mais coragem de olhar para seu rosto. Sentia que iria derreter se eu encarasse novamente seus olhos, seu sorriso, seus lábios.
"E o seu é digno de rei." Confessei, encarando minhas pantufas, sentindo-me uma grande idiota.
E pareceu que o tempo havia parado por um minuto; Os criados não mais passavam por entre nós. Nem guardas. Nem mais ninguém. E Ele não me disse mais uma palavra, como se nem estivesse aqui. Meus olhos me traíram e se ergueram até encontrar sua face, um brilho radiante pulsando em suas íris, que agora, já não mais me pareciam tão escuras. "O que foi?" Perguntei, agora começando a me preocupar se realmente tinha baba seca no meu rosto.
"Nada." Ele riu, fazendo jogo duro.
"Qual é! Me conte!" Dei um soquinho em seu ombro, encorajando-o.
"Sei lá. É que nunca ninguém me disse algo tão legal." Ele deu de ombros, como se falasse de alguma coisa qualquer. "Ninguém me vê como um futuro rei."
"Bom, eu vejo." Levantei o queixo, como se o desafiasse, embora não fosse nada disso. "E tenho certeza que, um dia, todos vão conseguir enxergar o mesmo homem que eu enxergo."
"É." Ele falou baixinho, e parecia que ele próprio não confiava em si e no potencial que tinha. Meu deus, todos eram cegos por aqui?! "Um dia."
Finalmente, um barulho. Um guarda, ainda meio escondido na curva do corredor, acenava para o príncipe com a cabeça, e logo vi Kaylon fazendo o mesmo.
"Preciso ir agora." Ele se virou pra mim, e na hora me entristeci, meu olhar caindo para as pantufas novamente. "Mas adoraria que continuássemos essa conversa mais tarde." Sua voz tímida me animou, e devolvi-lhe um sorriso alegre. "Quando as criadas te chamarem pro almoço, vá direto ao jardim. Estarei lhe esperando, Katherin." Seu sorriso se esticou apenas para um lado, e não mexi mais nenhum músculo meu até que seus passos se afastaram o suficiente, e soltei o ar de uma só vez. E tudo o que pensei foi de que eu precisava contar isto para tia Eleanor o quanto antes.

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Não me matem, eu nem demorei! E não foi culpa minha! Fui sequestrad... Tá, parei.
Acabei ficando sem muito tempo e pouca inspiração pra fazer o capítulo, MAS EU VOLTEI! Espero que ele acabe compensando pelo tempo que deixei vocês esperando. 
Oito beijos gigantescos! 

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