004 | Um peão dramático

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Eu não fazia ideia de onde estava me metendo, sério. Enquanto dirigia a caminhonete do Jake por aquelas ruas meio escuras, com ele apagado no banco do passageiro, eu só pensava em duas coisas: primeiro, como eu tinha ido parar naquela situação; segundo, em que momento exatamente eu tinha virado a pessoa responsável da história.

Spoiler: eu não gostava disso.

Olhei de relance pra ele. Cabeça encostada no banco, chapéu torto, completamente entregue ao sono e à falta de dignidade. Se alguém visse aquela cena sem contexto, jamais imaginaria que aquele era o mesmo cara que, horas antes, estava montando um boi como se fosse a coisa mais fácil do mundo.

— Impressionante — murmurei — você passa de herói pra problema em menos de duas horas.

Ele resmungou alguma coisa inaudível, provavelmente em resposta, mas não acordou de verdade.

Segui o caminho que ele tinha conseguido me indicar — com dificuldade, vale dizer — até parar em frente a uma casa simples, afastada das outras. Era o tipo de lugar que deixava claro que ele realmente morava sozinho.

Desliguei o carro e suspirei.

— Chegamos.

Silêncio.

— Jake.

Nada.

Inclinei um pouco pro lado e cutuquei o braço dele.

— Jake, acorda!

Ele fez uma careta, abriu um olho... e fechou de novo.

— Não.

— Como assim "não"? — eu ri, incrédula. — Você não tem essa opção.

— Tô bem aqui — ele murmurou, sem se mexer.

— Você não vai dormir na caminhonete.

— Vou. — Ele puxou o chapéu pro rosto e cruzou os braços voltando a dormir.

— Não vai. — Cruzei os braços também.

Ele abriu os dois olhos por baixo do chapéu dessa vez, me olhando com uma expressão quase ofendida.

— Por quê?

— Porque isso é ridículo.

— Eu moro sozinho — ele respondeu, como se aquilo explicasse tudo.

Eu franzi a testa.

— E?

— E eu não vou saber me virar lá dentro.

Fiquei alguns segundos em silêncio, tentando entender se ele estava falando sério.

Ele estava.

— Você... não sabe entrar na sua própria casa?

— Não nesse estado.

Eu passei a mão no rosto, segurando o riso.

— Jake, é literalmente só abrir a porta e deitar.

— Não confio em mim — ele disse, com uma convicção impressionante.

Eu respirei fundo.

— Eu não acredito nisso.

— Eu também não — ele respondeu, tentando sentar direito — mas é verdade.

Antes que eu pudesse impedir, ele abriu a porta e desceu da caminhonete.

Ou melhor... tentou.

Porque o resultado foi um tropeço seguido de um quase-encontro com o chão.

— Cuidado! — eu saí do carro rapidamente, indo até ele.

Beijo, briga e boiHistórias para pegar e não largar. Descubra agora