Eu não fiquei até o final.
Na verdade, eu nem sei exatamente em que momento decidi ir embora. Só sei que, de repente, o barulho ficou alto demais, as luzes começaram a incomodar e a sensação dentro do peito... ficou impossível de ignorar. Foi como se tudo tivesse perdido a graça de uma vez só. Sem aviso. Sem explicação.
Saí da baladinha tentando parecer normal, passando pelas pessoas como se estivesse tudo bem, como se eu só estivesse cansada. Ninguém me parou. Ninguém percebeu. E, por algum motivo, aquilo me incomodou mais do que deveria.
O caminho até o estacionamento era mais escuro, mais silencioso. O tipo de lugar onde a música já não chegava com tanta força e o barulho virava só um eco distante. Foi aí que eu senti.
Quando vi, já estava chorando.
Sem fazer barulho. Sem soluço. Só... lágrimas caindo.
Franzi a testa, limpando o rosto com as costas da mão.
— Que ridículo... — murmurei. — Eu nem sei por quê eu tô chorando.
Mas eu sabia.
Eu só não queria admitir.
Continuei andando, tentando me recompor, respirando fundo várias vezes. Não era nada demais. Não podia ser nada demais. Era só um beijo. Só isso.
— Só isso... — repeti, tentando acreditar.
— Ei!
A voz atrás de mim me fez congelar por um segundo. Fechei os olhos rápido, passando a mão no rosto mais uma vez antes de me virar.
Jake.
— Tá fugindo? — ele perguntou, se aproximando, com aquele tom leve de sempre.
Balancei a cabeça, forçando um sorriso.
— Só indo embora.
Ele parou na minha frente, colocando as mãos no bolso, me olhando com aquele meio sorriso irritantemente tranquilo.
— Já? Nem ficou pra comemorar comigo?
— Já comemorei o suficiente — respondi, dando de ombros.
Ele riu baixo.
— Nem veio falar comigo.
— Você tava ocupado.
Ele inclinou a cabeça, como se estivesse tentando entender.
— Ocupado?
— É — respondi, desviando o olhar — comemorando.
Ele ficou em silêncio por um segundo, depois deu um passo mais perto.
— Você tá estranha.
— Eu tô normal.
— Não tá, não.
Revirei os olhos.
— Você sempre analisa todo mundo assim?
— Só quem importa pra mim.
Aquilo me pegou desprevenida por meio segundo, mas eu ignorei.
— Relaxa, Jake — falei, cruzando os braços — eu só tô cansada.
Ele me olhou mais um pouco, como se estivesse tentando ler alguma coisa no meu rosto. E, por sorte... estava escuro.
— Então eu te levo embora — ele disse.
— Não precisa.
— Precisa sim.
— Jake—
Antes que eu terminasse, ele estendeu a mão e puxou levemente meu braço.
— Para de ser teimosa.
Acabei soltando uma risada, sem querer.
— Você é muito insistente.
— Eu sei — ele respondeu, sorrindo.
Ficamos ali por alguns segundos, aquela leveza estranha voltando como se nada tivesse acontecido. Como se, alguns minutos antes, eu não tivesse visto ele beijando outra pessoa. Como se eu não estivesse com o peito apertado.
— Você ganhou, né? — perguntei.
— Ganhei — ele respondeu, com um certo orgulho.
— Trinta mil reais... — balancei a cabeça — agora vai ficar insuportável.
— Já sou — ele disse, dando de ombros.
— Convencido. — Eu ri, mas o peito apertou de novo. — Me diz uma coisa — falei, mais séria.
Ele parou de sorrir na mesma hora.
— O quê?
— O que você quer de mim?
Ele franziu a testa, claramente confuso.
— Como assim?
— Me diz — insisti, a voz falhando um pouco — você fala comigo, você... você faz parecer que gosta de mim... e aí, quando eu olho, você já sumiu e tá beijando outra pessoa. Minha amiga.
O silêncio pesou.
— Se é pra ser assim... — respirei fundo, tentando segurar a voz — Se é pra sofrer, eu não quero te ver.
Ele abriu a boca, mas eu não deixei.
— Sai da minha vida, Jake — falei, sentindo as lágrimas voltarem — e vê se me esquece.
Eu não olhei pra trás.
Mesmo sentindo que ele ainda estava ali, parado, provavelmente tentando entender o que tinha acabado de acontecer, eu simplesmente continuei andando. Cada passo parecia mais pesado que o outro, como se alguma coisa dentro de mim estivesse tentando me puxar de volta, insistindo pra eu parar, voltar, consertar. Mas eu não parei. Eu não podia.
O estacionamento estava quase vazio naquela parte, com poucas luzes acesas e um silêncio que só fazia tudo parecer maior do que realmente era. O som da festa já tinha ficado distante, abafado, como se fosse de outro mundo. E talvez fosse mesmo. Porque ali, naquele momento, nada parecia ter graça.
Respirei fundo, tentando me acalmar, mas não adiantou. O aperto no peito não diminuía. Pelo contrário, parecia crescer, subir pela garganta, pesado, sufocante.
— Para... — murmurei, levando a mão ao peito. — Para com isso.
Mas não parou.
As lágrimas voltaram, mais fortes, mais rápidas, sem nem pedir permissão. Eu tentei limpar, tentei respirar, tentei fingir que dava pra controlar. Não dava.
Eu me curvei um pouco pra frente, levando a mão à boca, e mal tive tempo de reagir antes de sentir o enjoo virar outra coisa. Dei alguns passos rápidos até o canto mais escuro do estacionamento, me apoiando numa das laterais de um carro qualquer, e acabei vomitando ali mesmo.
Fiquei ali por alguns segundos, respirando pesado, tentando entender o que estava acontecendo comigo.
Passei a mão na boca, ainda meio trêmula, apoiando a testa no braço enquanto tentava recuperar o fôlego. Meu corpo inteiro parecia estranho, fraco, como se tivesse sido puxado pra baixo junto com tudo aquilo.
— Que ótimo... — sussurrei, a voz falhando. — Agora eu tô passando mal por causa de sentimento.
Soltei uma risada curta, completamente sem humor.
— Ridículo.
Fiquei ali mais um pouco, em silêncio, deixando o vento leve bater no rosto, tentando esfriar aquela sensação que não passava. Aos poucos, fui me endireitando, ainda meio zonza, ainda com o peito apertado.
Passei a mão no rosto de novo, limpando o que restava das lágrimas.
— Já deu — falei baixo, mais firme dessa vez. — Já deu.
Olhei ao redor. O estacionamento continuava vazio, indiferente ao fato de que, naquele exato momento, parecia que alguma coisa dentro de mim tinha simplesmente desmoronado.
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Beijo, briga e boi
RomanceNo meio do caos de um rodeio lotado, entre montarias, música alta e garrafas de cachaça que "acabam rápido demais", Helena - a filha do prefeito, conhecida por carregar um nome maior que a própria paciência - decide esquecer a reputação perfeita por...
