Jake
Eu não fui atrás dela. E não foi por falta de oportunidade, nem por falta de saber exatamente onde ela estava ou como encontrar. Foi escolha mesmo. Fiquei parado naquele estacionamento por alguns segundos depois que ela saiu, olhando pro vazio como se aquilo fosse me dar alguma resposta, como se em algum momento ela fosse voltar ou como se o que ela disse fosse fazer menos sentido se eu ficasse ali tempo suficiente. Não fez.
As palavras dela continuaram ecoando na minha cabeça com uma clareza irritante, daquele tipo que não dá pra ignorar nem quando você tenta. "Se é pra sofrer, eu não quero te ver." Soltei um riso curto, mais de nervoso do que de graça, passando a mão no rosto como se isso fosse suficiente pra afastar aquilo. Sofrer?
Na minha cabeça, ela que estava complicando tudo. Eu não tinha prometido nada, não tinha pedido nada, não tinha... nada. Balancei a cabeça, respirando fundo, tentando me convencer de que aquilo não era grande coisa, de que era só mais uma situação mal resolvida como tantas outras que eu já tinha vivido.
— Nem se chovesse canivete eu ia pedir perdão — murmurei pra mim mesmo, com uma convicção que parecia sólida naquele momento.
E eu realmente acreditei nisso. Acreditei que era simples, que era só seguir em frente, pegar a estrada, fazer o que eu sempre fiz e deixar aquilo pra trás como qualquer outra história passageira.
Ir embora da cidade foi fácil. Difícil foi levar a cabeça junto. Dois dias depois, eu já estava em outra cidade, outro rodeio, outro público, outra arena. Tudo parecia igual por fora: o cheiro da terra, o som da multidão, a adrenalina antes da montaria, o peso da corda na mão. Era ali que eu sempre funcionava melhor, onde tudo fazia sentido, onde eu não precisava pensar em nada além de segurar firme e aguentar os oito segundos. Sempre foi assim. Só que, dessa vez, não estava sendo.
Subi no primeiro touro com a mesma postura de sempre, ajustando a luva, testando a firmeza da mão, sentindo o animal se mexer com força embaixo de mim. Meu corpo sabia exatamente o que fazer, cada movimento já estava decorado, automático, quase instintivo.
Mas minha cabeça... minha cabeça não estava ali. E bastou um segundo — um segundo mínimo, idiota, pequeno demais pra justificar qualquer erro — pra tudo desandar. No meio do movimento, no meio da força, no meio da concentração que sempre vinha fácil, eu pensei nela. No jeito que ela ria, no jeito que ela falava comigo como se não tivesse medo nenhum de me contrariar, no olhar que ela tinha quando estava brava.
Eu perdi o tempo, perdi o equilíbrio e fui pro chão antes dos oito segundos. Levantei na hora, como sempre fazia, ignorando a dor e fingindo que aquilo era só mais um erro comum, como se não tivesse significado nenhum. Mas tinha. Porque aquilo simplesmente não acontecia comigo.
No segundo round, a irritação já estava ali, grudada, difícil de ignorar. Eu subi no touro já incomodado comigo mesmo, tentando forçar a concentração de volta, como se fosse só uma questão de ajustar a cabeça no lugar certo.
— Concentra — falei baixo, quase como uma ordem.
A porteira abriu e o animal saiu com ainda mais força, girando, pulando, tentando me derrubar a qualquer custo. Eu segurei melhor dessa vez, consegui acompanhar o movimento por mais tempo, senti o controle voltando por alguns segundos, como se tudo fosse se encaixar de novo.
Cinco segundos. Seis. Sete... e então perdi de novo. Caí antes do tempo, sentindo o impacto mais forte dessa vez, ficando deitado na terra por um instante mais longo do que o normal, olhando pro céu enquanto o barulho da plateia chegava meio distante, meio abafado. Aquilo não era normal. Não pra mim.
Levantei devagar, limpando a poeira da roupa, tentando manter a postura de quem sabe exatamente o que está fazendo, mas por dentro já estava claro que alguma coisa estava errada. E não era o touro.
Na terceira cidade, já não dava mais pra fingir que era só um dia ruim. Subi no animal sabendo que o problema não estava no corpo, nem na técnica, nem na experiência. Estava na cabeça. E, mais especificamente, em quem estava ocupando espaço demais nela.
Ajustei a mão na corda, respirei fundo, tentei esvaziar os pensamentos, mas era inútil. A imagem dela vinha sem pedir, sem aviso, como se tivesse decidido se instalar ali sem intenção nenhuma de sair. O jeito que ela me olhava quando estava irritada, o jeito que ria mesmo tentando disfarçar, a voz dela dizendo pra eu sair da vida dela... e, principalmente, o momento em que ela virou as costas e foi embora sem olhar pra trás.
Soltei um riso baixo, amargo, ainda em cima do touro, antes mesmo da porteira abrir.
— Queria eu esquecer te esquecer. — pensei, quase irritado comigo mesmo por aquilo.
Quando a porteira abriu, eu já sabia. Três segundos. Foi tudo. Caí mais rápido do que nas outras vezes, sentindo o impacto e ficando ali no chão por alguns segundos, sem pressa nenhuma de levantar, como se o corpo tivesse finalmente acompanhado o cansaço da cabeça. Passei a mão no rosto, respirando fundo, encarando a terra de perto enquanto a realidade se organizava de um jeito que eu não tinha pedido.
Eu não sabia a falta que aquela garota fazia. Não fazia ideia. E o pior não era nem isso. O pior era perceber que eu não tinha notado quando aquilo começou. Em que momento ela deixou de ser só mais uma pessoa no meio de tudo e virou... aquilo.
Algo que bagunçava minha cabeça, que tirava meu foco, que fazia eu perder justamente a única coisa que eu nunca perdia. Sempre foi simples pra mim: segurar, aguentar, não cair. Oito segundos. Só isso. Só que agora nem isso eu estava conseguindo fazer direito, e não tinha nada a ver com força, com técnica ou com sorte.
Era ela, era a falta dela.
Fiquei de pé no meio da arena, com o chapéu na mão, passando a outra pelo cabelo, tentando afastar aquela sensação que só aumentava.
— Isso é ridículo — murmurei, mais uma vez, mesmo sabendo que não adiantava negar.
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Beijo, briga e boi
RomanceNo meio do caos de um rodeio lotado, entre montarias, música alta e garrafas de cachaça que "acabam rápido demais", Helena - a filha do prefeito, conhecida por carregar um nome maior que a própria paciência - decide esquecer a reputação perfeita por...
