005 | Luz do dia

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A primeira coisa que eu senti quando acordei foi calor. A segunda foi peso. E a terceira... pânico. Abri os olhos devagar, ainda meio perdida, tentando entender onde eu estava. Aquilo definitivamente não era o meu quarto. Nem a minha cama. Nem a minha casa. Fiquei alguns segundos encarando o teto desconhecido até que, como um castigo, a memória voltou inteira de uma vez: a caminhonete, a carroceria, o drama, o banho caótico... e a brilhante decisão de dormir ali.

— Meu Deus... — murmurei, passando a mão no rosto.

Foi então que percebi o peso. Não era só o cansaço. Era literalmente um braço jogado em cima de mim. Olhei devagar para o lado e lá estava Jake, completamente apagado, com o braço atravessado na minha cintura como se fosse a coisa mais normal do mundo. Fiquei alguns segundos parada, analisando a cena. Ele parecia tranquilo, respirando fundo, com o cabelo bagunçado e uma expressão relaxada que não combinava nem um pouco com o caos da noite anterior.

— Claro — sussurrei — agora você tá em paz.

Tentei tirar o braço dele com cuidado, mas foi uma péssima ideia. Ele resmungou alguma coisa incompreensível e, em vez de soltar, puxou mais, me trazendo ainda mais pra perto. Congelei.

— Jake... — falei baixo — me solta.

Nada.

— Jake.

Ele só se ajeitou melhor, como se estivesse confortável demais para sequer considerar me ouvir. Respirei fundo, já sem muita paciência.

— Isso aqui já é falta de respeito.

Com um pouco mais de força (e bem menos delicadeza), consegui me soltar, empurrando o braço dele para o lado. Ele virou de costas imediatamente, como se nada tivesse acontecido, e continuou dormindo.

Sentei na cama e fiquei alguns segundos tentando organizar os pensamentos. Meu cabelo estava bagunçado, minha cabeça levemente pesada e minha dignidade... bem, essa tinha ficado em algum lugar entre a carroceria e o banheiro.

Olhei em volta. O quarto era simples, com roupas jogadas em uma cadeira, um par de botas no canto e um cheiro leve de sabonete que, pelo menos, indicava que o esforço da noite anterior não tinha sido completamente em vão.

Levantei devagar e fui até a porta, espiando o corredor como se estivesse invadindo um território desconhecido. A casa estava em silêncio absoluto.

— Ótimo — murmurei — além de tudo, eu acordei primeiro.

Fui até a cozinha, esperando encontrar pelo menos um café decente. Abri o armário. Nada. Abri outro. Nada. Fui até a geladeira.

Tinha uma garrafa de água, um pedaço suspeito de alguma coisa que eu preferi não identificar e... só.

— Impressionante — falei sozinha — você sobrevive assim como?

Peguei a água e bebi direto da garrafa mesmo, sem cerimônia. Depois me encostei na pia, pensando no que fazer. Ir embora era a opção mais óbvia... se eu tivesse como. O problema continuava o mesmo da noite anterior: a caminhonete era dele, a casa era dele, e eu... estava presa naquela situação.

— Parabéns, Helena — murmurei — você conseguiu piorar tudo.

Voltei para o quarto alguns minutos depois. Jake ainda estava exatamente na mesma posição, completamente apagado, como se o mundo não existisse. Cruzei os braços e fiquei olhando para ele.

— Acorda — falei, jogando um travesseiro nele.

Ele nem se mexeu.

— Jake.

Beijo, briga e boiHistórias para pegar e não largar. Descubra agora