Capítulo 7: O Segredo de Clara

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"O passado é uma prisão, mas é nele que encontramos a chave para a liberdade."

Clara

Naquela manhã, acordei com a luz tímida invadindo meu quarto. Meu celular, que havia descarregado na noite anterior, era a primeira coisa que procurei. Assim que o liguei, uma notificação chamou minha atenção.

"Aceita sair para jantar comigo às 19h?"

A mensagem era de Lucas Ribeiro. Li aquelas palavras repetidamente, tentando decifrar o tom. Apesar de diretas, parecia haver algo escondido nelas, algo que eu não conseguia identificar.

Passei o dia inquieta. Minha mente oscilava entre o nervosismo e a curiosidade. Lucas era enigmático, e sua presença sempre mexia comigo de um jeito que eu não queria admitir.

Quando o relógio marcou 18h45, finalmente me senti pronta. Escolhi um vestido preto ajustado, clássico e sofisticado, que realçava minha silhueta. Prendi meu longo cabelo castanho em um coque elegante, deixando alguns fios soltos emoldurarem meu rosto. A maquiagem era leve, com um toque de batom vermelho para quebrar a sobriedade do preto. Olhei no espelho uma última vez, ajustando os brincos pequenos e brilhantes.

Ao descer, um carro preto já me aguardava na entrada do prédio. O motorista abriu a porta sem dizer nada, e entrei com um frio na barriga que não consegui controlar. Cada quilômetro percorrido parecia levar mais longe a minha paz interior, mas eu sabia que não poderia voltar atrás.

Quando cheguei ao restaurante, avistei Lucas imediatamente. Ele estava impecável, vestindo um terno cinza-escuro que destacava sua postura confiante. O cabelo negro estava perfeitamente alinhado, e seus olhos verdes brilharam ao me ver. Ele se levantou assim que entrei, e por um momento, seus lábios curvaram-se em um sorriso leve, quase contido.

— Você veio. — Sua voz era grave, mas com um tom caloroso que parecia impossível de ignorar.

— Não costumo recusar convites misteriosos. — Respondi, tentando parecer confiante, mas o olhar dele me desarmava completamente.

Ele gesticulou para que eu me sentasse, e o jantar começou de forma tranquila. A conversa fluía de maneira casual, mas havia algo em Lucas naquela noite que me deixava desconfortável. Ele parecia mais sério, como se carregasse um peso invisível.

Depois de um silêncio prolongado, senti que precisava perguntar:

— Lucas, por que me chamou aqui?

Ele inclinou-se levemente para frente, apoiando os cotovelos na mesa. Seus olhos encontraram os meus com uma intensidade que fez o resto do ambiente desaparecer.

— Clara, tem algo que você precisa saber.

Um arrepio percorreu minha espinha.

— O que é?

Ele hesitou, como se as palavras fossem difíceis de sair. Finalmente, disse:

— Tem a ver com o que aconteceu com o seu pai. Com a noite do incêndio.

Minha respiração ficou presa.

— O que você sabe sobre isso?

— Aquilo não foi um acidente. Foi provocado.

Senti um calafrio percorrer meu corpo inteiro.

— Como você sabe disso?

— Porque eu estava lá naquela noite.

Fiquei sem palavras, o coração acelerado. Ele continuou:

— Meu pai e o seu trabalhavam juntos, Clara. Eles estavam envolvidos em algo maior, algo perigoso. E naquela noite... eu soube que algo grave ia acontecer. Tentei avisar o seu pai, mas não cheguei a tempo.

A revelação caiu sobre mim como uma tempestade.

— Você sabia e não fez nada? — Minha voz tremeu de indignação.

— Eu tentei! — Ele respondeu, a voz se elevando por um momento. — Desde então, tenho feito tudo o que posso para te proteger. Eles acham que você pode ter algo que pertenceu ao seu pai, algo que ele deixou para trás.

— Eu não tenho nada!

— Eu sei. Mas eles não sabem disso.

Levantei da mesa, incapaz de conter a confusão e o desespero.

— Isso é demais. Eu preciso sair daqui.

Saí apressada, ignorando os olhares curiosos dos outros clientes. A chuva pesada me atingiu assim que cruzei as portas do restaurante, mas não me importei. Caminhei sem rumo, tentando processar tudo. O barulho das gotas batendo no chão ecoava o caos dentro de mim.

Ouvi passos e, em seguida, a voz de Lucas.

— Clara, espera!

Parei, deixando que ele se aproximasse. Quando me virei, meus olhos estavam marejados.

— Por que você se importa tanto comigo, Lucas? Por que está fazendo isso?

Ele hesitou, os ombros caindo ligeiramente.

— Porque você é importante para mim, Clara. Mais do que eu queria admitir.

Senti minha respiração falhar. Ele deu um passo à frente, mas continuei imóvel.

— Eu fiz tudo isso para te proteger. Porque, de todas as coisas que já perdi, você é a única que eu não posso deixar ir.

As palavras dele foram um golpe. Não conseguia pensar, não conseguia falar. Apenas virei e comecei a correr, a chuva mascarando as lágrimas que desciam pelo meu rosto.

O caos ao meu redor refletia o turbilhão dentro de mim. A única coisa que sabia era que, depois daquela noite, nada mais seria o mesmo.

Entre Sombras e Segredos.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora