"Entre a distância e o desejo, há um abismo que se torna impossível de ignorar."
Lucas
Não esperava ver Clara naquela manhã. Sair para correr era minha forma de colocar os pensamentos em ordem, escapar das confusões que insistiam em me cercar. Mas lá estava ela, virando a esquina, o rosto iluminado pela leveza da corrida. Por um momento, tudo pareceu mais simples. Seu jeito natural, descomplicado, fazia com que eu me sentisse menos preso às amarras da minha rotina.
A conversa começou leve, quase casual, mas então o telefone tocou. Era Sophia. Ver o nome dela na tela trouxe uma irritação imediata. Não que eu sentisse algo por ela — isso havia ficado para trás há tempos. Sophia era, no máximo, um passatempo. Uma companhia constante que, por conveniência, se manteve por perto. Eu não gostava de sair com várias mulheres, então acabava escolhendo o que parecia mais fácil, mais previsível.
Com o tempo, Sophia confundiu as coisas. Ela passou a agir como se tivesse algum tipo de posse sobre mim, como se eu precisasse justificar cada movimento. Isso me irritava profundamente. Agora, ver seu nome na tela parecia mais um lembrete do que eu estava tentando evitar: pessoas que queriam mais do que eu podia oferecer.
Quando atendi a ligação, me afastei um pouco de Clara. Não queria que ela visse minha irritação transparecer. A conversa com Sophia foi curta, mas o suficiente para me deixar tenso. Sua insistência em falar sobre coisas que eu não tinha interesse só reforçava minha vontade de me desligar completamente daquela história. Quando voltei para Clara, tentei retomar a descontração de antes, mas sabia que algo havia mudado no ar.
Clara percebeu. Não era preciso dizer nada, mas estava claro. Eu não devia nenhuma explicação para Sophia, e muito menos para Clara, mas, ainda assim, sentia que devia um pouco mais de leveza a nós dois. Sugeri o café, na tentativa de afastar a tensão. Clara aceitou, e isso foi um alívio.
Enquanto caminhávamos até o café, o silêncio parecia carregado de perguntas. Eu sabia que havia um abismo entre nós — não só por causa de Sophia, mas por tudo o que eu ainda não sabia como compartilhar. Clara não fazia parte desse mundo confuso em que eu me encontrava, e, talvez por isso, sua presença fosse tão diferente. Ao mesmo tempo, me sentia dividido, como se cada passo ao lado dela me aproximasse de algo que eu não estava pronto para encarar.
No café, as coisas começaram a mudar. Entre goles de café quente e conversas sobre filmes, viagens e momentos leves, a tensão se dissipou. Clara tinha esse efeito: ela fazia o peso diminuir, ainda que temporariamente. Foi bom. Mais do que eu esperava.
Por um momento, pude esquecer Sophia, as ligações inconvenientes e as complicações que me cercavam. Clara me trazia para o presente, para o aqui e agora, e eu percebia que, ao lado dela, não precisava me preocupar com o que viria depois.
Ainda havia um abismo entre nós, mas, naquela manhã, no café ensolarado, ele parecia menor.
A conversa fluiu de forma tão agradável que nem percebemos o tempo passar. Quando olhei para o relógio, percebi que a manhã já avançava e que eu tinha um compromisso importante logo em seguida. Relutante, mas consciente do horário, sorri para Clara, pegando minha garrafa de água.
— Foi ótimo, mas preciso ir. A manhã passou rápido demais — disse, com uma sinceridade que nem eu esperava.
Clara assentiu, o sorriso dela discreto, mas genuíno, como se também tivesse aproveitado o momento.
Enquanto saía do café, a sensação era clara: a leveza que ela me trouxe seria difícil de esquecer. Talvez Clara fosse o início de algo que eu ainda não conseguia definir, mas, por enquanto, precisava voltar para o mundo que me esperava.
A brisa da manhã começava a esquentar, mas o calor do momento que havíamos compartilhado permanecia, como uma marca sutil que eu não queria deixar para trás. Era curioso como, mesmo com tão pouco tempo desde que nos conhecemos, Clara tinha essa habilidade de mexer comigo. Não era só o sorriso ou o olhar, mas a maneira como parecia tão natural estar ao lado dela. Algo que há muito tempo eu não sentia.
Olhei para trás, para a fachada do café, como se pudesse vê-la ainda lá dentro, distraída, talvez com as mesmas perguntas que me rondavam. Clara tinha uma simplicidade que contrastava profundamente com o mundo em que eu vivia. Um mundo cheio de regras, expectativas e compromissos. Talvez fosse esse contraste que me fascinasse tanto.
O som do celular me trouxe de volta à realidade. Um lembrete de que minha manhã ainda não havia terminado e de que havia compromissos que exigiam minha atenção. Suspirei enquanto ajustava o relógio, já caminhando em direção ao carro.
Dirigindo pelas ruas, minha mente insistia em trazer de volta flashes do nosso encontro. O toque breve, quase casual, mas cheio de intenção; o brilho nos olhos dela quando ríamos de algo bobo; e, principalmente, o jeito que ela me fazia sentir à vontade, mesmo em meio a um dia que tinha começado pesado. Não era só atração física — era algo mais profundo, algo que eu ainda não sabia explicar.
Cheguei em casa ainda com ela nos pensamentos. Enquanto desligava o carro e pegava minhas coisas, percebi que estava sorrindo, um sorriso leve e involuntário, como se Clara tivesse deixado uma pequena fagulha de algo dentro de mim. Algo que nem o compromisso importante daquela manhã parecia ser capaz de apagar.
Antes de entrar, me permiti um momento para olhar o céu, como se ele pudesse me dar alguma resposta. Não sabia o que viria a seguir, mas sabia que Clara já havia se tornado mais do que um simples encontro casual. Ela era um ponto de luz, algo que eu não esperava e que, agora, parecia impossível de ignorar.
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Entre Sombras e Segredos.
RomanceEntre Sombras e Segredos é uma história intensa e envolvente que mergulha nas complexidades do amor, do mistério e da busca por identidade. A trama segue Lucas e Clara, dois personagens com passados misteriosos e destinos entrelaçados por um encontr...
