TERNO E GRAVATA

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A casa em Goiânia tinha tudo para ser um refúgio perfeito: uma vista deslumbrante, barulho apenas da natureza, piscina, jacuzzi perfeita. Mas, para Maraísa, aquele espaço parecia cada vez mais apertado. Faziam dois dias que seu noivo,Fernando Mocó, não desgrudava do notebook, atolado em problemas da empresa.

Sentado à mesa, ele mal levantava os olhos da tela, ora digitando, ora atendendo chamadas de voz com expressões sérias. Maraísa, no entanto, não era o tipo de mulher que sabia passar despercebida – muito menos quando queria atenção.

Na noite anterior, ela tentou de tudo: roupas provocantes, um jantar especial no quarto, e até se aninhou no sofá ao lado dele, esperando que ele largasse o trabalho. Nada funcionou. Ele estava mergulhado em números e gráficos, enquanto ela era deixada de lado.

Naquela tarde, porém, a paciência dela finalmente chegou ao limite.

- Fernando, você tá vivo aí? - ela perguntou, cruzando os braços enquanto se apoiava no batente da porta.

- Tô quase terminando, amor. Só mais um pouquinho. - Ele respondeu sem tirar os olhos da tela.

Ela revirou os olhos.

- Você disse isso ontem, e antes de ontem também. Vou acabar sendo confundida com uma peça de decoração desse quarto.

Ele soltou um murmúrio qualquer, ignorando a provocação. Maraísa suspirou, mas não desistiria tão fácil.

Ela caminhou até a cama, pegou uma almofada e a atirou contra ele. Não com força, mas o suficiente para chamar sua atenção. Fernando ergueu o olhar, surpreso.

- O que foi isso? - perguntou, franzindo a testa.

- Foi minha tentativa de fazer você me notar. - Ela respondeu, o tom meio irritado, meio brincalhão.

- amor, eu tô no meio de uma crise aqui. Não dá pra brincar agora.

Ela cruzou os braços, olhando para ele com firmeza.

- Dois dias, Fernando. Dois dias que você tá aqui, mas não tá de verdade. Eu entendo que sua empresa é importante, mas será que eu posso ser também? Poxa, peguei uma folga maior para aproveitar com você.

Ele passou a mão pelos cabelos, exausto.

- Você acha que eu quero isso? Eu tô tentando segurar as pontas. Acredite, não é fácil.

- E acha que pra mim é fácil? - Ela rebateu. -Ficar aqui sozinha, me sentindo invisível enquanto você se enterra nesse trabalho?

O silêncio pairou entre eles. Fernando sabia que ela tinha razão, mas a culpa e o peso do trabalho o deixavam sem palavras. Maraísa suspirou, sentindo a mágoa crescendo. Sem dizer mais nada, ela pegou o casaco e saiu do quarto.

- Onde você vai? - ele perguntou, alarmado.

- Pra algum lugar onde eu não me sinta um fantasma.

Algumas horas depois

Fernando finalmente desligou o notebook, exausto, mas aliviado por ter resolvido a crise. No entanto, ao olhar ao redor, o vazio do quarto era inescapável. Ele sentiu a culpa apertar no peito. Precisava se redimir com Maraísa. Antes de sair para procurá-la Fernando preparou algo simples e romântico para os dois finalizarem a noite.

Depois de procurar por ela, descobriu que ela estava na academia. Quando chegou, a encontrou na área de musculação, suada e determinada. Vestida com roupas de treino, ela socava um saco de pancadas com força, como se cada golpe fosse uma descarga da frustração acumulada.

Fernando parou na entrada, observando em silêncio. Ela parecia tão concentrada que não notou sua presença de imediato. Quando finalmente o viu pelo espelho, parou e se virou, pegando uma toalha para secar o rosto.

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