Capítulo 14: Decesso

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A respiração de Red estava superficial, ela havia percebido que a noite já tinha caído e seus olhos se arregalaram no instante em que ouviu os saltos descendo a escada. Agarrando-se ao cachecol podre de Pirrip, como se ele ainda estivesse ali consigo, ela mal comia, nem fechava seus olhos direito para ter um mínimo descanso.

— Os planos mudaram, querida. — A voz da coisa parecia começar a rasgar aos poucos, virando uma estática que lhe machucava os ouvidos. A transformação acontecia bem diante dela e, nunca, jamais, deixaria de ser algo horrível, pavoroso, macabro — Você não vai viver o suficiente para ensinar, o próximo não vai precisar disso.

A realização do horror veio na expressão pálida, os olhos congelados ao se arregalarem e seus pés tentando empurrar o chão, para que se rastejasse para trás.

Eu não quero morrer.

Não, por favor.

Minha mãe... Ela não precisa de mais essa dívida.

Não quero que ela morra sem saber o que aconteceu comigo.

Suas tentativas, mostraram-se tão vãs no instante em que a criatura, envergada, cheia de dentes e sorriso, pula em cima de si. O grito que escapou de sua garganta, é enorme e cheio de pavor, fazendo uma desarmonia gutural com o rasgo de estática do bicho.

Aquele monstro... Sua professora, por Deus.

Os batimentos cardíacos de Red aumentavam cada vez mais, sendo praticamente uma música, a bateria de toda aquela trilha sonora, para os ouvidos tão aguçados de Stephenson.

Então essa vai ser a última coisa que verei?

Não foi tão privilegiada quanto Phillip Pirrip, ao ter apenas um pescoço quebrado e uma morte rápida.

As garras, rasgaram seu peito com uma facilidade cruel. O grito morria em sua garganta, apavorada demais para sequer tentar mover algum centímetro, uma morte lenta, agonizante.

Seus olhos perderam a vida por completo, sentindo seu coração ser esmagado após ser aberta como um porco. Suas mãos ficaram paradas, o corpo envergado em uma posição esquisita demais para ser considerada natural.

Em sua cabeça, o último pensamento meramente racional, lúcido, antes de cair para a morte horrível e sua carne tornar-se um cadáver gélido, foi apenas um reflexo da própria desesperança, as palavras já não existiam mais. Restando apenas a mão fechada, ainda agarrando o cachecol de Phillip Pirrip.

[ ... ]

— Olá, Rebecca McArthur, ou Red para os mais íntimos. Eu já estava lhe esperando, bem vinda, eu sou seu ceifeiro e recepcionista.

[ ... ]

A casa McCormick não estava em seus melhores dias. Kevin gritava com os pais, chamando-os de nomes imensuráveis, enquanto, em troca, as ameaças rolavam pela sala da família.

Kenny abriu a porta, chegando da escola e já se deparando com toda aquela situação, engolindo em seco com a imagem de Karen parando em sua cabeça por um momento. Largando a mochila pelo chão, já fica no meio dos pais e do irmão mais velho.

—Chega dessa merda, caralho! Vocês vão acabar se matando desse jeito, nem todo mundo tá fodido pra sempre nessa Terra igual a mim — Diferentemente do Kenny tão bem humorado, feliz e alegre, que seus amigos e Leo viam, agora ele grita e empurra cada um para um lado — Se a Karen tiver em casa e vocês estiverem fazendo esse show, quem vai atirar pro alto vai ser eu.

Sendo filho dos "caipiras" de South Park, dos "animais" da cidade, o adolescente nem sempre era o mais bem civilizado. Parecendo que deixava qualquer resquício disso da porta do terreno McCormick para fora, ou apenas ficava reservado em sua mente para os momentos em que estava com pessoas que realmente importavam e mereciam vê-lo ser gentil e cuidadoso. Amável.

Stuart, andando desengonçado, segurando aquela garrafa quase no final da bebida, se aproxima e a ergue contra Kenny. Este que não poupa esforços para empurrá-lo, vendo-o tropeçar.

— Eu vou te ensinar a falar direito comigo, moleque! — Ele grita de volta — Eu te coloquei nesse mundo, eu posso te tirar dele quantas vezes eu quiser, ingrato de merda.

— Para com essa porra que para eu acabar com essa brincadeira é rapidinho. Só me responde, a Karen tá em casa ou não, caralho?!

Carol, que parecia tão acabada e bêbada quanto o esposo é quem acaba falando algo logo após o segundo show e ameaça de seu filho do meio;

— Ela disse algo sobre... Sei lá, os Tucker.

Kenny não a responde, ela não merece isso. Não merece suas palavras, mesmo que aquele tipo de acontecimento seja apenas um dia de semana comum naquela casa, onde, Carol sempre parece ter um lapso de lucidez em meio a sua cabeça totalmente bêbada e drogada e faz algum agrado.

Não como os agrados que Kenny recebia na infância, quando apanhava junto de seu irmão. Às vezes até duas vezes mais do que ele, quando respondia os velhos e fazia questão de receber as porradas no lugar de sua irmã.

— Dia de merda do caralho.

Ele nem se dá o direito de se despedir, apenas com aquele murmurar rápido de palavras, se vira e sai pela porta de casa, com apenas as roupas no corpo, a carteira quase vazia em um dos bolsos da calça, assim como seu celular com a tela meio quebrada.

São esses dias que eu quase tenho vontade de pegar aquelas merdas.

Mas o medo de abandonar Karen e ficar igual o resto dessa família de malucos, é maior. Aterrorizante.

Kenny coloca seu capuz, andando pelas ruas de South Park, enquanto mal olha para os seus arredores e apenas se concentra em mandar mensagens no grupo da turma, onde a maioria falava sobre as procuras que estavam fazendo por Red.

Ao mesmo tempo, também enviava para Leo, perguntando se poderia dormir na casa dele naquela noite, dizendo algo sobre como seus pais estão com a puta do caralho.

— E ai, Kenny!

McCormick escuta a voz de Kyle a distância, mas apenas o responde com um aceno de cabeça e de uma das mãos, o suspiro gelado sai por seus lábios.

Kenny vira a esquina.

Ele levanta a cabeça.

O rosto adquirindo o choque, visualizando na sua frente a forma mais vívida dos seus pesadelos.

E aí, deixa o celular cair.

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⏰ Última atualização: Jan 27, 2025 ⏰

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