Capítulo 11 - A vida continua, e a Morte também.

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Você ainda sentia o cheiro de Agatha às vezes

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Você ainda sentia o cheiro de Agatha às vezes.

Usava um desodorante masculino forte porque "funcionava melhor" nas palavras dela, você odiava, apenas para aprender a amar o odor mais tarde, uma apreciação que virou desgosto, e às vezes, volta como saudade.

Era inebriante acordar com esse cheiro no ar de manhã depois de sonhar com ela, ou o buscar loucamente depois de apenas um vislumbre de algo parecido.

Mas, era sempre um quase lá, nunca a sensação de verdade, o mesmo frio na barriga de nervosismo e animação de todas as manhãs ir vê-la no colégio.


Ir para um colégio diferente apenas apagou ainda mais a memória que ainda sobrava dessa sensação. Era como lembrar-se todas as manhãs de que não havia mais a possibilidade de tudo voltar ao normal.

Como você, seus amigos também tiveram de ir para colégios diferentes, menos Tânia, que já era de outro colégio. Colégio esse para o qual seus pais enviaram você, já pela boa "conduta" de lá.

Thomas, D̶a̶n̶i̶e̶l Bárbara e Olívia quase ficaram todos separados. No fim, Olívia insistiu com os pais para deixá-la ficar com Thomas e o ajudar com o luto deixado por Dan. Bárbara não teve essa sorte e foi a única do grupo a ficar sozinha.

O segundo ano de vocês no ensino médio foi vago. Como um lapso proposital na memória. Ou pelo menos, foi assim para você.

Já no terceiro, após tanto tempo se sentindo isolados, o grupo de vocês tentou se aproximar mais novamente. Isso culminou não em festas de aniversário juntos novamente — Thomas não aguentava bem, e vocês não queriam ouvi-lo pedir perdão por chorar na frente de vocês de novo — mas pelo menos na tentativa de se encontrarem vez ou outra, principalmente nessas datas especiais.

Seus pais nem precisavam saber desta forma. Eles se preocupariam sem necessidade.

Então, no dia do aniversário de Bárbara, você e Tânia se dirigiram à torre comercial em que o pai dela trabalhava, onde Bárbara as esperava, sentada na calçada com picolés.

"No seu aniversário?" Você questionou enquanto se sentava ao lado dela e tomava seu sorvete preferido de sua mão.

Bárbara tinha como costume comprar bobagens para lanchar quando vinha da escola esperar o pai em seu trabalho. E quando vocês combinavam de ir vê-la lá, ela comprava também para vocês.

"Não reclame bebê, vocês gostam." Ela brincou de volta, e Tânia concordou com a cabeça.

"De forma alguma, mesmo assim–" A menina puxou uma sacolinha de presente de alguma uma marca alemã de chocolates que ela gostava que você mal conseguia pronunciar o nome, o que dizia o bastante sobre o preço. "Trouxe algo para nós também dessa vez."

"Pelo menos compre Ferrero Rocher se você vai luxar, isso tem gosto de ouro, não chocolate." Bárbara rebateu, mas não deixou de comer mesmo assim.

Olívia e Thomas apareceram não muito depois. A escola deles era a mais distante, mas eles vieram felizes mesmo assim, dando abraços apertados em Bárbara e desejando feliz aniversário.

Em meio a risada de seu grupo e o entardecer do dia, mesmo da calçada, você se manteve atenta, você não gostava de deixar passar detalhes. Era em horas como essas que acidentes aconteciam, acidentes tal qual incêndios.

Mas ao invés de flagrar o nascimento de chamas, você flagrou rostos estranhamente familiares.

De um ano ou talvez dois atrás. Suas memórias daquele tempo não desapareceriam nem tão cedo.

Thiago, Elizabeth e... bem, o ruivo não estava com eles desta vez.

Na verdade, eles deixavam o prédio com três outros, um jovem asiático, outro jovem de cabelo longo, preto — provavelmente ambos pouco mais velhos do que você — e um velho que mais parecia uma parede, mais alto que todos, e musculoso ao ponto de você duvidar a origem de tais músculos.

"Usando bomba nessa idade, meu senhor?" Olívia não pode deixar de sussurrar, e vocês riram, obviamente.

"Quem me dera chegar nessa idade com esse corpo." Thomas balançou a cabeça. "Mesmo que seja bomba... Me surpreende o corpo dele aguentar bomba."

"Você tem um ponto."

Rir de um homem aleatório na rua poderia não parecer muito engraçado de um ponto de vista afastado, mas depois de passar tanto tempo rindo de bobagem, tudo que saísse da boca de seus amigos - ou até de sua própria mente - se tornava hilário, a ponto de fazer sua barriga doer.


Foi apenas alguns dias depois que você realmente parou para ponderar sobre o que havia acontecido, agora sem a influência de sua vontade de rir do vento, você conseguiu de fato processar o que você havia visto naquela tarde.

De certa forma, você se sentia aliviada de não ter sido notada pelo grupo-e se ainda fossem policiais e te notassem? Ter invadido a escola naquele ano ainda não havia sido devidamente corrigido legalmente, até onde você sabia. Você havia corrido um risco.

Ou talvez não, eles já deveriam ter feito algo sobre se fosse algo sério. Ou, se eles de fato fossem policiais.

Mas ainda não fazia sentido eles não serem, por que mais estariam presentes lá, e com armas, ainda?

Sua mente fugiu dos pensamentos quando a luz da tela do seu celular iluminou a noite. Era tarde, e suas cortinas cobriam a janela aberta, permitindo a entrada de vento frio, mas limitando a entrada da luz da rua, logo, a luz do celular clareou o teto o bastante para te despertar do sono leve.

Era uma mensagem, você nem soube como responder, ficou sem chão, mas também não foi capaz de se livrar da notícia e tentar adormecer.

A mensagem era de Arthur, seu primo.


"Papai morreu."


O pai dele, seu tio favorito Brúlio. A parte da família que seus pais evitavam por terem o contrário da imagem que eles zelavam em manter. E o último da família de Arthur que ainda era vivo.

"Você já deve estar dormindo, desculpa, só queria que você soubesse."

Como isso aconteceu?

O mínimo que você pôde fazer durante aquela noite foi tentar conversar com Arthur, mas o mesmo não parecia querer deixar passar tantas informações, e te prometeu que estava bem apesar de tudo.

Apenas isso.

De certa forma, você já esperava que a morte do próximo familiar da parte Cervero da família — sim, seu sobrenome não era o mesmo, infelizmente — não seria algo comum, havia um certo padrão que envolvia sempre algum conflito. Mas de forma alguma você aceitou apenas que ficasse por isso mesmo.

Você queria demonstrar seu apoio a Arthur, presencialmente, mesmo se seus pais não concordassem. Mas nem mesmo eles poderiam te negar algo tão sentimental como isso, era empatia básica por um familiar.

Com o plano de pedir aos seus pais na manhã seguinte para visitar Arthur, você adormeceu.

Com o coração doendo, mas dormiu enfim.

Foi como se uma pessoa fizesse cafuné em você durante seu sono, uma sensação boa que te envolvia completamente, e te fazia sorrir mesmo que sonhando. E mais uma vez, você teve quase que certeza de sentir o cheiro de Agatha.



E dessa vez, você não precisou fingir que o odiava tanto assim.

"...𝚅𝚎𝚛𝚖𝚎𝚕𝚑𝚘 𝚏𝚒𝚌𝚊 𝚖𝚊𝚒𝚜 𝚕𝚒𝚗𝚍𝚘 𝚎𝚖 𝚟𝚘𝚌ê..."Histórias para pegar e não largar. Descubra agora