Nos dias que se seguiram após a premiação, a sombra do ódio do papà parecia ter se instalado em todos os cantos da casa. O silêncio da mama me feria mais que os gritos dele, porque era um silêncio de medo, de submissão. Christopher, por outro lado, agia como se nada tivesse acontecido, como se o mundo girasse apenas para sustentar sua soberba. Eu observava cada detalhe, cada olhar tenso, cada palavra que não era dita — e sentia dentro de mim um peso que não sabia nomear.
E Camila?
A lembrança dela naquela noite ainda queimava na minha pele. O toque leve em meu braço, o olhar que não desviava, as palavras enigmáticas sobre meu pai. Era como se ela soubesse algo que eu não sabia. Como se guardasse segredos que poderiam desmontar toda essa farsa de família em que cresci.
Naquela manhã, decidi voltar cedo para o escritório. Precisava ocupar a mente com trabalho, afastar os fantasmas que rondavam minha cabeça. Mas ao entrar na minha sala, encontrei sobre a mesa um envelope preto, sem remetente. O papel era fino, caro, e o meu nome estava escrito à mão com uma caligrafia elegante.
Abri com cuidado.
Dentro, havia apenas um bilhete curto:
"Nem tudo é o que parece, Jauregui.
Nosso passado está entrelaçado muito antes de nós duas.
— C."
Meu coração acelerou. O que Camila queria dizer com aquilo? Estaria ela brincando comigo, ou realmente havia algo obscuro entre nossas famílias que eu ainda não conhecia?
Guardei o bilhete na gaveta trancada e respirei fundo. Eu sabia que precisava de respostas, mas não seria fácil. Meu pai jamais abriria a boca — a não ser aos berros. Minha mãe, muito menos. E Christopher... bom, ele estava mais interessado em tentar conquistar a Cabello do que em revelar qualquer verdade.
Mas uma coisa eu tinha certeza:
Camila sabia.
E de alguma forma, ela estava me chamando para o jogo.
Naquela noite, deitada em minha cama, revisitei cada instante com ela, cada palavra. E pela primeira vez em muito tempo, senti algo além do peso do sobrenome Jauregui: curiosidade. Desejo. Fome de verdade.
Eu sabia que não demoraria para buscá-la.
Os dias seguintes foram um campo minado.
Papà estava mais explosivo do que nunca. Cada mínimo detalhe se tornava motivo para o seu tom de voz estrondar pela mansão. O prêmio perdido para os Cabello parecia ter ferido sua honra mais do que qualquer coisa.
Christopher, é claro, aproveitava a situação para se colocar como o filho perfeito. Era a cópia fiel do nosso pai, não apenas na aparência, mas no modo de inflar o peito como se carregasse o peso do mundo nos ombros. Eu observava os dois e sentia a náusea crescer — era como assistir a um reflexo distorcido de tudo que eu nunca quis ser.
[...]
Na noite de terça-feira, estávamos reunidos na sala de jantar. A mesa longa, imponente, farta de pratos que mal tocávamos. A mama, com seus olhos baixos, se limitava a sorrir fracamente quando papà exigia. Christopher se gabava sobre contratos futuros, viagens, números. E eu... eu só queria desaparecer dali.
Até que o olhar do papà pousou em mim. Um olhar pesado, calculado, desconfiado.
— Lauren... — ele disse, com a voz baixa demais para soar tranquila. — Tenho ouvido boatos de que você esteve... conversando demais na premiação.
Meu coração gelou, mas mantive a postura.
— Conversando? Estávamos todos conversando, papà. Era um evento, não?
Ele estreitou os olhos, encostando o garfo sobre o prato.
— Não me tome por idiota. Eu vi você perto daquela garota... Cabello. — a palavra saiu de sua boca como veneno. — Quero saber exatamente o que ela te disse.
Christopher parou de mastigar e olhou para mim com aquele sorriso cínico, como se estivesse ansioso pela minha queda.
A mama, por sua vez, apertou o guardanapo entre os dedos e desviou os olhos.
— Ela não me disse nada além de cortesias, papà. — respondi firme, tentando soar indiferente. — Você sabe como são os eventos. Pessoas falam, trocam elogios, brindam. Nada mais.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Ele me encarava como se pudesse arrancar a verdade da minha pele. Então, com um meio sorriso frio, murmurou:
— Espero que seja apenas isso. Porque se eu descobrir que um Jauregui está dando ouvidos a uma Cabello... eu mesmo trato de corrigir o erro.
Ele voltou a comer calmamente, como se não tivesse acabado de ameaçar a própria filha. Christopher riu baixinho, satisfeito. A mama permaneceu imóvel, como uma estátua.
E eu?
Eu apenas engoli o vinho em um gole, sentindo o gosto amargo do medo se misturar ao líquido doce.
Mas dentro de mim, algo queimava.
Não era apenas raiva. Era a certeza de que Camila tinha razão. Meu pai era capaz. Capaz de coisas que eu ainda nem imaginava.
Eu precisaria descobrir a verdade antes dele.
Na manhã seguinte, ao chegar ao escritório, encontrei outro bilhete.
Dessa vez, não havia envelope, apenas uma folha dobrada deixada sobre a minha mesa.
"Às vezes, a verdade não cabe em banquetes nem prêmios.
Se quiser respostas, venha ao cais antigo, amanhã, às nove da noite.
— C."
Meu coração disparou. Eu sabia que era arriscado. Se papà descobrisse... se Christopher seguisse meus passos... Mas a necessidade de entender falava mais alto. Aquela rixa entre as famílias, o medo da minha mãe, as palavras de Camila... tudo ecoava em mim.
Na noite marcada, vesti algo simples — um casaco escuro, calça jeans, botas. Queria passar despercebida. Dirigi sozinha até o cais abandonado da cidade, onde o cheiro de maresia se misturava à ferrugem das embarcações antigas.
E lá estava ela.
Camila Cabello, encostada em um dos pilares, iluminada pela luz amarelada de um poste velho. Usava um casaco longo, cabelos soltos, olhos atentos que brilharam quando me viram chegar.
— Pensei que você não viria. — ela disse, com um sorriso leve, mas a voz carregada de algo mais profundo.
— Pensei muito antes de vir. — respondi. — Você gosta de me deixar cheia de perguntas, Camila. Agora quero respostas.
Ela se aproximou devagar, o salto batendo no chão úmido, e por um instante o mundo pareceu encolher. Estávamos só nós duas, o som do mar e o vento frio.
— Lauren, você realmente não sabe... — ela murmurou, como se falasse consigo mesma. — Seu pai esconde de você uma história inteira. A rixa entre os Jauregui e os Cabello não nasceu apenas dos negócios. Não nasceu apenas do vinho.
Engoli em seco.
— Então de onde nasceu?
Camila parou diante de mim, tão perto que pude sentir o perfume dela misturado à maresia.
Seus olhos de mel cravaram nos meus.
— Morte. — ela disse por fim. — Houve uma uma morte... e as nossas famílias nunca mais foram as mesmas.
Meu corpo estremeceu. Quis perguntar mais, mas a forma como Camila me olhava me deixou sem ar. Era como se houvesse uma linha invisível nos puxando uma para a outra.
— Por que está me contando isso? — sussurrei.
Ela deu um meio sorriso, dolorido.
— Porque você merece saber a verdade. E porque... — sua voz vacilou, quase um sussurro — porque eu não consigo ficar longe de você, mesmo sabendo que deveria.
O silêncio pesou entre nós, cheio de coisas não ditas. Eu podia sentir a tensão elétrica no ar, o perigo, o desejo.
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Lineavino
RomanceA Toscana é uma região no centro da Italia. A capital Florença, e a sua variada paisagem natural estendem-se pelos Apeninos, pelas praias da ilha de Elba no oceano Tirreno e por Casole d'Elsa, onde estão localizados os vinhedos da família Cabello Sa...
