O beijo acabou, mas o mundo não voltou ao normal.
Era como se o tempo tivesse se desfeito ali, no meio daquele bistrô, onde ninguém parecia notar o que acabara de acontecer — ou talvez notassem, mas fingissem não ver.
Camila ainda estava perto demais.
Podia sentir o calor da respiração dela, o perfume que parecia feito pra me perseguir.
O coração batia tão alto que eu jurava que ela podia ouvir.
— Eu não devia... — comecei a dizer, mas a voz morreu antes de terminar.
Ela sorriu, aquele sorriso calmo que sempre parece saber mais do que diz.
— Eu sei. — respondeu. — Mas a gente raramente deve o que o coração pede.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
Do lado de fora, a chuva começou a cair fina, lavando as ruas e tornando tudo mais lento, mais íntimo.
Camila desviou o olhar para a janela e murmurou:
— Às vezes, acho que o universo tem um jeito estranho de unir o que deveria se repelir.
— E se for pra nos destruir? — perguntei, sincera, sem coragem de disfarçar o medo.
Ela me olhou de novo, com ternura.
— Então que seja uma destruição bonita.
Eu ri baixo, nervosa, e ela também. Mas o riso logo se desfez quando nossos olhares se encontraram outra vez.
Havia algo naquele silêncio — uma urgência contida, um desejo que pedia espaço.
Camila tocou meu rosto com a ponta dos dedos.
Um gesto tão leve, e mesmo assim tudo dentro de mim se desfez.
— Você treme. — ela sussurrou.
— É medo. — confessei.
— Ou desejo. — corrigiu, e o tom da voz dela me arrepiou inteira.
Por um instante, o mundo se resumiu a isso: o toque dela, o som da chuva, a certeza de que não existia mais volta.
Eu podia sentir o coração pedindo pra correr — mas meus pés, minha alma, queriam ficar.
Camila se levantou devagar.
— Vem comigo. — disse, sem explicar pra onde.
E eu fui.
Sem pensar, sem perguntar, apenas fui.
Caminhamos pelas ruas molhadas, em silêncio, lado a lado. A chuva agora era um véu leve entre nós e o resto do mundo.
Ela me levou até uma rua estreita, onde o som da cidade parecia desaparecer.
Ali, sob a marquise de um prédio antigo, ela parou.
— Aqui ninguém nos vê. — murmurou.
Eu só consegui assentir.
Camila se aproximou, e de novo aquele espaço entre nós sumiu — até que não houvesse mais distância alguma.
O beijo seguinte não teve hesitação.
Foi inteiro. Denso. Vivo.
Era o tipo de beijo que não cabe em segredo, mas mesmo assim precisa existir escondido.
E quando nossas bocas se separaram, eu senti o gosto dela misturado à chuva, e o mundo parecia girar devagar, feito um sonho perigoso demais pra acordar.
Camila apoiou a testa na minha, respirando junto comigo.
— Você tem ideia do que está fazendo comigo, Jauregui? — perguntou, num tom quase brincalhão, mas carregado de emoção.
Sorri, ainda ofegante.
— Tenho. Porque você está fazendo o mesmo comigo.
Ela fechou os olhos, como quem guarda um momento pra não esquecer.
— Isso é loucura.
— Talvez. — respondi. — Mas é a primeira coisa que faz sentido pra mim há muito tempo.
Por um instante, ela pareceu querer dizer algo, mas se conteve.
Só me olhou de novo, como se tentasse decorar o meu rosto.
A chuva caía mais forte agora, e o som dela nos envolvia como um manto.
Eu sabia que aquilo era perigoso, proibido, quase suicida.
Mas também sabia que, naquele instante, não havia poder no mundo capaz de me afastar dela.
E enquanto ela me abraçava, senti — pela primeira vez em anos — que talvez o amor pudesse ser mais forte que o medo.
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Lineavino
RomanceA Toscana é uma região no centro da Italia. A capital Florença, e a sua variada paisagem natural estendem-se pelos Apeninos, pelas praias da ilha de Elba no oceano Tirreno e por Casole d'Elsa, onde estão localizados os vinhedos da família Cabello Sa...
