Capítulo treze

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Por um instante, o tempo pareceu parar.
O vento soprou mais forte, balançando os cabelos de Camila, e a palavra sangue continuou ecoando dentro de mim, como um trovão preso no peito.

— Uma morte? — repeti, num fio de voz. — Quem?

Ela desviou o olhar, respirando fundo, como se buscasse coragem para continuar.
— Não posso te contar tudo... ainda. Há coisas que nem eu entendo por completo. Mas o que eu descobri é que o seu pai não é o homem que você pensa. Ele construiu o império Jauregui sobre um segredo — um que custou a vida de alguém muito importante pra mim.

Meu coração batia rápido demais.
— Está dizendo que ele... matou alguém?

Camila me olhou como se quisesse negar e confirmar ao mesmo tempo.
— Talvez não com as próprias mãos. Mas... ele estava lá. E, de alguma forma, se beneficiou da tragédia.

O mar rugia ao fundo, como se reagisse àquelas palavras.
E, naquele momento, algo dentro de mim se quebrou. Uma fissura entre quem eu era e quem eu achava que minha família era.

— Por que me contar isso agora? — perguntei. — O que você ganha me fazendo duvidar da minha própria família?

Ela se aproximou mais um passo, e o espaço entre nós desapareceu.
— Eu não ganho nada, Lauren. Só estou cansada de ver mentiras sustentando nomes. — Seus olhos brilharam. — E porque, por mais que eu tente, não consigo te ver como uma inimiga.

Fiquei imóvel. O perfume dela era doce, envolvente, quase cruel.
— Cuidado, Camila. — murmurei. — Se meu pai descobrir que estamos nos encontrando, ele vai atrás de você.

Um meio sorriso se formou em seus lábios.
— Então que ele venha. — Ela deu de ombros. — Não sou tão fácil de derrubar quanto ele pensa.

Por um segundo, o medo cedeu lugar a algo mais forte.
Um impulso.
Um desejo que queimava desde a premiação, desde aquele olhar que durou tempo demais.

Sem pensar, toquei a mão dela.
Camila não recuou. Pelo contrário — entrelaçou os dedos nos meus, com uma naturalidade que me desarmou completamente.

— Eu devia ir. — murmurei, mas não soltei.

— Devia. — ela respondeu, quase sussurrando. — Mas não vai.

O silêncio que veio depois era denso, carregado de confissões não ditas.
Então ela se inclinou, tão devagar que parecia um sonho, e seu rosto ficou a centímetros do meu.

— Cuidado, Lauren. — disse, com a voz baixa. — A verdade pode ser o começo... ou o fim de tudo.

E antes que eu pudesse responder, ela encostou os lábios na minha bochecha — um toque leve, mas que incendiou cada célula do meu corpo.

Quando abri os olhos, ela já estava se afastando.
O casaco escuro desapareceu na neblina do cais, deixando para trás apenas o eco do salto e o cheiro dela no ar.

Fiquei parada, tentando respirar.
Senti o medo, o desejo, e a estranha certeza de que nada seria igual depois daquela noite.

Voltei para o carro com as mãos tremendo.
Dentro da bolsa, encontrei outro papel — menor, dobrado em quatro.
Não lembrava de tê-lo colocado ali.

Abri.

"O passado não dorme.
E há alguém dentro da sua casa que também sabe."

O bilhete não tinha assinatura.
Mas o frio que percorreu minha espinha me disse tudo:
Camila não era a única jogadora nesse jogo.

[...]

Aquela noite não terminou no cais.
Ela continuou dentro de mim — como um incêndio silencioso, queimando cada pensamento que eu tentava sufocar.

Deitada na cama, ainda sentia o toque leve dos dedos de Camila na minha pele, o jeito como ela pronunciou meu nome, como se fosse uma prece e um aviso ao mesmo tempo.
Fechei os olhos, e o rosto dela reapareceu: os olhos profundos, o sorriso que escondia algo perigoso, a voz que parecia deslizar direto pro meu peito.

Eu devia me afastar.
Devia.

Mas havia algo nela que me puxava de volta, como se cada palavra dita fosse um fio invisível amarrado em mim.
E quanto mais eu tentava entender, mais me perdia.

No dia seguinte, o mundo parecia o mesmo — mas eu não era.
Passei o dia inteiro no escritório, fingindo trabalhar, mas os números e os relatórios se misturavam à lembrança dela.
O bilhete sem assinatura continuava guardado na gaveta, me observando como um segredo à espreita.

Quando o sol se pôs, não resisti.
Peguei o carro e dirigi até o centro da cidade, sem destino certo. E, sem planejar, parei diante do bistrô que se encontramos da outra vez
.
Foi lá que a vi.

Camila, sozinha, sentada perto da janela, com um livro aberto e uma xícara entre as mãos.
Aquela visão me atingiu como um soco suave — familiar, dolorosamente bela.

Entrei sem pensar.
Ela levantou o olhar e, por um segundo, o tempo parou outra vez.

— Lauren. — disse meu nome como quem o saboreia.

— Camila. — respondi, e só o som da voz dela já me desarmou. — Eu... não devia estar aqui.

Ela sorriu de leve.
— Então por que veio?

Eu respirei fundo.
— Porque não consigo parar de pensar em você. E isso está me deixando louca.

Camila fechou o livro, apoiando o queixo sobre a mão.
— Louca é uma palavra forte. — provocou. — Mas gosto dela.

O silêncio entre nós foi carregado, tenso, e ao mesmo tempo macio.
Ela fez um gesto para que eu sentasse.
Sentei.
E naquele instante, o café inteiro desapareceu.

— Acha que é errado? — perguntei, a voz quase um sussurro. — Esse... sentimento?

Camila me olhou por longos segundos antes de responder:
— Errado é o que fazem com a gente, o que dizem que devemos ser. O que a gente sente... é só verdadeiro.

As palavras dela me atravessaram.
Senti o coração bater forte, e quando percebi, minha mão já estava sobre a dela, sem medo.
Camila não afastou.
Pelo contrário, entrelaçou os dedos e fez carinho no dorso da minha mão com o polegar.

— Você não entende, Camila. — murmurei. — Se alguém descobrir, se meu pai souber...

Ela me interrompeu, firme, mas com doçura.
— Eu não quero te colocar em perigo, Lauren. Mas também não quero mentir pro que sinto.

Nossos olhares se encontraram — e foi como cair.
Lenta, inevitavelmente.

Ela se inclinou por sobre a mesa, e eu não recuei.
O mundo pareceu prender a respiração quando seus lábios encostaram nos meus.
Foi um toque breve, mas cheio de tudo o que estávamos tentando esconder: medo, desejo, coragem.

Quando ela se afastou, eu ainda tinha os olhos fechados.
Camila sorriu, sussurrando perto do meu rosto:
— Às vezes, a verdade começa num beijo.

Abri os olhos, e por um instante não havia guerra de famílias, nem segredos, nem passado.
Havia só nós — duas mulheres presas entre o perigo e a vontade de se pertencer.

Mas no fundo, eu sabia.
Nada ficaria escondido por muito tempo.
E quando a verdade viesse, talvez fosse tarde demais para voltar atrás.

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