Romário
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Fico sentada no chão frio ao lado de Clara e do bebê, tentando manter a respiração controlada. Minhas mãos ainda tremem. Lá fora, o vento carrega sons longes — passos? carros? vozes? Não sei.
Clara: Romário… - Clara puxa minha camisa. - O Davi tá com fome.
Romário: Eu sei, amor… - passo a mão nos cabelos dela. - Vamos aguentar só mais um pouco, tá bom? Alguém vai ajudar a gente.
A frase mal sai da minha boca quando ouço um estalo seco. Depois outro. Tiros, ao longe.
Clara se encolhe.
Clara: O que foi isso?
Meu corpo reage antes da cabeça.
Romário: Fica atrás do sofá com o Davi, agora. Não sai até eu mandar.
Ela não discute. Corre como um bichinho assustado e se esconde com o bebê, abraçando-o com força.
Eu me arrasto até a janela quebrada, olho por entre uma fresta na parede descascada… e vejo o inferno começar.
Patrulhas da polícia cercando a área. E do outro lado da estrada de terra, quatro figuras que eu reconheceria mesmo no escuro.
Shaft.
Elencar.
Borges.
Vieira.
Minha garganta fecha.
Romário: Mas que diabos… - sussurro.
Shaft está na frente, de pistola na mão, expressão séria e fria como pedra. Reconheço aquele jeito, ela só fica assim quando está prestes a fazer merda heroica. A jaqueta preta dela balança ao vento. Mesmo de longe, eu sinto o peso do olhar dela procurando uma única coisa: eu.
Polícial: ACHA ESSA GAROTA AGORA! - um dos policiais grita. - A ORDEM É CAPTURAR!
Borges: Capturar o caralho - Borges resmunga, tirando a arma da cintura. - Ninguém toca na nossa irmã.
Elencar passa a língua nos dentes, nervosa.
Elencar: Shaft, cê tem certeza disso? São MUITOS policiais.
Shaft: A Romário tá lá. Eu sinto. - Shaft responde sem tirar os olhos da mata. - E vocês sabem que eu não deixo ninguém levar ela.
Meu coração bate no peito como se quisesse escapar.
Do lado dos policiais, o clima esquenta.
Capitão: Soltem as armas! - um capitão grita.
Vieira ri.
Vieira: Ele pediu por favor, Shaft? - ela provoca.
Shaft: Não - ela responde, levantando a arma. - Então eles que tomem no cu.
E tudo explode.
O tiroteio começa tão rápido que o ar vibra. Estalos secos invadem a floresta. Árvores se partem, carros são perfurados, e o eco das armas parece sacudir a casa inteira.
Clara grita baixinho atrás do sofá.
Clara: Romário!! Tá acontecendo alguma coisa!!!
Eu volto para perto dela num segundo, segurando seus ombros.
Romário: Olha pra mim, Clara. Olha. - Ela ergue os olhos cheios de lágrimas. - Nada vai acontecer com vocês, entendeu? Nada. Eu tô aqui.
O bebê chora alto, assustado com o barulho.
Romário: Shhh, Davi… shhh… - tento acalmá-lo, mas minha cabeça está explodindo.
Outro tiro mais perto. Muito mais perto.
De repente, uma sombra cruza a entrada da casa, rápida, silenciosa. A porta se abre com força, eu levanto o punho, pronta pra lutar, mas quando vejo quem é, meu corpo inteiro quase desaba.
Shaft: Sabrina - Shaft aparece na porta, arfando, cabelo grudado na testa pelo suor e pela adrenalina. - Caralho… achei você.
Romário: Shaft? - minha voz sai quebrada. - O que você tá fazendo aqui?
Ela entra rápido, tranca a porta, se abaixa e segura meu rosto com as duas mãos.
Shaft: Te salvando, porra. Quase infartei quando soube que tinham te cercado.
Mas antes que eu possa responder, Clara aparece, pequena e trêmula, com o bebê no colo.
Shaft olha pra ela. Depois pra mim.
Shaft: Quem são eles?
Romário: Eu encontrei eles aqui - explico rápido. - Estão sozinhos. A mãe sumiu. Eu não vou deixar a polícia entrar e fazer merda.
Shaft respira fundo, como se já esperasse algo assim de mim.
Shaft: Então ninguém vai encostar neles, entendeu? Nem nesses fedelhos, nem em você.
Outro estrondo faz a casa tremer.
Shaft segura meu braço.
Shaft: Elencar tá segurando a direita, mas não vai durar muito. A polícia quer você viva, mas não tem problema em matar qualquer um no caminho.
Romário: Ótimo. - Eu cuspo no chão. - Então vamos sair.
Shaft: Vamos. - Shaft olha para Clara. - Pequena, você consegue andar?
Clara engole o choro e balança a cabeça, corajosa apesar do medo.
Shaft: Boa menina. - Shaft diz, sem seu tom duro habitual. - Fica grudada na gente, ouviu? Eu te protejo.
Eu seguro a mão de Clara. Shaft pega a frente.
Do lado de fora, os tiros diminuem, não por calma, mas porque alguém está recarregando.
Shaft me olha por cima do ombro, olhos duros, queimando.
Shaft: Quando eu disser, corre.
Eu respiro fundo e aperto a mão de Clara.
Romário: Prontinha, pequena?
Ela aperta minha mão de volta, tremendo.
Clara: Tô.
Shaft abre a porta com o pé, ergue a arma e grita:
Shaft: AGORA! CORRE!
E nós disparamos para o meio do fogo cruzado.
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Continua
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No VK
RomanceRomário, dona do morro da VK, vive entre poder, excessos e caos. Shaft, criada na Zona Norte, é dedicada aos estudos e vive sob a pressão de um pai rico e rigoroso. Elas vêm de mundos opostos - uma do crime, outra da disciplina. Mas quando seus cami...
