sessenta e sete

179 43 5
                                        

Romário






---

Fico sentada no chão frio ao lado de Clara e do bebê, tentando manter a respiração controlada. Minhas mãos ainda tremem. Lá fora, o vento carrega sons longes — passos? carros? vozes? Não sei.

Clara: Romário… - Clara puxa minha camisa. - O Davi tá com fome.

Romário: Eu sei, amor… - passo a mão nos cabelos dela. - Vamos aguentar só mais um pouco, tá bom? Alguém vai ajudar a gente.

A frase mal sai da minha boca quando ouço um estalo seco. Depois outro. Tiros, ao longe.

Clara se encolhe.

Clara: O que foi isso?

Meu corpo reage antes da cabeça.

Romário: Fica atrás do sofá com o Davi, agora. Não sai até eu mandar.

Ela não discute. Corre como um bichinho assustado e se esconde com o bebê, abraçando-o com força.

Eu me arrasto até a janela quebrada, olho por entre uma fresta na parede descascada… e vejo o inferno começar.

Patrulhas da polícia cercando a área. E do outro lado da estrada de terra, quatro figuras que eu reconheceria mesmo no escuro.

Shaft.
Elencar.
Borges.
Vieira.

Minha garganta fecha.

Romário: Mas que diabos… - sussurro.

Shaft está na frente, de pistola na mão, expressão séria e fria como pedra. Reconheço aquele jeito, ela só fica assim quando está prestes a fazer merda heroica. A jaqueta preta dela balança ao vento. Mesmo de longe, eu sinto o peso do olhar dela procurando uma única coisa: eu.

Polícial: ACHA ESSA GAROTA AGORA! - um dos policiais grita. - A ORDEM É CAPTURAR!

Borges: Capturar o caralho - Borges resmunga, tirando a arma da cintura. - Ninguém toca na nossa irmã.

Elencar passa a língua nos dentes, nervosa.

Elencar: Shaft, cê tem certeza disso? São MUITOS policiais.

Shaft: A Romário tá lá. Eu sinto. - Shaft responde sem tirar os olhos da mata. - E vocês sabem que eu não deixo ninguém levar ela.

Meu coração bate no peito como se quisesse escapar.

Do lado dos policiais, o clima esquenta.

Capitão: Soltem as armas! - um capitão grita.

Vieira ri.

Vieira: Ele pediu por favor, Shaft? - ela provoca.

Shaft: Não - ela responde, levantando a arma. - Então eles que tomem no cu.

E tudo explode.

O tiroteio começa tão rápido que o ar vibra. Estalos secos invadem a floresta. Árvores se partem, carros são perfurados, e o eco das armas parece sacudir a casa inteira.

Clara grita baixinho atrás do sofá.

Clara: Romário!! Tá acontecendo alguma coisa!!!

Eu volto para perto dela num segundo, segurando seus ombros.

Romário: Olha pra mim, Clara. Olha. - Ela ergue os olhos cheios de lágrimas. - Nada vai acontecer com vocês, entendeu? Nada. Eu tô aqui.

O bebê chora alto, assustado com o barulho.

Romário: Shhh, Davi… shhh… - tento acalmá-lo, mas minha cabeça está explodindo.

Outro tiro mais perto. Muito mais perto.

De repente, uma sombra cruza a entrada da casa, rápida, silenciosa. A porta se abre com força, eu levanto o punho, pronta pra lutar, mas quando vejo quem é, meu corpo inteiro quase desaba.

Shaft: Sabrina - Shaft aparece na porta, arfando, cabelo grudado na testa pelo suor e pela adrenalina. - Caralho… achei você.

Romário: Shaft? - minha voz sai quebrada. - O que você tá fazendo aqui?

Ela entra rápido, tranca a porta, se abaixa e segura meu rosto com as duas mãos.

Shaft: Te salvando, porra. Quase infartei quando soube que tinham te cercado.

Mas antes que eu possa responder, Clara aparece, pequena e trêmula, com o bebê no colo.

Shaft olha pra ela. Depois pra mim.

Shaft: Quem são eles?

Romário: Eu encontrei eles aqui - explico rápido. - Estão sozinhos. A mãe sumiu. Eu não vou deixar a polícia entrar e fazer merda.

Shaft respira fundo, como se já esperasse algo assim de mim.

Shaft: Então ninguém vai encostar neles, entendeu? Nem nesses fedelhos, nem em você.

Outro estrondo faz a casa tremer.

Shaft segura meu braço.

Shaft: Elencar tá segurando a direita, mas não vai durar muito. A polícia quer você viva, mas não tem problema em matar qualquer um no caminho.

Romário: Ótimo. - Eu cuspo no chão. - Então vamos sair.

Shaft: Vamos. - Shaft olha para Clara. - Pequena, você consegue andar?

Clara engole o choro e balança a cabeça, corajosa apesar do medo.

Shaft: Boa menina. - Shaft diz, sem seu tom duro habitual. - Fica grudada na gente, ouviu? Eu te protejo.

Eu seguro a mão de Clara. Shaft pega a frente.

Do lado de fora, os tiros diminuem, não por calma, mas porque alguém está recarregando.

Shaft me olha por cima do ombro, olhos duros, queimando.

Shaft: Quando eu disser, corre.

Eu respiro fundo e aperto a mão de Clara.

Romário: Prontinha, pequena?

Ela aperta minha mão de volta, tremendo.

Clara: Tô.

Shaft abre a porta com o pé, ergue a arma e grita:

Shaft: AGORA! CORRE!

E nós disparamos para o meio do fogo cruzado.

---

Continua

50 votos pra eu voltar

Você leu todos os capítulos publicados.

⏰ Última atualização: Dec 02, 2025 ⏰

Adicione esta história à sua Biblioteca e seja notificado quando novos capítulos chegarem!

No VK Onde histórias criam vida. Descubra agora