A Conversa

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Foi como levar um soco no estômago, mesmo que você esteja preparado para tudo, ainda vai lhe pegar de surpresa.

O nome escapou de seus lábios antes que ele pudesse notar, porém o som parecia sair de forma errada, como se não tivesse peso suficiente para existir, ficando estática no ar. Por um segundo o mundo ao redor de Sasuke ficou distante, e aquele um segundo parecia durar uma eternidade, o rangido que havia soado suave das portas junto ao cheiro específico de madeira antiga, até mesmo a presença de Sakura ao seu lado, foram empurrados bruscamente para um canto esquecido de sua consciência. As orbes negras cravaram na figura à sua frente, naquela silhueta que a memória insistia em preservar de maneira intacta, apesar do tempo e da dor Sasuke se negava a perder qualquer detalhe.

Era ele, seu irmão mais velho.

Os fios escuros cuidadosamente caíam da mesma forma sobre seu rosto, sua expressão cansada mas curiosamente serena parecia congelada pelo tempo, Sasuke podia crer que até o jeito de falar — o deboche morno, quase afetuoso, que nunca vinha sem um fundo de preocupação — era dolorosamente familiar. Seus olhos baixos como de costume ornamentavam sua face junto às linhas de expressões intrinsecamente suas, os lábios retos se curvaram em um sorriso receptivo, aquele mesmo sorriso que Sasuke estava acostumado a receber quando criança, aquele mesmo sorriso que ele lhe deu enquanto deslizava os dois dedos ensanguentados por sua testa soltando enfim seu último suspiro, as lembranças vieram como um golpe seco, Sasuke se recordava do silêncio pesado após sua última respiração e daquele olhar que enfim não escondia mais nada, as imagens gravadas em seu ser de forma irreversível, aquele ponto final que o Uchiha mais novo foi forçado aceitar mesmo que jamais tivesse aprendido a conviver com ele. O coração de Sasuke disparou, não havia alegria mas sim um alerta, fagulhas de um instinto bruto e primitivo que gritava que aquilo estava errado, afinal, Itachi estava morto. O moreno sentiu a garganta fechar, como se alguém estivesse a apertando com força, o ar entrava com dificuldade a ponto de arranhar os pulmões, sinais de que seu corpo reagia antes que a mente pudesse organizar qualquer pensamento coerente e concreto, músculos tensos e dedos trêmulos, o impulso quase que voluntário de dar um passo para trás.

Ele queria negar, mas como? Ali estava Itachi. Em pé. Falando. Observando-os.

Uma parte de si queria acreditar que era um genjutsu ou talvez uma brincadeira cruel do destino, algo que não exigisse dele aceitar o impossível porque aceitar significava reabrir as feridas que não haviam cicatrizado de verdade. Sentiu seus olhos arder, piscou com força tentando negar a eminente enxurrada de lágrimas que viria, a visão não mudava, Itachi continuava ali em sua frente — vivo. Sofreu com as ondas desordenadas de dor, onde a incredulidade era sufocante e esmagadora, mas o pior ainda estava por vir, o alívio desleal, que parecia imperceptível mas que fez seu estômago se revirar de culpa, seu peito apertado como se estivesse sendo rasgado por dentro, em meio a situação, havia anos de luto, de raiva, de uma reconstrução forçada que estava ameaçando desmoronar diante daquele reencontro absurdo. Itachi estava ali o encarando sem emitir hostilidade e nem surpresa excessiva, apenas um olhar atento demais como se quisesse ler algo além do óbvio — como sempre fizera.

- Sasuke? - Itachi estalou os dedos. - estou falando com você. Poderiam me explicar por que vieram para a sacada do meu escritório? - a voz saiu baixa, carregando consigo uma estranheza quase intangível.

Ouvir seu nome ser pronunciado daquela forma fez algo dentro de Sasuke ceder de vez, o golpe final, a muralha que ele havia construído com esforço rachou e deixou escapar tudo aquilo que ele não era capaz de expressar, desde a saudade asfixiante, o arrependimento tardio e a dor de ter crescido sem as devidas respostas. Chegou abrir a boca para responder, mas nenhuma palavra veio ao seu encontro, talvez por acreditar que qualquer palavra que dissesse tornaria aquilo real demais, e se fosse real demais Itachi existir ali, a morte deixava de ser o fim e o luto torna-se uma mentira necessária, permaneceu imóvel, dividido entre aquele desejo infantil de correr até o irmão mais velho em busca de conforto e a necessidade exasperada de se proteger da dor que aquilo estava trazendo. No fundo, Sasuke sabia que não importava quantas dimensões atravessasse, Itachi sempre seria sua maior fraqueza.

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