28°CAPÍTULO

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Clara...

Helena deu um passo para trás, apertou as próprias mãos como se estivesse segurando a dor daquele dia, e continuou, contando cada detalhe daquela noite que mudou tudo.

__ Tudo aconteceu na mesma noite__ disse ela, com franqueza, sem desviar o olhar__Eu fui até lá com um único objetivo, matar. Ele simplesmente precisava ser tirado do caminho, e foi o que eu fiz. Saí de lá sabendo que tinha cumprido o que tinha que ser feito, sem olhar para trás. Mas foi naquela mesma noite, poucos minutos depois, que eu a encontrei. Amanda, tão pequena, sozinha, perdida nas ruas, eu não podia deixá-la ali, escura e perigosa como estava, então me aproximei, conversei com ela, e disse que iria levá-la até a sua casa, para ter certeza de que ela chegaria bem.

Ela parou um instante, como se estivesse revivendo o momento que fez o mundo dela desabar naquele dia.

__Nós caminhamos um pouco, até que ela parou e ela apontou para a casa sorrindo inocente. Na hora, foi como se o chão se abrisse sob os meus pés. Eu olhei para a casa, olhei para ela, e a ficha caiu de uma vez por todas. O homem que eu tinha acabado de matar, o homem que eu tinha tirado do mundo instantes antes, era o pai dela. Eu não fazia ideia de quem ele era, não fazia ideia que existia ela, não fazia ideia que uma vida tão pequena e inocente estava ligada àquele monstro. Eu tinha salvo ela de ficar sozinha na rua, sem saber que, na verdade, tinha acabado de salvar ela do próprio inferno, sem nem mesmo perceber. Mas eu ainda não sabia o quanto aquele inferno era profundo. Só fui descobrir tudo o que ele fazia, tudo o que ele realmente era, depois, quando ela já estava comigo, segura. Foi aí que, pouco a pouco, pintando, brincando, com toda a inocência do mundo, ela foi me contando tudo. E as palavras que eu vou te dizer agora são exatamente as que eu ouvi da boca dela, naquele dia.

Diana se levantou então, veio ficar ao lado de Helena, e segurou firme a mão dela, como quem segura a pessoa mais preciosa do mundo. A postura dura continuava ali, imponente, mas havia um brilho de proteção nos seus olhos, algo que só aparece quando o assunto é a segurança de quem ama. Ela foi até a gaveta do móvel antigo, tirou de lá um caderno de capa dura, gasta pelo tempo, e o entregou para Helena.

Helena abriu o caderno, passou os dedos por páginas antigas, como se cada linha ali fosse uma memória gravada a fogo, e continuou a falar, repetindo cada palavra que ouviu da menina, anos atrás.

__Ela chegou aqui, tão pequena, com os lápis de cor na mão, pintando tudo, como se estivesse falando de coisas boas, de brincadeiras, e foi assim, pintando, que ela começou a soltar tudo. Ela olhou para mim, com aqueles olhinhos inocentes, e disse: "não gosto de lá, mas eu gosto do meu papai, ele é o melhor, mas os amigos dele era mal".

Helena levou a mão à boca, engolindo o choro que parecia sufocá-la, antes de continuar.

__Eu não entendia nada, fui me sentar ao lado dela, e mandei a Vanessa sair para ficarmos só nós duas. Eu precisava entender...__Perguntei quem eram esses amigos do pai dela, e sabe o que ela fez? Ela abaixou a cabeça, ficou em silêncio absoluto, como se carregasse um peso que não cabia num corpo tão pequeno. Eu respirei fundo, meu coração apertado só de imaginar a maldade que existia por trás daquele silêncio. Eu pensava, se aquele ser ainda estivesse vivo, eu faria muito mais do que apenas matá-lo, eu faria ele pagar cada segundo de dor que ele causou. Chamei ela de novo, com todo o carinho do mundo: "Amanda, olha pra tia, ei princesa, a tia só quer entender tudo isso, entendeu?".

Ela fez uma pausa, e a voz ficou mais dura, marcando a crueldade do que vinha a seguir.

__E foi aí que ela soltou, com toda a inocência do mundo, a prova do quanto aquele monstro era podre por dentro. Ela me olhou, séria, e disse: "eu não posso falar, se não o meu papai morre".

Eu abri a boca, sentindo um nó na garganta só de ouvir aquilo, entendendo agora o peso daquela frase e o quanto aquilo tinha sido planejado por ele.

__Quem te disse isso? perguntei.__ "meu pai, ele disse que eu tinha que ser uma menina forte, e eu fui"__repetiu Helena, com uma lágrima escorrendo, e um misto de raiva e dor no olhar.__ Ela sorriu naquele momento, Clara, sorriu de orgulho. "ele tem muito orgulho de mim, pois fui uma garotinha forte, aqueles homens mal nunca mais fez mal ao meu papai". Você percebe? Você entende agora? Ele usou a própria filha como escudo, como objeto, como se ela fosse um troféu de guerra. Desgraçado! Ele fez ela acreditar que tudo o que acontecia, todo o mal, toda a dor, era para protegê-lo. Ele transformou o sofrimento dela em heroísmo para ele.

Helena respirou fundo, tentando se acalmar, e continuou.

__Ela voltou a pintar, como se nada disso fosse grave, e conforme ela ia relatando o que passou, o meu estômago chegava a revirar. Eu tive que me segurar muito, muito mesmo, para não chorar na frente dela, para não assustá-la. Que monstruosidade era aquelo tudo o que eu ouvia? E ela, na inocência dela, pensava que o desgraçado do pai era o seu herói. Apesar de toda a ingenuidade, ela era uma criança esperta, e acabou me falando o nome de todos os envolvidos. Quatro homens, e uma mulher. Uma mulher que era dona de uma casa de prostituição, onde aquilo tudo acontecia. Na hora eu já sabia, ela não era a única criança, com certeza. Separei as fotos de todos, só para não ter erro na hora de agir.

Paixão Proibida Histórias para pegar e não largar. Descubra agora