CLARA...
A chuva caía fina e constante lá fora, daquelas que molham devagar e deixam o ar carregado, pesado. Só queria aproveitar o momento com elas, tanto tempo longe, e eu na correria dessa vida de crime que eu levo, mas elas sabem bem como é, pois elas já passaram por tudo isso. Hoje, preciso colocar tudo para fora, preciso entender.
Diana, estava sentada na poltrona de couro, com a postura ereta, dura como uma rocha, exatamente como sempre foi. Poucas palavras, olhar afiado, expressão fechada, daquelas que ninguém ousa contrariar nem questionar. Todos que conhecem a história sabem, do que a temida Gringa é capaz. Ela carrega o peso de ter sido a dona do pedaço, de ter sangue nas mãos e de ter sobrevivido a tudo, e isso está gravado em cada traço do seu rosto, em cada cicatriz, em cada silêncio que ela deixa pairar no ar.
Ao lado dela, Helena, foi uma longa história até chegar aqui, hoje a chamo de mãe, são poucas pessoas que sabem que na verdade somos irmãs de sangue, acredito que por isso sempre tivemos uma grande ligação.
As mãos sempre em movimento, como se precisasse tocar algo ou alguém para se sentir segura. Ela é o oposto completo de Diana, doce, falante, carinhosa, aquela que sempre acalmou os ânimos, que nos curou os machucados, que transformou qualquer lugar apertado ou perigoso num lar de verdade. Elas foram tudo para mim. Foram para Amanda também, para o Gui. Nossas mães, nossas criadoras, nossas referências de tudo.
E era justamente por amar tanto elas, que eu não podia mais guardar o que eu descobri.
Fechei a porta atrás de mim, devagar, e parei ali no meio da sala, sentindo o olhar das duas queimarem em mim.
__Precisamos conversar, e não é coisa pequena__comecei, a voz saindo mais forte do que eu esperava, cortando o silêncio do ambiente.
Diana não se mexeu, só arqueou uma sobrancelha, aquele olhar de quem já sabe que tem problema chegando. Helena, que estava com um livro aberto no colo, fechou devagar e me olhou com aquela doçura que sempre me desarmou, mas que hoje não ia ser suficiente para me fazer desistir.
__O que houve, minha filha?__ perguntou Helena, sua voz suave.
Respirei fundo, engoli o nó que já se formava na garganta, e soltei tudo de uma vez, porque não tinha jeito fácil de falar aquilo. A verdade veio à tona da pior forma possível: pela boca daquele nojento que a Amanda chegou a chamar de noivo. Um homem que eu descobri ter os pés imundos, envolvido em coisas sujas, traidor, perigoso. Antes que eu mesma desse um fim nele, como faço com tudo o que ameaça quem eu amo, ele cuspiu tudo o que sabia, numa tentativa patética de me chantagear, de se salvar. Disse coisas que eu nem imaginava, segredos antigos, nomes, histórias... e entre tudo isso, a verdade que mais me abalou. Mas essa parte, de onde veio a informação, eu ia levar comigo. Elas não precisavam saber.
__Eu descobri a verdade, descobri tudo sobre a morte do pai da Amanda__ olhei diretamente nos olhos de Diana, que continuava imóvel, dura como sempre, e depois virei meu rosto para Helena__ Descobri que foi você, mãe Helena. Foi você quem acabou com ele.
O silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer grito. Helena levou uma das mãos à boca, os olhos se enchendo de água de repente. Diana, por outro lado, continuou com a postura rígida, mas vi o canto da sua boca se apertar, o sinal claro de que estava tensa, de que a minha palavra tinha acertado o alvo. Ela sempre foi de pedra, mas eu conheço cada detalhe dela.
__Como você ficou sabendo disso?__foi Diana quem perguntou, a voz seca, firme, sem qualquer tremor, mas carregada de seriedade. Ela não negou. Nem tentou inventar história. Isso só me deu mais certeza de que tudo o que eu tinha descoberto era real.
__O caminho não importa__respondi, desviando o olhar por um segundo, escolhendo minhas palavras com cuidado para não ser grossa com elas__ O que importa é que é verdade, vocês esconderam isso a vida toda, e agora a situação está piorando. Vocês sabem tão bem quanto eu, ela tinha só seis ou sete anos quando ele morreu, ela lembra de poucas coisas, mas cresceu sabendo que ele foi assassinado. Cresceu com essa ideia na cabeça, com esse ódio alimentado por qualquer coisa que ouviam por aí. Hoje, a única coisa que ela mais quer na vida é descobrir quem foi o responsável pela morte dele... e jura por tudo que é santo que, no dia em que descobrir, vai matar com as próprias mãos.
Helena deixou um soluço baixo escapar, e levou as mãos ao rosto. Diana, por sua vez, fechou os punhos sobre os braços da poltrona, e um brilho duro e preocupado passou pelos seus olhos. Elas sabiam. Elas sempre souberam o que essa busca significava para ela.
__Como puderam esconder?__ continuei, a voz saindo mais alta, a angústia tomando conta__ela passou todos esses anos perguntando, investigando, colecionando pedaços de histórias, na esperança de um dia chegar até quem fez isso. Ela quer vingança, ela dorme e acorda com isso. E agora, eu sei que a pessoa que ela busca, a pessoa que ela quer destruir, que ela quer ver morta... é a mulher que criou ela, que deu a vida por ela, que ela chama de mãe. Como acham que ela vai reagir se um dia descobrir?
Diana se mexeu um pouco na poltrona, cruzou os braços sobre o peito, e me olhou bem no fundo dos olhos, com aquela intensidade.
__Nós escondemos porque essa verdade é suja, Clara. É pesada demais para se carregar, e nós fizemos de tudo para que vocês duas nunca precisassem saber desse lado feio da vida__disse ela, sem rodeios, com a sinceridade que sempre teve, mesmo que doesse__nós sabíamos da sede de vingança dela, sempre soubemos. Se dependesse de mim, ela morreria sem nunca descobrir o que realmente aconteceu, nem quem ele realmente era. Não por maldade, não por mentir, mas por amor. Porque saber a verdade não ia trazer nada de bom para ela, só dor, só raiva, só desgosto. E pior, ia colocar ela contra nós, ia colocar ela contra o que é certo.
__Mas ela tem o direito de saber quem ele foi de verdade__ rebati, a voz embargada, sentindo o desespero da situação__ela cresceu imaginando que ele era uma vítima, um homem bom que foi tirado dela injustamente. Ela idolatra a memória dele. Se ao menos ela soubesse o tipo de homem que ele era...
Helena se levantou devagar, veio até mim, e mesmo com os olhos cheios de lágrimas, colocou as mãos no meu rosto, com aquele toque macio que sempre me acalmou.
__Minha filha, se você soubesse quem ele realmente era, entenderia tudo... entenderia por que escolhemos o silêncio__disse ela, com a voz embargada, doce, mas cheia de uma tristeza profunda que eu nunca tinha visto antes__ O pai da Amanda não era um homem bom, não era o herói que ela construiu na memória de criança. Ele era pior do que qualquer coisa que você já viu por aí, pior do que qualquer um que já tentou nos fazer mal.
Ela parou um instante, respirou fundo, e olhou para Diana, como se pedisse força para continuar. Diana acenou com a cabeça, pequeno, quase imperceptível, e Helena voltou a me olhar, com uma dor que cortava o coração só de ver.
- Ele vivia de coisas erradas, Clara. Tráfico, exploração, coisas que destroem vidas... E o pior de tudo: ele fazia isso com pessoas indefesas. Mulheres, meninas, crianças... ele não tinha coração, não tinha limite.
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Paixão Proibida
Fiksi PenggemarQuando seu mundo vira de ponta cabeça e você se vê entre um amor proibido e o desejo incansável por vingança. "Paixão Proibida"conta a história de duas garotas que foram criadas como irmãs e que se vêem perdidamente encurraladas em uma "Paixão proi...
