Capítulo 19

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Meses Depois...

O cheiro puro das árvores ao redor parecia renovar minha alma. A aurora do lado de fora brilhava acima de mim.

Então, me lembrei que estava faminta.

Tirei a roupa e vesti um pijama vermelho que havia ganhado de Gabriele. Abri a geladeira procurando algo para comer, e peguei um pedaço de carne. De repente achei graça de mim mesma por não sentir vontade nenhuma em cozinhar aquilo. Peguei uma faca e um garfo, e levei a comida para o sofá onde liguei a TV.

Estava passando um programa idiota qualquer àquela hora. A comida crua era uma delícia, mas não durou muito, mas era melhor que se entregar ao vício. Eu não beberia nada até que não resistisse mais. Meu controle poderia durar algumas semanas, mas com toda a pressão daqueles dias, eu sabia, que lá no fundo, eu não resistiria. Depois de comer, desliguei a TV e me deitei no sofá.

Eu passei algumas horas desse jeito, parada olhando para o teto, refletindo e descansando daquele dia incomum. Ainda estava me acostumando com a tentativa de viver como um ser normal, é difícil trabalhar em um lugar e com pessoas, que pelo certo seria sua comida. Mas, como depende apenas de nós para sermos o que queremos, aceitei a proposta de Gabriele de trabalhar no hospital a duas quadras de sua casa. Sentia falta de Daniel e dos outros da aldeia, mas ia vê-los quase todos os dias. Adele e Malcon ficaram morando com Daniel e os outros, também escolheria ficar, se não fosse Gabriele me perturbar como sempre fazia. Dizer não para ela era a mesma coisa que dizer " Me convença, me perturbe até eu aceitar". Então, foi aí que me lembrei de que ela tinha uma surpresa para mim. O que seria? Mas na verdade, me dei conta de que não era isso que me inquietava. Apesar de o hospital ter recebido vários pacientes com diversos tipos de acidente, o que apareceu hoje foi uma exceção dos meus dias monótonos de ajudante de enfermeira. Ele não era mais especial que os idosos do qual eu tratava, mas ainda assim, havia algo diferente nele. Algo que eu não gostei.

Um barulho de motor surgiu próximo, interrompendo meus pensamentos. Instantes depois, ouvi batidas na porta, Gabriele.

Levantei-me, coloquei o prato na mesa e fui abrir a porta. Gabriele estava de vestido preto e toda maquiada, seu cabelo loiro estava caído na frente, sempre como ela deixava quando queria "agir". Imaginei que ela fosse sair à noite como fazia tantas vezes, mas não era o tipo de vestido que se arriscaria a usar numa noite com os amigos.

—Você não está pronta? – Murmurou ela, entrando. – Já estamos atrasadas.

Eu olhei a expressão dela de satisfação se desfazer enquanto olhava para mim. Então ela pareceu se lembrar.

—Oh, me desculpe. – Disse ela rindo. − Eu me esqueci de te avisar.

—Me avisar do que?

Ela apontou o calendário na parede atrás da tv. O calendário marcava 31 de outubro. Fiquei observando, em pé, o rosto dela e o calendário, me perguntando o que aquilo queria dizer, até que por fim eu entendi.

E não gostei.

— Essa era a surpresa. − Disse ela com largo sorriso.

Não era exatamente uma surpresa. Eu havia apenas me esquecido do que Gabriele vinha me dizendo há dias. Ela sabia que eu me esqueceria, e talvez por isso ela tenha desistido de tentar me lembrar, mas agora eu podia ver sua animação.

Ela me olhou apreensiva e se levantou do sofá, andando pela sala.

—Você virá comigo, não é? – Perguntou ela. – Sabe como é importante para mim.

Segredos Mortais - Os GuardiõesHistórias para pegar e não largar. Descubra agora