Christopher era um garoto normal até certo ocorrido na vida dele. Sou amigo dele há quase nove anos, estudamos juntos boa parte da vida, e era tudo conforme o habitual, todos os dias. Chris e eu tínhamos bastante popularidade, em todos os sentidos. Em questão de aparência, ele tinha cabelos castanho-escuros e olhos verdes, e as meninas gostavam muito dele. A estatura dele era alta, e eu sempre fui um pouco mais baixo que ele. Estávamos no segundo ano do ensino médio, Chris com quase 17 anos e eu com 16. Sabemos que ele é do tipo de cara que não troca sua noite de sono e descanso por nada, então nunca o chamávamos para uma programação até tarde da madrugada, como virar a noite jogando videogame na casa dos amigos ou alguma festa.
No começo do ocorrido, Chris parecia somente mais distraído que o normal. A gente perguntava pra ele o que tinha acontecido, e ele dizia que não era nada. Brincávamos com ele, achando que ele estivesse apaixonado, coisas do tipo.
Depois, eu passei na casa dele. Mesmo com as brincadeiras, eu estava meio preocupado, queria saber o que estava acontecendo. Começamos a conversar, ele tirou dois potes de sorvete do congelador e ficamos sentados na ilha da cozinha, e então, toquei no assunto.
"Cara, o que tá acontecendo esses dias? Tem algo de errado?", eu perguntei.
"É muito estranho de explicar, sabe... Mas sim, tem uma garota envolvida.", ele falou, e depois, colocou uma colher cheia de sorvete na boca, como se fosse impedí-lo de explicar para mim, em vão.
"Ué, por que seria tão complicado? Que eu saiba, todas as meninas gostam de você, não iria ser difícil de chamar ela pra sair.", Eu tentei encorajá-lo.
"Sabe, Daniel, quando eu falo que é complicado, é porque realmente é. Eu não sei onde ela mora, onde estuda, na verdade, eu não sei nem se ela existe de verdade... Eu gosto mesmo dela, pra caramba.", ele parecia estar bem afetado ao falar isso. "Eu venho sonhando com ela há quase uma semana, e ela não sai da minha cabeça."
"Sonhando com ela? Dizem que quando você sonha com alguém, é porque você já viu essa pessoa em algum lugar, na rua, na TV, na internet...", eu falei, na esperança de que ele se acalmasse.
"Você não entenderia...", Chris persistiu em discordar de mim.
"Olha, cara, por favor não comenta isso com ninguém. Okay?" disse ele, meio desanimado. Claro que eu concordei.
Nos dias seguintes, o Chris parecia cada vez mais sem energia. Nas aulas, parecia estar mais desatento por sono. Eu nunca, em nove anos, havia visto ele assim nas aulas, então, decidi mais uma vez conversar com ele. Assim que as aulas terminaram, lá estava eu.
"É a garota? Cara, você tem dormido bem?", eu cheguei ao lado dele, pegando em seu ombro, enquanto ele guardava os livros no armário.
"Tenho dormido quatro horas por noite. Simplesmente, perco o sono bem na hora de dormir. Já falei pra não falar sobre ela...", ele fechou o armário, colocando a mochila nas costas por uma alça.
"Chris, já tentou ver um médico, que te receite um remédio pra dormir, um calmante ou algo do tipo?" eu disse, seguindo-o para fora da escola.
"Sinceramente, não acho que eu precise disso, em breve, ela sairá dos meus pensamentos e ficarei como eu era.", ele deu um meio sorriso quando falou-me isso.
Duas semanas se passaram, e vi o estado de Christopher piorando. Ele estava cada vez mais incapacitado de realizar tudo que lhe era rotineiro, que era costume para ele. Percebia que ele não conversava mais com nosso grupo, e se isolava cada vez mais. Falava uma vez ou outra comigo pelo Facebook para perguntar algo sobre a escola que havia perdido atenção ou alguma anotação que não conseguiu concluir.
Daí, decidi que já era hora de falar com os pais do meu amigo mais antigo.
Esperei que chegasse a hora do jantar, para me certificar que estariam em casa.
Liguei para a casa de Chris, e ao terceiro toque, uma voz máscula e madura pode ser ouvida do outro lado da linha.
"Boa noite, sr. Jones. Estou ligando pois estou muito preocupado com o Chris...", eu disse, não muito animado.
"Daniel! Por que? O que houve?", o tom dele foi de alegre a preocupado em segundos, mas eu tinha que prosseguir.
"Sabe, ele vem estado super cansado esses dias. Contou-me que não está dormindo bem, e atualmente, tem se isolado do nosso grupo de amigos, inclusive online. Acho que seria recomendado levá-lo à terapia." expliquei do jeito mais franco que pude.
O pai de Chris concordou, e disse que iria marcar uma consulta para seu filho em breve. Pude respirar aliviado.
Outro dia, eu percebi que ele chegou na escola com olheiras. Eu meio que engasguei quando vi aquilo, como eu disse, nunca pensei que fosse ver o meu amigo que descansa super bem daquela forma.
"Ainda sem conseguir dormir?', eu disse, me aproximando dele.
"Minhas horas de sono reduziram. Eu definitivamente não fui feito pra isso...", ele suspirou.
Eu tinha combinado de ir na casa do Chris para ajudá-lo com o dever de casa, já que ele estava tão cansado. Então, diretamente da escola, nós fomos. Os pais dele estavam fora, e a irmã mais velha dele, estava em intercâmbio desde a semana anterior. Então estávamos ele, eu, e seu cachorro, o Max. Max era um dog alemão dócil, preguiçoso e amável. Ele ficou o tempo inteiro ao nosso lado, e de vez em quando, lambia o rosto de Chris para deixá-lo mais acordado. Enfim, depois de algumas páginas de exercícios, ouvimos a campainha tocar. Chris levantou-se e foi abrir a porta. Eu ouvi ele questionando, me levantei, e fui seguido de Max. Chris segurava um case de DVD, e logo também fiquei curioso.
"Estava aqui, em cima do tapete. Acha que devemos ver o que é isso?", Chris olhou para mim, indeciso.
"Sim, mas não no computador. Veremos no DVD player.", eu respondi, com intuito de proteger o computador de qualquer vírus ou algo do tipo. Ele simplesmente concordou, então fomos para a sala, eu me sentei enquanto esperava ele pôr o DVD. Mas, ao abrir o case, ele parou por um minuto, olhando para DVD ali dentro. Chris tirou-o dali e mostrou para mim. Não havia nenhum título, nenhum nome escrito no disco. Mas haviam desenhado algo meio perturbador: era um círculo com um "X" passado no meio. Pedi para ele pôr logo, evitando qualquer comentário que tivesse se passado em minha mente. Chris colocou o DVD, e então se sentou ao meu lado.
O vídeo mostrava algumas filmagens com estática da frente da casa de Chris. Mostrava nós dois entrando, quando chegamos da escola. Nós nos olhamos boquiabertos, e logo voltamos a atenção ao vídeo. Logo, depois de um pouco de estática mais densa, a cena cortou para um lugar, que parecia uma sala de estar, só que, ao mesmo tempo, era muito estranha. A atmosfera do lugar me fez sentir meio mal, mas ignorei aquilo, e esperei para ver o que se procedia. No fundo, ouviam-se risadas, meio anormais, e então, uma garota pareceu entrar na sala. Ela usava uma máscara cinza, com uma boca... Dividida? Um lado simbolizava um sorriso, e a outra, simbolizava uma expressão de tristeza. os buracos para os olhos eram maiores do que de outras máscaras que eu já vi. Ela olhou diretamente para a câmera, mas antes de se aproximar, ela gritou algo para fora da sala. Pelo que eu entendi, ela disse: "Diga ao EJ que eu deixei alguns rins em cima da mesa". Juro que quase pedi para o Chris dar pausa, mas aí ele disse algo que me fez olhar para ele, confuso.
"É ela... a voz é dela...", ele disse, quase sem voz.
Então, no vídeo, a garota se sentou em frente a câmera, soltou um risinho, e olhou de novo. A estática aumentou um pouco, inclusive no áudio. Então, ela falou de novo.
"Sentindo-se sem sono?", e logo após ela ter dito isso, a estática aumentou quando pudemos ver atrás dela uma pessoa alta, vestida de preto, segurando nos ombros dela. Seus dedos eram longos e extremamente pálidos. Não conseguíamos ver mais nada nitidamente, mas percebemos que ela tirou a máscara, porém, não conseguindo identificar seu rosto, por causa da forte estática. Percebemos ela sorrindo, e o vídeo acabou ali. O DVD player se abriu, e quando eu olhei para Chris, ele parecia estar totalmente em choque. Tentei chamar a atenção dele algumas vezes, e então, ele falou, novamente quase sem voz.
"É ela...", e deu um meio sorriso.
Eu peguei o DVD imediatamente, e o quebrei na hora. Chris reclamou daquilo, mas eu disse que era para o bem dele.
Eu ainda estava bem perturbado com o vídeo, queria esquecer tudo aquilo o mais rápido possível. Levantei o Chris e disse para voltarmos a estudar. Ele parecia estar completamente sem sono agora, e então, depois de um tempo, estávamos estudando como antes.
"Ela... Ela pode estar aí fora...", Chris olhou fixamente para mim.
"De jeito nenhum você vai atrás daquela aberração!", eu falei bem, em tom alto e claro.
Ele apenas se levantou rápido e correu, e obviamente eu fui atrás dele. Chamando-o e mandando ele parar. Ele saiu de casa, e olhou para onde a câmera que gravou aquele vídeo estaria, porém, não havia mais nada lá. Ele me fez seguí-lo pelo perímetro da casa, mas nada lá também. Eu falei que era melhor entrarmos, pois já estava escurecendo. Puxei-o pela mão e o levei relutantemente para dentro.
"O que deu em você?!", eu disse bastante estressado. Ele disse que não aguentava mais ter que ficar longe dela. Que ele a queria para si. Eu falei que ela era uma louca e que ele a deixasse para lá. Mas ele não falou nada depois disso. Passamos um tempo no computador, jogando um pouco, e então pedimos uma pizza. Enquanto não chegava, nós terminamos o dever de casa. Quando o entregador chegou, eram aproximadamente umas nove da noite. Nós o pagamos e fomos então para a sala. Ficamos conversando pelo celular com nossos outros amigos enquanto nos falávamos e comíamos também.
A campainha tocou novamente, eu e Chris nos olhamos confusos. Pensamos que poderia até ser o entregador, com algum problema com o troco, ou algo assim. Ele se levantou e eu também, e fomos abrir a porta. Na verdade, não havia ninguém por lá. Então ouvimos vozes do outro lado da rua. Era um garoto e uma garota, provavelmente um casal, ou ao menos, estavam agindo como um. O garoto tinha cabelos castanhos desarrumados, uma pele muito pálida e era mais alto do que a garota. A garota usava óculos, também de pele muito pálida, e cabelos longos. Chris abriu totalmente a boca quando viu a garota.
"É ELA, DANIEL. É ELA.", e antes que eu pudesse fazer alguma coisa para impedí-lo, ele já estava atravessando a rua. Eu o chamei em vão, porém, era tarde demais. Senti muita vergonha alheia naquela hora. Ele pareceu falar com os dois, perguntou se aquela garota sabia sobre o DVD e coisas do tipo, ela olhava para o garoto com quem estava de mãos dadas, com ar de riso, e continuou a caminhar com ele. Chris parou atrás dos dois e assistiu eles se afastarem. Fui até ele, tentar acalmá-lo, mas vi lágrimas encherem seus olhos. Já era, o coração dele estava partido.
"Agora, ao menos, você sabe que ela é real...", eu tentei, em vão, fazer meu amigo se sentir melhor. Ele olhou para mim, assentiu com a cabeça, e atravessou a rua, e eu o segui. Tentei animá-lo, assistimos uns episódios de uma série e tudo ocorreu mais ou menos bem no final da noite.
Ainda naquela semana, fiquei de ir ajudá-lo com a lição de casa novamente. Ele não tinha ido para escola naquele dia, então, quando as aulas terminaram, fui direto para a casa dele. Novamente, ele estava somente com Max. Sentamos, estudamos, e ele parecia triste, desiludido. Perguntei se ele estava bem e se queria parar com o dever. Ele disse que só precisava tomar um copo d'água. Eu disse que tudo bem, e fiquei no quarto com Max. Passaram-se 10 minutos, e eu achei muito estranho, pois ninguém leva esse tempo para tomar água. Levantei-me, seguido por Max, e fomos até a cozinha. Encontrei Christopher desacordado, no chão. Em cima da pia, havia um tubo de remédio vazio. Prontamente, liguei para os pais de Chris, que já estavam vindo para casa, coincidentemente. Liguei para a emergência, e eles chegaram um pouco depois dos pais de Chris. Decidiram que os dois iriam na ambulância e que eu ficasse esperando-os. Lentamente vi a ambulância e o som da sirene se afastarem, com o sentimento incerto de "será que verei meu melhor amigo de novo?".
No dia seguinte, fui visitá-lo, e ele estava bem, aparentemente. A overdose medicamentosa foi logo controlada, e em breve, ele teria alta. Eu disse que ficaria uns dias na casa dele para ajudá-lo a se recuperar. Ele sorriu, agradeceu e pediu perdão pelo o que ele fez.
Dois dias depois de ele ter saído do hospital, eu percebi que ele ainda estava meio disperso, provavelmente ainda pensando na tal garota. Apesar de eu evitar ao máximo tocar no assunto, percebi que ele não conseguia relaxar e dormir normalmente, por tanto, os médicos receitavam-lhe remédios soníferos em dose controlada, mesmo que ele se recusasse a tomar. Christopher estava aos poucos perdendo a si mesmo, perdendo sua personalidade, seu verdadeiro jeito de ser, e estava se tornando agora um adolescente problemático no sentido psicológico e sentimental.
Eu sabia que não podia ficar assim por muito tempo. Eu sabia que eu teria que ajudar meu melhor amigo. Então, conversei com os pais dele novamente sobre a terapia. Eles conseguiram agendar uma consulta domiciliar, a qual o psiquiatra pediu a qual eu participasse, para explicar-lhe com mais detalhes o que Chris não conseguiria sozinho.
Poucos dias depois, era mais ou menos a hora do almoço, eu sentei perto do Chris como de costume, e mesmo que ele permanecesse calado ou não falasse tanto, eu procurava sempre estar puxando assunto com ele de alguma forma.
Pouco tempo depois de terminarmos de almoçar, a campainha da casa toca, e o sr. Jones foi então abrir a porta. Nós dois sentamos no sofá, e a mãe de Chris posicionou a poltrona da sala em frente a nós dois. Se aproximando da gente, estava um homem de altura mediana, cabelos pretos, barba, aparentemente tendo seus 25 ou 30 anos. Por baixo de um jaleco branco, podia-se ver que ele usava uma camisa social azul e uma gravata marrom. Segurava uma pasta e uma prancheta, e cruzando as pernas, colocou repousou ali sua pasta e ergueu a prancheta, apertando o botão de sua caneta e em seguida, sorrindo para nós dois.
"Então, estou aqui com Christopher e Daniel, certo? Eu sou o Dr. Brian Evans, e hoje atenderei o Chris por pedidos de seu amigo Daniel.", percebi calma e tranquilidade no tom de voz dele. "Diga-me, Christopher. Como tem se sentido essas últimas semanas?", ele perguntou-o, mas também olhando para mim.
"E-Eu... me senti de várias formas essa semana...", Chris gaguejou um pouco ao responder ao doutor.
"Se puder, teria como descrevê-las para mim?", Dr. Evans agora esperou para que Chris respondesse algo, pois ele parecia estar pensando em como explicar.
Ele contou sobre a garota, sobre o DVD, sobre o casal, sobre sua tentativa de suicídio e sobre sua falta de sono constante. Dr. Evans anotou e escutou tudo atentamente, sendo bastante paciente nas pausas que meu amigo fazia, pois estava um pouco lento e desfocado.
Após a consulta, o médico receitou-lhe novamente um antidepressivo e um sonífero, os quais Chris se recusou a começar a tomar. Eu conversei com ele por um tempo, e consegui fazer com que ele aceitasse tomar o antidepressivo, mas não consegui fazer com que ele tomasse o sonífero.
Era até que uma tarde normal, como as passadas desde que ele voltou do hospital, porém, eu não sabia o que iria acontecer naquela madrugada.
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Histórias de Terror
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