Capítulo 2

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Continuei andando na esperança de encontrar alguém, ou achar a cidade de novo. Talvez acordar, porque nada daquilo fazia sentido, porém eu nunca percebia quando estava sonhando, a tese de que era um sonho nem sequer passa pela minha cabeça quando estou dormindo, mas muitas pessoas conseguem até controlar o próprio sonho, não é? Talvez esse seja o caso.

Fechei meus olhos com força e me imaginei na minha cama, abri e nada. Fechei os olhos e imaginei um filhote de elefante rosa na minha frente. OK, nada.

Andei o que pareciam ser horas, minhas pernas doíam e meus braços estavam dormentes. Meus olhos estavam fechando sozinhos enquanto eu andava automaticamente, até que algum barulho me fazia abrir os olhos assustada.

Até que finalmente encontrei um lugar com luz, o fim da floresta. Se eu tivesse forças naquele momento, eu pularia de alegria, mas me contive com um meio sorriso.

Havia um grande portão aberto iluminado com lamparinas, e desse portão se estendia pra dentro dele uma ruazinha de pedra com postes de luz. Logo do lado da rua, havia uma praça, algumas pessoas andavam para lá e para cá, puxando crianças, carregando coisas, ou, simplesmente, sentadas desfrutando da beleza da noite.

Ah, e as pessoas não tinham mais aquelas luzes e elásticos, talvez, eu tinha imaginado tudo aquilo porque fiquei impressionada com o suicídio? Era a única explicação lógica no momento.

Entrei no portão hesitando, porém um sentimento de acolhimento me atingiu. Aquele lugar tinha um cheiro tão bom, não parecia em nada poluído, na verdade, ele me lembrava antigas vilas, porém, pelos postes de luz elétrica, dava para ver que eu, infelizmente, continuava no século vinte e um.

Caminhando pela rua de pedra, observava tudo ao redor me sentindo perdida e ao mesmo tempo familiarizada.

Socializar não era o meu forte, apesar da maioria das pessoas parecerem gentis, eu, realmente, não gostava de falar com estranhos.

Andei até o centro da praça, onde havia várias mesinhas e até notei uma lanchonete perto. Ela tinha um cheiro muito gostoso de comida, mas não aquele cheiro forte de gordura, era um cheiro, simplesmente, inexplicável, não dava para explicá-lo, só senti-lo.

Coçava os braços, procurando por uma pessoa sozinha, era muito mais embaraçoso conversar com grupinhos.

Meus olhos pararam em uma menina de rosto infantil, estatura pequena, mas por algumas feições e formato do corpo, eu chutava que ela tinha dezessete anos.

Cheguei perto dela pensando no que eu ia falar.

- Hmmm, oi...? — Comecei minha frase inteligentemente bem, sem saber mais o que dizer.

Ela olhou para mim parecendo distraída, vi aquilo como uma deixa para continuar minha "frase".

- Eu estou meio perdida, que lugar é este? — Eu me sentia completamente estúpida sem conseguir formar frases descentes.

Ela apontou para cima, eu segui seu dedo e vi uma placa gigante escrita "Magic City".

Ela deu um meio sorriso como se dissesse: "Você é burra, mas não posso falar isso, pois, não te conheço e não quero parecer rude".

— OK... — Decidi falar de uma vez, provavelmente, eu nunca veria aquela menina de novo na minha vida. — Você sabe como eu volto para Bauru?

— Bauru? — Ela fez uma careta engraçada. Eu confirmei com a cabeça. — Você mora em algum lugar na floresta?

— Não. — Respondi um pouco ofendida. Quem moraria em uma floresta? — Eu moro em Bauru. É uma Cidade, eu não devo estar longe, vim andando.

Ela me encarou por alguns segundos parecendo confusa.

— Bauru? — Questionou. De repente o misto de confusão desapareceu e ela estreitou um pouco os olhos. — Tipo, no mundo humano?!

— Não, em um mundo cheio de unicórnios. — Respondi irônica.

Ela me olhou não parecendo nem um pouco ofendida e deu um sorriso de orelha a orelha.

— Me siga, por favor. Max irá lhe ajudar. — Ela disse enquanto andava saindo da praça. Eu a segui não tendo muita escolha. A segui para dentro de espécie uma caverna, porém, parecia mais uma fortaleza escondida no subsolo.

— Desculpa... Max? — Finalmente perguntei.

— Sim, ele é meio que o nosso tutor, ele comanda a maioria das coisas por aqui. — Respondeu enquanto andava, sem olhar para mim. — A propósito, meu nome é Chloe. — Ela virou de repente, me fazendo frear no lugar, sua mão estendida em um cumprimento.

— Ah, eu sou Emma. — Apertei a mão dela. Quem se cumprimentava hoje em dia assim?

Bom, talvez algumas pessoas ainda usassem em lugares formais, como uma entrevista de emprego ou algo assim.

Ela se virou voltando a andar e depois de alguns segundos passando por salas, corredores e portas, finalmente, abriu uma porta, entrando sem bater.

— Max? — Chloe chamou, a segui para dentro da sala, um pouco sem graça.

— Olá? — Um homem não muito velho e não muito novo, respondeu sem tirar os olhos do papel que tinha em mãos, anotando algo rapidamente.

— Hmm, temos visita. — Chloe disse.

Visitas? Eu estava em uma grande casa?

Max, finalmente, tirou os olhos do papel ajeitando seus óculos e olhando diretamente para mim.

— Olá. — Ele disse.

— Olá. — Respondi.

— Eu nunca te vi por aqui. — Ele disse se levantando e apontando para um sofá perto da gente, Chloe andou até ele e se sentou, me sentei ao seu lado e Max sentou em uma poltrona a nossa frente.

— Hã, é porque eu nunca vim aqui. — Respondi.

Ele me encarou parecendo confuso, tudo aquilo já estava me irritando. Que tipo de lugar era aquele? Tudo que eu queria era voltar para Bauru.

— Ah é, ela veio de Baru. — Chloe decidiu explicar.

Bauru. — Corrigi.

— É. — Ela olhou para mim dando um sorriso e depois de novo para Max. — Você conhece?

Max me olhava atentamente, ele tirou seus óculos o deixando sobre o colo, colocou a mão no queixo parecendo refletir.

— Bem, isso fica em São Paulo, talvez? — Perguntou a mim.

— Sim. Aqui não é São Paulo? — Tudo aquilo estava ficando cada vez mais confuso, eu não poderia ter corrido até outro Estado, por favor.

— Como eu posso explicar...? — Ele parecia ter feito essa pergunta para si mesmo. — Digamos que aqui é uma Cidade-Estado.

— Cidade-Estado? Não sabia que havia uma dessas em São Paulo. — Respondi querendo saber mais.

— Aqui não é São Paulo. — Respondeu calmamente. — Faz anos que ninguém entra aqui, ninguém consegue entrar ou sair, mas há uma profecia... — Ele andou até a sua mesa parecendo procurar algo, depois de algum tempo segurou um papel, lendo-o em voz alta. — O dia em que a Escolhida chegar a sua maior idade, ela retornará, quebrando a maldição...

~~to be continued

No abismo da loucura (Reescrevendo)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora