Sem o elo

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Mal berrou o alarme do despertador e Kuro já o puxou da tomada. Não conseguia deixar de sentir o gosto amargo do fracasso. Mais um ano. Sozinha.

Tomou um banho frio e vestiu o uniforme da escola. Prendeu o dedo no nó da gravata e ficou olhando a unha mudar de cor com o sangue acumulado. Ajeitando a gola, pegou os óculos e encarou o par de circunferências cinzas se encher d'água.

- Esses olhos... - Disse baixinho enquanto segurava o choro.

- Filha, está acordada? - Perguntou sua mãe batendo na porta do quarto, de repente.

- Estou, mãe. - Respondeu.

- Bom, desça logo. O chá está esfriando e tem uns homens da policia aqui querendo te ver - Disse a mãe um pouco preocupada.

Quando Kuro ouviu "policia", suas pernas balançaram.

À cambalhotas, a garota desceu para a cozinha. Eram dois homens grandes de terno. Seus olhos estavam cobertos por grossas lentes escuras. Um emblema de um círculo dentro de outro adornava o ombro esquerdo da roupa de ambos, enquanto que o direito era liso. Eles eram da Polícia da Córnea.

- Senhorita Katharine? - Perguntou o mais alto, Kuro teve de sentar rápido ou seus joelhos a trairiam de vez. - Como sabe o exame vítreo foi realizado no dia de ontem e, portanto...

A morena teria ouvido o resto se não fosse pelo medo que a arremetia. A polícia da Córnea em sua casa, depois do primeiro dia de aula, só podia ser sobre os resultados falsificados. Ela sabia, bem como Rob, que tentar burlar o exame terminava em cadeia.

Naquele instante, imaginou seu amigo sendo abduzido numa van preta para a prisão. Também pensou nela mesma sendo presa em frente a sua mãe. Seu pai receberia a notícia pelo telefone no trabalho e sua irmã correria para a delegacia. Tudo seria uma bagunça desgostosa para com sua família.

"E se eu pular pela janela" - Pensou. Não prestou atenção em nenhuma palavra do que eles disseram enquanto sua mente trabalhava em sua fuga em ritmo de 24 horas.

- Então senhorita, devido aos presentes termos, devemos acompanhá-la - Disseram.

Kuro olhou para eles, sem entender nada. Pensou que estivesse sendo presa, mas quando sua mãe pegou em sua mão, sua fuga teria acabado. No entanto, o olhar de raiva que esperava da mulher ao seu lado, era um olhar cheio de lágrimas.

"Ferrou vou ser presa!".

Mas as lágrimas de sua mãe eram de alegria.

"Espera ela ta... feliz..."

Ela recebeu um abraço muito forte e pesado. Não entendia qual era o motivo de tanta alegria, porém eram abraços e mais abraços, e porquê? A garota não tinha ideia.

Os dois policiais a escoltaram à escola depois de sua mãe pagar um imenso mico de presentear os dois homens com bolo de banana, torradas e o que mais tivesse na gaveta ao lado da bancada da cozinha.

O que seria tudo aquilo? Ela não sabia. Sabia apenas que não seria presa, pelo menos, não ainda. Será que seria na escola na frente de todos? Se recordava de Slavik e Nain no primeiro ano. Eles falsificaram dois exames e foram presos na frente de toda a escola. Tentaram fugir, mas não conseguiram. Foram arrastados pelas escadas até o pátio, apanharam na frente de todos, e foram jogados no furgão para nunca mais serem vistos. Eles haviam impresso as falsificações com o emblema vítreo de ponta cabeça, para suas infelicidades.

Passando o portão da escola, ela avistou Rob com Amuro no bebedouro antes de entrar no prédio. Foi levada ao andar da administração com os dois policiais e se sentaram numa das três poltronas verde musgo. O diretor, barbudo e barrigudo, senhor Denver, chamou somente a garota e  pediu que ela fechasse a porta ao entrar.

- Sente-se - Disse o bom velhinho.

Kuro se sentia deslocada. Seria presa ou seriam mais um daqueles monólogos do diretor sobre não encontrar seu elo. Mas o homem começou a falar totalmente diferente, não que isso fosse o bastante para chamar a atenção da garota, que fingia prestar atenção, enquanto sua mente voava longe em altos picos da monguice. Somente parou tudo quando em meio as palavras da grossa voz do diretor, pronunciaram "Seu elo..." e "...ficou te esperando...".

Na mesma hora, Kuro passou a prestar a devida atenção, então Denver terminou de falar e a garota teve receio de perguntar o que ele havia dito depois de não prestar o mínimo de atenção no homem.

- Mandei entregar seu exame na sua sala, mas minha secretária disse que não te achou. Então deixou o envelope em sua mochila.

- Mochila? - A garota perguntou espantada.

Recordou, então, da noite anterior que, de tão triste, nem havia trocado o material para os livros de hoje. Pior, nem havia levado sua mochila com ela para a escola.

"Ai sua besta monga!" - Gritou em sua mente.

Até pensou em pedir outro resultado para o diretor, mas esses documentos sempre eram de via única. Os policiais a escoltaram para a sala e pediram que, o quanto antes, encontrasse seu par. A garota se sentou na carteira do fundo, se descabelando. A alegria de não ser presa sumia de tão nervosa que estava e, com todos os pedaços de informação que tinha pescado, ela notou que tinha alguém.

Mas quem?!

Essa era a pergunta que a fazia quase que esmagar sua cabeça com as mãos. De repente, sua mãe apareceu na porta da sala 3-B com seu almoço amarrado numa trouxinha.

- Você esqueceu sua comida. E... Ah! Sua mochila. - Os olhos de Kuro brilharam e ela deu um abraço na mãe, que logo foi embora.

Apressada e nervosa meteu as mãos entre os livros, pouco ligando para a aula de trigonometria que ocorria, e tirou o envelope ainda lacrado do exame.

Seria mesmo verdade? Ou podia ser piada de um professor. Mas depois de quatro anos como repetente, seria ali o fim? Ela tinha alguém?
                                ***

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