— Quinta-feira, Sônia. Pensei que fosse ficar na escola hoje. — O pai se levantou e foi lavar a louça na cozinha. — Peter entrou e já foi pro quarto, antes que pergun-
— Pai, sou eu. Eu voltei faz minutos.
— O Reginaldo deve vir a qualquer instante.
— Pai, já é de noite. Mas ainda é quinta-feira. O Reginaldo não vem.
— Não tinha ouvido direito, Peter. Seu pai já ultrapassou a...
— Juventude, eu sei. Alguém passou por aqui? Perguntando por mim? — Peter perguntou no objetivo de certificar se seu pai estava ouvindo agora. Se sim, não.
— Sim.
Não, ele não estava ouvindo.
— Quem? — Levou adiante a brincadeira.
— Uma garota.
— E o nome era...
— Amélia. Você já ouviu falar nela?
Aquilo provava que o pai estava escutando (na mesma intensidade que provava que este não conhecia o próprio filho). Nem era capaz de perceber que o garoto tinha ficado todo arrepiado só com a menção daquele nome, reconhecendo que havia um sim escondido de maneira insuficiente, mas o óbvio o levou a uma segunda pergunta e, veja só!, até tirou os olhos das noticias diárias e bateu um papo com um Peter desacreditado.
"Ok. Nos conhecemos faz meses. O semestre acabou, foi um semestre inteiro nos falando e matando aulas de matemática no paredão, mas ela sempre repetia que, passos adiante, não poderíamos revelar nada daquilo a ninguém, muito menos aos meus pais, e que deveríamos fingir não ter nenhum tipo de intimidade durante as aulas e dentro da escola... estratégia. Não podíamos levantar suspeitas. Do contrário, castigo pros dois. Vacilei e acabou que foi castigo só pra mim, já que ela é muito mais esperta do que eu, como sempre se gabou de ser. Me arrependo de ter ficado na defensiva.
Agora, ela parte pra desonrar as promessas uma por uma, ficando de conversa com meu pai e revelando a ele o que já é mais do que verdade: se mudou da cidade. Ou do bairro. Ou da rua. Ou da casa. Mas quem precisa de um caminhão daqueles e de uma família toda reunida, levando a mobília pra fora, se vai se mudar pra alguns quarteirões adiante? Tem que ser um lugar bem longe daqui, não que tenha mesmo que ser, só que fica mais simples de entender se for... Olha, Onédio, eu desisto, e essa parte eu sussurrei devagar, mesmo que meu pai estivesse na minha frente, assistindo a tudo boquiaberto. Não, eu não ia falar nada. Acontece que é impossível não fazer expressões diversas quando ouço o nome dela o tempo todo, e pra que esse negócio na espinha toda vez? Por Deus... Como ela sabe onde eu moro?"
Colocar a culpa no sistema nervoso central, cardiovascular ou até mesmo digestório (chegara da corrida com muita fome) não foi o único erro de Peter, àquela noite.
O que acontece quando perdemos alguém que gostamos muito, viramos de costas e percebemos que a pessoa se despediu até de pseudo-desconhecidos que vivem na nossa casa... e têm parentesco com a gente e nos contam as coisas exalando tédio e parece que tão sempre pedindo pra que a conversa termine e sem detalhes... sem nem fazer aquele tchau com a mão, e aí piscamos e tá lá? Olha lá. Suspenso no ar, o adeus. Não fazemos diferença. Talvez sejamos, nessa situação, quem de fato se importa tanto de deixar lembranças, mas se pudesse nem daria motivos pra isso, porque somos quem realmente vai carregar. Eu e Peter entendemos. Talvez porque eu o constitua... arrisca ser porque fui eu quem realmente viu o paredão de pedra onde ele fez tal pessoa tão especial, e o descascou com as unhas, e chorou um pouquinho no dia seguinte, com ele parecendo sombrio do jeito que sempre foi e Peter nunca conseguia enxergar, ao lado de Amélia. Nos enchemos de tristeza, dúvida, decepção. Tentamos arrancar o máximo da explicação que sobrou, encaixamos nas peças e começamos a criar justificativas suficientes, que funcionem de ponte à superação, impossíveis de considerar no planeta Terra: a primeira delas é que, se queremos explicações de alguém, ou seja, do parente em questão, existem requisitos a cumprir também. Logo, o principal a se fazer seria explicar primeiro o que vinha acontecendo nos últimos meses, sem arrancar risadinhas de incredulidade ou corar. Não era orgulho, que dirá medo. O menino das nuvens era corajoso. Contudo, sabia que, na primeira tentativa que fizesse de contar o porquê de ser tão apaixonado pelo céu, seu pai viraria a cara.
E, bem, falar dela era como falar do céu. P-o-r i-n-t-e-i-r-o.
Foi por isso que Peter guardou segredo durante quase quatro anos exatos, e foi por isso que, quando decidiu contar, não contou para o pai.
— Hm, a tal da Amélia tinha uns papéis e queria entregar a você. Você conhece mesmo?
— Conheço, pai. Só que confundi com uma outra menina, amiga da escola, e então fiquei lembrando uma por uma e por isso...
— Por isso essa cara de morto? — Primeiro Peter ficou com mais cara de viagem (ou morte) ainda, quase abandonando fisicamente a sala por completo. Na fração de segundo seguinte, começou a ficar paranoico até corar, tudo por causa daquele pensamento bobo de que os adultos têm a habilidade de ler mentes.
No final, só balançou a cabeça, indiferente.
— Na verdade, é fome. Não como há um tempão. O que tem na geladeira?
— Acho que você pode salvar um pedaço de pastel da janta de ontem. — E silêncio. Mas, se você já presenciou muitas cenas em que o silêncio preenche o espaço, saberá reconhecer que tipo de silêncio foi esse. A informação tinha deixado a desejar. — Só não sei se vai salvar o próprio pescoço quando sua mãe chegar, Peter.
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Todas as Nuvens e o Legista (e todos os Legistas nas Nuvens)
Short StoryEle escrevia, e ele era um legista enquanto escrevia: não enquanto descrito. Peter chamava de nuvens tudo aquilo que queria descobrir.
