Consciência

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— E aí — fez um gesto explosivo com a mão e deu saltinhos, andando impaciente de um lado para o outro do quarto não muito grande (mas também não muito pequeno) como se pudesse abrir corredores estreitos quando pisava sobre a parte vazia do chão, quer dizer, a descoberta por sujeiras-de-adolescentes-preguiçosos — ele achou que podia, é sério, jogar todas essas coisas na sua cara, quando tinha de lidar com a ida da menina!? Que absurdo, Peterson, que absurdo! Eu já disse que foi um...

Vinte vezes. Porque toda vez que eu reclamava de como ele costumava me tratar, Reginaldo fazia a mesma cara de "olha lá o que o moleque chama de problemas", e achava que eu era incapaz de decifrar esse aspecto de sua humilde consulta. A exclamação "que absurdo" foi irônica, apostei, e falaria mais quantas vezes até começar a ficar do lado do Alfredo? Ou era isso, ou um jogo.

Alfredo era meu pai. Tinha parado de chamá-lo por pai meses depois do ocorrido com o prato de queijo. Meses depois daquele prato de queijo derramado, eu era mais que uma criança de apenas onze anos. A história começou a mudar toda aí.

O primeiro foi que, bem, eu parei de dividir o meu eu de verdade como minha consciência e de pensar em terceira pessoa. Talvez isso mude o jeito como alguém de fora poderá, futuramente, entender o que houve com a minha vida quando aceitei que estava apaixonado por Amélia. E que ela não tinha deixado seu novo telefone, seu novo endereço, seu novo e-mail, seu nome completo... que não era novo. Saber que nem a Amélia por quem eu tinha me apaixonado deixara rastros para desvendar seus segredos tão banais acabava com a minha auto-estima. Mas alguém de qualquer idade tem este ponto em comum: carrega lembranças que não o fazem mudar cem por cento, nem dar a volta toda novamente até atingir os trezentos e sessenta graus... porque a gente carrega com a gente o que nos fez mudar, também. E nos incentiva a continuar mudando o que não nos agrada.

Não tive tempo de pensar que ela tinha sido fria comigo. Fiz uma centena de planos para encontrá-la, e não queria que passasse em branco. Minha vida não tinha mudado por causa de um paredão de pedra, de um par de olhos que refletiam a luz belíssima do sol, por um castigo, uma promessa ao céu. Bem, talvez tenha. Se minha vida tinha um nome antes dela ir embora, era Logo. Depois dela, era Breve.

Amélia termina com ia, ela ia. Eu também ia. Mas eu ia outra coisa: eu ia perdê-la. E esse era o meu maior medo, que terminava com o, de Onédio.

***

Peter acabara de colocar a mochila ao pé da cadeira e de abri-la, retirando o livro de filosofia, quando Douglas esbarrou nele, todo desastrado, e fez com que seu lápis recém-apontado caísse de "ponta" no chão. Mas isso não foi o primeiro incidente revoltante da manhã. Depois de remexer a bunda na carteira e perceber que ficar sentado naquela posição, ao lado da parede, doía demais pra que ele passasse mais de quarenta minutos ainda suportando a dor, se deu conta de que já não cabia mais nenhuma letrinha no espaço de anotações que usava pra fazer desenhos bizarros e se distrair da aula de filosofia, toda sexta-feira.

Prestou atenção, não vendo outra saída. Pelos primeiros 5 minutos, o que teria absorvido da aula seria:

"Bom dia, classe. Agora, respondam à seguinte pergunta: 'De que você seria feito, se pudesse escolher?' Boa sorte."

Mas, naquele caso decepcionante, foi tudo. Toda a tagarelice, do início ao fim, cheia de embromação usada na justificativa aos mais de quarenta minutos que passaria com a bunda dolorida:

"Fechem o livro de filosofia. Alunos antigos sabem que questionários são muito importantes na busca de uma inserção no mercado de trabalho, não sabem, alunos antigos? Sim, sabem, mesmo se negarem, porque acabei de inventar e quero que todos digam que sabem e que esse é o motivo do questionário. É importante se contradizerem o tempo inteiro no questionário, claro. Me deem o máximo de incoerência que tiverem guardado no peito, em palavras, em filosofia, no grau do que vocês entendem da matéria, na resposta de uma simples pergunta: 'Afinal, de que você seria feito, se pudesse escolher?' Tudo, menos algo humano, por favor. E não aceito um 'eu não teria escolha' como resposta, ouviram? Único critério. É resposta respondida ou nenhuma resposta. Se perdem ponto? Óbvio que não, se nem faz sentido. Mas é por meio dessa resposta que vocês protestarão e terão a chance de enfrentar as autoridades pela primeira vez, no pleno direito de aluno. Antigo ou não. Era só a força de convencimento mais usada por um professor experiente. Mão na massa."

Não, não era bem isso, não na realidade. Acontece que, ainda que estivesse todo a ouvidos, atento, preparado, com uma postura que não era dele, o menino das nuvens tinha o dom de absorver só o que queria. Ou, pelo menos, de transfigurar as coisas até que elas parecessem aceitáveis e divertidas o bastante, e também começassem a ficar interessantes.

Mas a proposta era a mesma nos dois mundos: dizer do que você seria feito se tivesse capacidade de escolher, antes de já ter sido.

Peter fechou os olhos. Amélia, vestindo-se como vestia-se anos atrás, mas já um pouco mais alta do que na época em que se encontravam, parou na sua frente.

― Não... é bem simples. Você que dificulta.

― Não sou matemática.

― Viu. Agora você tá pegando. Se você fosse matemática, seria feito de um monte de coisas inúteis. Símbolos. Essas coisas, sacou?

― E você acha mesmo que eu deixaria que me fizessem matemática? Primeiro, eu teria a chance de nem existir, se não chegassem a me estudar. Segundo, desde que me estudassem, os caras lá conheceriam os mais profundos segredos sobre mim.

― Por isso é que a pergunta questiona também a SUA escolha.

― Questiona?

― Burro.

― Por que não me chama pelo nome, Amélia?

Ela virou de costas. Distraiu-se com um avião a pleno voo no céu. E Peter estava apaixonado, claro.

― Eu iria decidir ser algo bem mais simples que matemática. Pra que qualquer um pudesse me entender, mas não desvendar meus segredos íntimos.

― E se você escolhesse ser algo sem segredos?

― Aí eu seria visto exatamente assim.

― Assim...?

― Do jeito que você me vê. 

Todas as Nuvens e o Legista (e todos os Legistas nas Nuvens)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora