Capítulo 2- O Velho Escritório

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Outono, gosto muito dessa estação, o vento selvagem arranca as folhas amareladas sem piedade de seus galhos, deixando-os nus, obtenho prazer em acompanhar durante três meses o lindo processo da natureza, descolorindo e ressecando suas folhas até a chegada de ventos mais fortes e destemidos, e tudo está sendo apenas preparado para o grande e rigoroso inverno. O dia está nublado então não consigo distinguir que horas exatamente são, sei que ainda é muito cedo e uma brisa gelada entra pelo vão da porta, estou a ponto de ir acordar aquele preguiçoso, preciso sair daqui de dentro, tenho que procurar pelos corvos, tem uma nova missão para eles. Estava passando pelos corredores quando decido entrar em uma das portas, talvez eu seja muito curioso, me pendurei à maçaneta que abriu um pouco da grande porta de madeira, tentei empurrar a todo custo, a porta havia emperrado, demorou apenas mais uns minutos para perceber que eu conseguia passar pela porta entreaberta, afinal eu sou um gato!

O velho escritório cheirava a mofo e poeira, havia uma grande mesa no centro próxima a janela, uma cadeira de couro e duas estantes lotadas de livros deixando o local menor do que realmente era, subi em uma das estantes lendo os títulos dos livros, eram livros antigos as páginas estavam amareladas e desbotadas, acredito que alguns sejam do século XIII, um livro estranho com título em latim chamou minha atenção, o abri com a intenção de traduzi-lo, a poeira chegou á minhas narinas me fazendo recuar e espirar, dei mais um espirro perdendo o equilíbrio caindo em direção ao chão, eu teria aterrissado graciosamente se uma mão não tivesse me impedido, percebi que era Niall, me levando para fora e encostando a porta. Ele seguiu para a cozinha onde começou a cozinhar seu café da manhã. Fiquei observando da bancada onde ele tinha me deixado. Ele se virou e quase como se estivesse lendo meus questionários mentais esclareceu.

-Desculpa gatinho, aquele era o escritório do meu pai, está um pouco sujo, pois não gosto de entrar lá... Como entrou?

Ele jogou a pergunta no ar, se questionando se teria deixado a porta aberta, ele não estava se referindo a mim, óbvio eu sou um gato... Às vezes esqueço-me disso. Esperei ele terminar de por a mesa para pular em cima da mesma e bater a pata no bacon para avisá-lo que iria me alimentar, pensei que ele iria me espantar da mesa, porém ele simplesmente deu de ombros passando geléia de morango em uma torrada e levando-a para boca, mastiguei o bacon devagar tentando ao máximo aproveitar a sensação de me alimentar de algo tão familiar depois de tantos meses, Clarice tinha colesterol alto e não fazia muitas coisas gordurosas, que eu amo. Devo continuar uma eterna criança, já que não envelheço, minha maturidade para algumas coisas pode ter ampliado, mas sempre vou continuar uma criança que se lambuza inteira ao tomar sorvete de chocolate.

A manhã se seguia mais fria do que o comum mesmo debaixo de todo o pêlo que possuo continuo sentindo frio, me enrolei junto aos cobertores de Niall enquanto ele assistia a um programa na televisão e tomava chocolate quente, me pergunto se esse garoto não estuda ou trabalha... Sinceramente não achei nenhum vestígio de livros ou algo relacionado a isso pela casa, eu queria voltar para aquele escritório, eu poderia fazer algo de interessante, já que com esse frio Niall não ameaçou sair de casa nem mesmo uma vez.

Me sinto preso aqui, sem liberdade para fugir, escalar minhas árvores e ficar empoleirado por lá, observando o tempo fugir de minhas garras e seguir seu incansável ciclo.

Sempre quis quebrar aquele ciclo da monarquia, acreditava que deveríamos escolher com quem casar se queríamos ou não governar um país, mas meus pais achavam isso ridículo, meu pai uma vez até me disse que não era importante existir amor, por isso que eu queria mudar, depois de ler diversos romances e assistir às peças românticas eu tinha certeza que o amor era essencial para a vida e estava propício a fazer qualquer coisa para quebrar esse ciclo, e eu consegui, não precisei me casar, não precisei conviver com pessoas durante anos, por isso que não carrego vingança, eu só recebi o que pedi, e de alguma forma isso veio, apenas não da maneira que eu queria ou esperava. Por isso que sempre achei o destino algo que não está em nosso controle, pois se estivesse eu não viveria assim, se é que posso dizer que estou vivendo.

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