Olharam-se como se estivessem num sonho, ou talvez pesadelo pra Heloísa. Felipe era moreno e tinha os cabelos lisos e escuros, não era muito alto, um pouco mais que Heloísa Sempre teve um corpo bonito, os olhos expressivos negros como os cabelos. Costumava dizer que não era bonito, mas tinha charme e sabia muito bem usá-lo.
- Quanto tempo? – Felipe perguntou.
- Pois é... – Heloísa queria sair correndo dali ao mesmo tempo em que queria mostrar tudo que tinha conquistado na vida e esfregar na cara dele.
- Te vi na televisão, você está morando no Rio agora?
“Agora?!” – pensou a chef.
- Moro aqui há anos, depois que saí de casa.
- Está sozinha? Por que não vamos jantar colocamos o papo em dia?
Heloísa teve vontade de dar um soco na cara dele, depois de anos, de tudo que ele havia feito a ela, agora queria colocar o papo em dia. Era muita cara de pau.
- Não posso, estou ocupada, só vim comprar um remédio.
- Se sente mal, o que aconteceu? – o homem tocou o braço dela tentando ser gentil.
Heloísa se esquivou num gesto brusco e fechou o cenho.
- Não encosta em mim. Me dá licença, preciso ir, Felipe.
Pagou o remédio e saiu sem pegar o troco. Entrou no prédio ainda tendo o cuidado para que a outra não a visse, não queria ninguém atrás incomodando. Seu coração disparou e suas mãos estavam trêmulas. Sabia que se um dia visse seu ex namorado se sentiria assim. Respirou fundo e aos poucos foi voltando ao normal. Não queria entrar no apartamento daquele jeito. Samantha ia perceber logo de cara. Antes de subir pro quarto lavou o rosto no lavabo. Quando entrou, viu a morena deitada de lado, abraçada num travesseiro. Colocou a mão na testa dela e percebeu que estava bem quente.
- Ei linda, trouxe o remédio. – entregou o copo com água e um comprimido. – Comprei um termômetro, não sabia se você tinha. – deu a ela pra medir a temperatura.
Samantha já estava visivelmente abatida. Heloísa ficou penalizada e de certa forma se sentia culpada, afinal ela estava assim por conta de um pneu furado.
- Tá vendo, por causa de um pneu você ficou assim.
- Poderia ser por qualquer coisa, não deixaria você na mão.
- Se tivéssemos chamado o seguro, você não estava gripada.
- É bom que assim eu ganho colo. – fez um bico pra dramatizar.
- Ah, você ganha colo sempre.
Heloísa se ajeitou na cama e fez Samantha deitar com a cabeça em seu peito. Instantes depois tirou o termômetro e realmente ela estava com muita febre.
- Até que a febre ta alta viu? Está com trinta e nove. O remédio vai ajudar. Está sentindo mais alguma coisa? Quer que eu faça algo pra você comer? Não quis comer o pão.
- Não, sinto só dor no corpo mesmo. Eu quero só colo, isso vai me fazer bem. – falou fechando os olhos e abraçando a chef.
Heloísa beijou o topo da cabeça dela e ficou fazendo carinho em suas costas até que Samantha acabou dormindo. Ficou pensando no encontro com Felipe, qual seria a chance de encontrar com ele de novo? Não sabia se torcia pra isso acontecer ou se rezava pra não vê-lo outra vez. O sentimento de vingança que tinha no coração havia diminuído depois que encontrara Samantha. Antes, quando estava só, nenhum dia se passava sem que ela se lembrasse do ex, com ódio, rancor, sentimentos ruins misturados numa vontade de esfregar toda sua trajetória na cara dele. Nem se deu conta de que tudo isso havia dado lugar para o amor. Olhou pelo vidro da porta, a chuva tinha diminuído e agora caía uma garoa, que esfriou ainda mais o tempo. Dormiu abraçada a ela, num sono tranquilo, seguro e era muito bom.
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Medida Certa (Limantha)
RomanceO coração de Heloísa tem barreiras que o protegem de todos que tentam chegar a ele, porém ela não esperava encontrar Samantha no meio do caminho.
