Capítulo 2

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Na semana seguinte, durante o serviço, chamei-o no Whatsapp. Não tinha muitas esperanças de que ele respondesse, rapazes como ele raramente o faziam. No entanto, fui surpreendido com uma mensagem poucos minutos depois da minha.

— Qnd(sic) vamos nos ver de novo? — ele perguntou.

Tendo pago o motel sozinho no nosso último encontro — e algumas cervejas antes disso — consultei minha carteira antes de dar uma resposta. Nela, alguns papagaios e duas onças me disseram que estava tudo bem. Por incrível que pareça, cheguei a me sentir culpado pela consulta. Ele nunca me pediu para pagar o que quer que fosse. Era eu quem estava acostumado a simplesmente pagar por tudo em um encontro.

Como resultado da culpa, minhas próximas mensagens foram exageradamente educadas, enquanto as de Vítor, cheias de siglas e gírias, me fizeram sentir o peso de minha idade. Quando, afinal, chegamos à um acordo: — sexta-feira! — reparei que a estagiária da editora me observava pelo canto do olho enquanto digitava no celular e soltava umas risadinhas irritantes. Isso, por algum motivo, era extremamente incômodo. Perguntei-me onde é que ela estudava. Não consegui lembrar. Por fim, acabei me repreendendo uma vez mais pela paranoia e voltei ao trabalho.

Naquele mesmo dia, disse à Marta que iria para Teresópolis passar o fim de semana com meus pais. Por morarmos longe, minha mãe estava sempre procurando por defeitos na casa onde mora com meu pai, que em sua idade, já não podia dar jeito em todas as irregularidades encontradas por ela. Tudo isso, obviamente, com a razão de me obrigar a ir visitá-los. Conhecendo esses artifícios de Dona Maria, minha esposa não iria querer fazer a visita. Para falar a verdade, as duas nunca se deram bem. Era a desculpa perfeita.

Na sexta, saí mais cedo do trabalho e fui para casa. Antes de ir ao encontro com Vítor, decidi depilar o tapete em meu peito na esperança de que algum vestígio de tônus muscular pudesse ser visto sob ele. Também tingi os cabelos grisalhos em minhas têmporas com o resto de tintura que encontrei na bagunça que minha esposa fazia embaixo da pia e desencavei um jeans em meu armário que já não me servia mais. Por um lado, a calça me apertava as pernas, mas vestia como as que eu o vira usar na Lapa. Me olhei no espelho e me senti bem com o que vi. Me senti mais jovem. Tão cedo entrei no carro, esse sentimento se alterou por completo.

— Gente da minha idade não deveria se vestir assim — pensei.

— Tá arrumado, hein! — Ele me falou quando finalmente nos encontramos. Estávamos de volta à Lapa e caminhávamos em direção ao armazém.

— Você está mentindo!

— Nunca! — disse ele convicto. — Se falei é verdade. Se bem que só ando fazendo isso.

— Isso o quê?

— Falar.

— Por que falando isso? — lhe perguntei já sabendo que aí vinha história e já quase me arrependendo.

— Lembra quando falei que era estagiário de um escritório de advogados?— Ele continuou antes que eu pudesse responder. — Eu menti. Eu larguei eles tem quase um mês e nao consegui achar mais nada. vivendo de bico. foda!

— Mas você que largou?

— É.

— Mas por que você fez isso? — lhe perguntei. — Não gostava de lá?

Pra ser sincero? — cortou novamente. — Não. Só fiz direito por pressão mesmo. O que eu gosto é escrever. com um livro que ando escrevendo desde que saí da escola. Todo dia dou um jeito nele. Mas aí é sonho sabe? Não sei de nada desse mundo. Não sei como que acha editora, queria fazer uma capa e me fodi no Photoshop, nem sei te dizer se o troço bem escrito se quer saber...

— Eu sou capista. — era minha vez de cortar.

— Oi? — perguntou enquanto eu me sentia como se tivesse vencido algum jogo que, até então, eu não sabia que jogava.

— Eu sou capista. — lhe disse como quem conta boas novas. — Me manda teu original que eu te faço uma capa, pô. Talvez até consiga algum editor para fazer uma leitura crítica sem te custar nada.

— Tá falando sério?

— Claro, pô. — confirmei. — Não vai me custar nada.

Uma vez na frente do armazém onde nos encontramos da última vez, reparei que ele seguiu andando. Me senti ansioso com a possibilidade de que ele iria para algum bar mais caro beber meus cento e pouquinhos suados. Eu não podia estar mais errado. Ele se voltou para um segurança em frente à um prédio velho com portões pichados, deu-lhe dois tapas no ombro e entrou em uma balada da qual eu nunca tinha ouvido falar antes. Não que isso fosse grande coisa. Fazia tempo que eu não estava por dentro das festas mais badaladas da noite carioca. Ou de qualquer noite, na verdade.

Poucas horas depois e uma onça a menos, o convenci a sair dali. Era mais que claro que ele estava decepcionado por não poder virar a noite bebendo Vodka com energético e pulando ao som de Rocket Number 9 música da qual eu nunca tinha ouvido falar. Porém, ele reparou que eu estava no meu limite e concordou em ir para o nosso motel.

Chegando lá, ele se ofereceu a pagar pelo quarto, mas eu me meti em sua frente e entreguei o dinheiro ao recepcionista antes que ele sequer tirasse a carteira do bolso. Não conseguimos o mesmo quarto da outra vez como eu queria, mas ele parecia satisfeito com a chave de número 22 em suas mãos.

Dessa vez, o sexo não foi tão bom quanto eu estava esperando durante toda a semana. Eu estava cansado demais. Minhas pernas estavam doloridas após tanto tempo em pé naquela maldita boate. Eu não conseguia acompanhá-lo em suas peripécias e invenções sexuais. Alias, me sentía ridículo tentando. Era como transar em público. Como se eu estivesse gravando algum filme pornô e minha reputação dependesse de minha performance.

Essa noite, no entanto, eu pude passar toda com ele. E ali, naquele motelzinho pé de chinelo — onde o ar-condicionado gritava mais que nossos vizinhos de quarto — ele dormiu em meus braços. Aquilo me fez lembrar minha primeira noite com minha esposa. Não. Aquilo me fez lembrar de quem eu era quando fodi pela primeira vez com Marta.

— Boa noite, rapaz.

— Boa noite, Carlos.

Rapaz da LapaOnde histórias criam vida. Descubra agora