Capítulo 4

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Levei quase um mês inteiro de madrugadas insones trabalhando no livro de Vítor até que eu me sentisse seguro o bastante para entregá-lo para Marcos, um dos editores que trabalhavam comigo. O texto estava quase irreconhecível. Tive pena do meu garoto. Não sabia como contar para ele que seu texto precisou de mudanças drásticas. Decidi que não mencionaria isso para ele até que eu tivesse uma resposta do Marcos. Quando isso acontecesse, colocaria as edições na conta do meu colega.

Durante esse tempo, eu tinha começado a me exercitar. Corria todo dia de manhã na esteira que minha mulher uma vez comprou e nunca mais tirou do seu infame quartinho da bagunça. Também malhava às tardes, no meu intervalo para o almoço, em uma academia próxima ao serviço. Vítor nunca chegou a reparar a mudança em minha aparência, mas Marta comentou que minha barriga havia diminuído. Ainda assim, já me sentia mais seguro ao me despir na frente dele.

Algumas situações, no entanto, ainda me deixavam inseguro com minha idade. Em certa ocasião, coloquei a versão de Diana Krall da canção "I'm not in love". Antes mesmo da música chegar no refrão, ele me pediu para trocá-la e colocou qualquer coisa de uns tais de Cigarrets After Sex.

— Confia em mim — ele disse. — Você vai gostar deles.

A canção era deprimente, mas eu a deixei tocar por inteiro antes de pedí-lo para colocar alguma MPB, um dos poucos gêneros que nós dois gostávamos. Ele demorou a escolher uma música, mas acabou se decidindo por "You don't know me" do Caetano — mesmo que, segundo ele, não fosse uma das melhores do cantor.

Vítor estava ansioso por notícias do seu livro. Tentei acalmá-lo lhe dizendo que era assim mesmo, que editores têm muitos livros para ler e coisas desse tipo. Não funcionou. Ele acabou me pedindo para ligar, ali mesmo, para o editor e perguntar se ele já tinha alguma resposta sobre o original. Eu estava irritado com a demanda. Não gostava de usar o telefone dirigindo e, ainda por cima, havia o risco que eu corria de falar de Vítor para o meu colega de trabalho.

— Carlos, — ele disse com aquela expressão que ele sabia o efeito que tinha em mim. — Por favor.

Acabei ligando. Por sorte, o editor já tinha terminado de ler e estava feliz com o texto. Eu também estava feliz. Aliviado, na verdade. Finalmente iria poder conversar com Vítor sobre outra coisa que não fosse o maldito livro. Marcos me pediu o contato dele e disse que gostaria de marcar uma reunião para discutir contrato, publicação e etc..

— O garoto tem talento, Beto. — ele me disse pelo telefone. — De onde que você tirou esse moleque?

Eu desliguei o telefone torcendo para que Marcos acreditasse que a ligação tinha caído e contei as boas novas para o rapaz que balançava as pernas compulsivamente ao meu lado. Eu era o herói de novo. Era bom que ele fosse grato por isso. E ele foi. Ali mesmo, no carro, ele abriu o zíper de minha calça e engoliu o que encontrou por todo o caminho até o nosso bar.

Na semana seguinte, quando cheguei na editora, a estagiária me olhou como quem vê um fantasma. Ela tentou disfarçar com seu "bom dia, sr. Roberto", mas não funcionou. Fui até minha sala e, ao me sentar, vi Vítor sair da sala de reuniões com Marcos logo atrás dele. Os dois pareciam satisfeitos. Apresentavam seus respectivos sorrisinhos profissionais e trocaram um aperto de mão respeitável.

Encarei Vítor por alguns segundos tentando fazê-lo reparar em minha presença. Quando ele finalmente me viu, sorriu em minha direção e pude ouví-lo perguntando ao meu colega onde ficava o banheiro. Alguns minutos depois de ele entrar, fui atrás dele. Tentei observar se ninguém reparava em nosso pequeno esquema e todos, tirando a estagiária, estavam ocupados com seus próprios afazeres.

— Ela que se foda. — pensei. — Garota estranha do caralho!

Vítor se olhava no espelho quando entrei. Ele parecia orgulhoso de si mesmo enquanto prendia seu cabelo no coque com o qual o conheci. Ele estava especialmente bonito naquele dia. A camisa de botão branca com os óculos escuros pendurados no bolso do lado esquerdo do peito, o jeans azul justo às pernas, a bota de salto baixo. Ele não se parecia com o rapaz inseguro que eu conhecia. Parecia adulto e com a vida no lugar. Eu também estava orgulhoso de mim mesmo e observava feliz meu efeito nele.

Eu me aproximei do meu garoto e o abracei por trás, o envolvendo pela cintura com meus braços. Ele sorriu para mim e me deu um selinho rápido em minha boca. Havia algo de curioso em seus olhos. Era como se eu estivesse deixando algo passar.

— Como foi a reunião, rapaz? — sussurrei em seu ouvido.

— Muito boa! — ele disse ao se desvencilhar de mim. — Ficou acertado que vou ganhar 30% de cada livro físico vendido e quase 90% do digital. Mas isso foi você, Roberto. Devo tudo isso à você.

— Parabéns, garoto! — comemorei. — orgulhoso de você.

Ele não disse nada em resposta por um bom tempo. Ao invés disso, olhou para mim como se estivesse surpreso com alguma coisa.

— Não dá pra acreditar em você, Beto. — ele disse enfatizando o "Beto". Só então percebi que ele usava meu nome verdadeiro.

— Não fica puto com isso. — falei ansioso quase me esquecendo de onde estava e elevando minha voz. — Eu não te conhecia ainda e você sabe que sou casado. Eu devia ter te falado antes, eu sei. Mas tive medo da sua reação e...

— Você ainda não entendeu. — ele me cortou enquanto saía do banheiro. — Mas não tem nada, não. Você vai entender.

— Valeu mesmo, Bia — ele disse à estagiária ao sair do banheiro, dando-lhe um beijo na bochecha enquanto ela me encarava com seu rosto vermelho de vergonha. — Deu tudo certo ali na reunião. Hoje, quando a gente for comemorar, eu te conto os detalhes. vai, ? Vai ser ali no Bar da Cachaça. O Paulinho também vai e deve levar o namorado novo pra gente conhecer.

— Vou. — respondeu Bia com a voz trêmula sem tirar os olhos esbugalhados de cima de mim.

Quando cheguei em casa naquela noite, eu ainda tentava compreender o que caralhos tinha acontecido na editora. Nem eu sabia o nome da estagiária. Ela entrava calada e saía muda do serviço. Como foi que ele fez para criar intimidade o suficiente para já estar chamando ela pelo apelido? Só então lembrei de Marcos me contando no primeiro dia da tal da Bia que ela estudava na UFRJ.

— Filho da puta! — desabafei alto demais. — Filhos da puta!

— Roberto? — escutei Marta chamando com a voz severa. — Vem aqui por favor!

Quando entrei no quarto reparei no rosto inchado de Marta. Ela parecia ter passado o dia todo chorando. Mesmo antes de ela me entregar o celular, eu já sabia o que tinha por vir.

— Você pode me explicar isso?

No celular rolava o maldito vídeo. Nele, era possível me ver, em uma posição digna de um contorcionista, sendo comido por um Vítor com a cabeça cortada para fora do quadro.

— A bicha te usou, Carlos — ela disse com a calma de quem acaba de ter a sua vingança. — Ele conseguiu o livro dele e te fodeu. Nem sei porque tô xingando o viadinho. Ele teve mais consideração comigo do que você depois de todos esses anos. São vinte anos, Beto. Vinte anos! A gente vai se divorciar e eu quero a casa. E o carro! E nem tenta brigar por eles não. Esse pornô nojento aqui é prova suficiente de que eu tô no meu direito. E antes que eu me esqueça: vai se foder!  

Rapaz da LapaOnde histórias criam vida. Descubra agora