Iduna peregrinou durante horas, as pernas literalmente desgastadas de cansaço. A degradação física e emocional havia dominado seu corpo, e por consequência ela havia repousado suas costas em uma árvore e tentado se agarrar ao sono, ainda que isso tivesse se tornado uma tarefa árdua.
Depois de tudo ela ainda chorava a morte de Valgrind como se tivesse acabado de acontecer. Sentia-se a pior pessoa do mundo, uma assassina sem coração. Certamente ela se culparia o resto da vida pela morte do elfo, por simplesmente não o ter socorrido quando tanto precisou.
Mesmo assim, Iduna conseguiu dormir por algum tempo, e na manhã seguinte foi acordada por uma linha de luz que se projetava sobre seus olhos.
Levantou e continuou a caminhar, ainda à procura de abrigo. Caminhou durante toda a manhã e antes que o meio-dia se instalasse chegou a um vilarejo de poucas casas.
Os habitantes do vilarejo olhavam para Iduna como se ela fosse um estrapilho, uma mendiga. Mas eles até poderiam pensar isso dela, afinal, Iduna estava amarrotada, as roupas sujas e o cabelo desalinhado.
Ela vagueava nas ruas do povoado aonde chegou como uma louca, as pernas trêmulas como as de um bêbado. Ela precisava urgentemente de abrigo, precisava que alguém lhe estendesse as mãos encarecidas num simples e verdadeiro gesto de ajuda.
Mas ninguém queria ajudá-la, ninguém queria levá-la para casa, dar-lhe um bom banho e por fim alimentá-la. As pessoas que ali habitavam pareciam um bando de abutres, incapazes de ajudar alguém que necessitasse de cuidados humanos. Afinal, Iduna era uma estranha para aquele povo, uma desconhecida que ninguém sabia para qual finalidade havia aparecido. E quem, em sã consciência, teria a generosidade de ajudar alguém como ela, entregue ao próprio destino, à própria sorte?
Isso certamente era evidenciado nos olhares dos habitantes do povoado, pois com certeza seria sorte de Iduna encontrar alguém que a tirasse da situação em que estava.
Ainda perambulava feito uma louca estrapilha pelos becos do vilarejo, quando sentiu gotas de água tocar sua pele.
Olhou para o alto e vislumbrou algumas nuvens carregadas se movimentarem no céu rapidamente. Ouviu também trovões explodirem no céu como bombas de guerra, e logo uma chuva forte desabou sobre o povoado.
Ela correu imediatamente para debaixo do beiral de uma cabana tentando se proteger da chuva, mas o forte vento carregava uma fina camada de água até ela, e isso a deixou totalmente molhada.
Iduna estava desalojada, abandonada no meio do tempo.
E nem ao menos estava preocupada com sua situação.
Não se importava nem um pouco com a ideia de que talvez passasse o resto dos dias vagando por aí, como uma peregrina, uma andarilha das terras antigas.
Queria de fato, mesmo que por consequência do momento turbulento que estava vivendo, adquirir com certeza uma doença que a levasse daquela vida que sempre armou umas e outras para ela.
Mas como se tudo conspirasse a seu favor, surgiu, entre todos, uma senhora que a tirou da chuva, levando-a para a casa simples onde morava. Lá, a misteriosa mulher deu roupas secas para que Iduna vestisse, e em seguida alimento-a com um saboroso caldo quente.
Cansada e evidentemente abalada pela morte brutal de Valgrind, Iduna deitou-se numa cama confortável e dormiu como uma pedra, a noite inteira.
***
Acordou na manhã seguinte sem se lembrar de quase nada. A cabeça doía e seu corpo estava pesado, dormente demais. Tinha vagas lembranças do que realmente acontecera nos dias anteriores, e quando ela rolou para a borda esquerda da cama, viu a senhora que lhe ajudara deitada numa cama à frente da sua.
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Fronteiras do Mundo Antigo: Caçado
FantasiaA notícia de que a mãe de Kobalde deverá se entregar a Lorde Balder não poderia ter sido... pior. Ele presencia um feroz ataque a sua província, orquestrado por Balder, e a partir daí precisará encontrar uma maneira de impedir que esse desconhecido...