A Foto No Espelho

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Sempre sonhei em ter fama, ser conhecida.
Na escola eu era a mais falada.
Não tinha fama como boa aluna, mas sim a menina que mais saia com os garotos mais velhos.
Nunca pensei em namorar e casar, de fato isso nunca foi minha realidade.
Minha avó, viveu na década de 30.
Escrevia manuscritos com ervas e ungüentos.
Minha mãe sempre falando as coisas que ela resolvia com facilidade com chás, e rezas.
Sempre nas férias, as odiosas férias em família. Longe da cidade e longe de tudo que era legal na época.
Aquela velha casa de fazenda, estava na família a muitas gerações. Haviam fotos espalhadas por todos os lados.
Sempre odiei aqueles quadros.
Pessoas com as feições carrancudas, parecia que seus olhos seguiam cada movimento.
Desde pequena queria muito conhecer minha avó, saber como ela foi e as coisas que ela aprendeu. Tudo que eu ouvia era sempre o não da minha mãe.
O quarto dela permanecia trancado não sei por quantos anos, mas claro que logo assim que ela deixou essa vida.
A noite eu dormia no quarto ao lado. Sempre escutava algo arrastar, gente andando e falando.
Com o tempo parei de falar as coisas que via e ouvia nesta casa.
Ninguém acreditava em uma só palavra.
A foto da minha avó na sala ao lado de meu avô, eu sempre achei que eles mudavam de posição ou até mesmo as roupas.
Estava cansada de ficar ali. Sempre vínhamos aqui passar férias, finais de semana e feriados.
Resolvi mudar isso, andar e conhecer tudo.
Quase no fim das terras perto da cerca, tinha um pequeno quarto, como se fosse onde guardavam ferramentas. Nos anos passados está fazendo vendia muito gado.
Meu avô fazia o abate, mas meu pai achou melhor demolir o local.
Ele mesmo tinha más recordações. Ele foi forçado a aprender como matar os bois, limpar e separar suas partes.
Perto deste local ainda tem um pequeno lago escuro, a vegetação a sua volta é sempre queimada e seca. Era para onde escoava o sangue após a matança.
Entrei no pequeno barracão, havia poeira de décadas, quase caí de susto quando notei um homem de pé a minha esquerda, perto de uma mesa cheia de facões, por sorte era só o velho espantalho.
Um terrível cheiro de podre tomava conta do lugar, o espantalho tinha as roupas sujas, aparentemente molhadas.
Não era nem de longe parecido com outros bonecos de colheitas, ele tinha um ar espantoso e cruel. Garimpei bem todo o local, parecia estar sendo vigiada, sentia um frio na nuca e a pele arrepiar sempre que olhava pro canto próximo ao mulambo de pé naquela mesa.
Evitei o máximo que pude em ir até o espantalho.
Perto de seus pés vi uma caixa de madeira, com a tampa esculpida. Poderia ser de minha avó.
Fui até a caixa, notei que quanto mais perto chegava mais forte era a sensação de ter outra pessoa comigo.
As roupas estavam sujas de sangue. Ossos amarrados na haste que o prendia.
Fiquei paralisada, meu corpo todo tremia, um pavor se apoderava, meu coração batia na garganta, estendi a mão para afastar as roupas, saber o que existia por baixo dos trapos sujos. Ao abrir a camisa notei restos de um tronco em decomposição, os ossos amarrados eram as costelas que se soltavam. Peguei a caixa o mais rápido que pudia e sai correndo com as mãos suas de sangue, perto da porta quando estava quase saindo ouvi um baque, alguma coisa pesada tinha caído fazendo as paredes de madeira tremer. Olhei para trás e não vi o espantalho, deixei que um terrível grito abafado saísse, passei pela porta como um raio e cai logo nos primeiros paços.
Alguma coisa puxou meu pé, minha calça estava rasgada logo a cima do tornozelo.
Me afastei olhando o barracão, não deixei que saísse do campo de visão, até estar perto da casa novamente.
Fui direto para meu quarto abrir a caixa. Minhas estavam limpas, minha calça está normal e limpa.
Por um minuto achei estar sonhando tudo aquilo. Mas estava com a caixa.
Minha mãe me chamou, pediu que fosse ajudar com a mesa pro almoço.
Escondi em baixo da cama sem que me minha pudesse ver.
Voltei correndo depois do almoço. Fui logo buscar a caixa, sentei e curvei o corpo esticando a mão por baixo da cama.
Alguma coisa estava perto da caixa, segurando ela. Estava pesada.
Não tinha mais a mesma aparência, uma madeira escura, arranhada e suja, algumas pedras enfeitavam as laterais.
Ao abri-la uma estranha movimentação ao lado, alguém andava de um lado para o outro, alguém estava nervoso.
Então encontrei uma velha chave, um pedaço de tecido com fios de cabelo dentro, um anel retorcido preso a uma pulseira, alguns pingentes enrolados com um barbante e um pequeno livreto.
Não mexi em nada. Peguei o pequeno livro, escrito a mão.
Muito havia se apagado pelo tempo. Na capa final estava escrito assim.
Não tire de perto aquilo que não quer perto de você.
Logo pensei no espantalho, estava lá perto dele, depois ele sumiu.
A chave de certo era do quarto de minha avó.
Quando todos foram dormir, tentei abrir a porta sem fazer barulho.
As janelas tinham sido trancadas com madeira. Tudo parecia ter sido deixado do mesmo jeito que minha avó viu pela última vez.
Uma cômoda com espelho perto da cama com suas cortinas longas e sujas, o quarto estava fedendo a mofo. O espelho não dava pra ver nem sombra.
Notei que alguma coisa estava presa no espelho, uma pequena foto.
Minha avó e outro homem, não era meu avô, mas notei as roupas parecidas ou limpas na foto em preto e branco.
Eram as roupas do espantalho.
Abri as gavetas, o armário no fundo do quarto e não achei nada em especial.
Estava deixando tudo no lugar antes de sair, quando a porta bate fazendo as vidraças balançarem.
Sabia que depois daquilo eu estava terrivelmente ferrada.
Um vulto estava parado do lado da porta, o mesmo odor do quarto de ferramentas. O vulto parecia estar se movendo em câmera lenta. Minha garganta estava travada, alguma coisa fechava e me deixava sem respiração, meus olhos ardiam mau podia deixá-los abertos, estava suando, sentia as mãos pingando.
Aquile cheiro horrível de coisa podre. As moscas pousavam em meu rosto. Sentia como se pedaços fossem arrancados, estava caída sem poder me mover.
Sentia como se algo andasse dentro do meu rosto. Passava as mãos pelo corpo e sentia pequenos caroços. Logo senti uma dor insuportável, meu corpo se movia sem que eu quisesse.
Alguma coisa estranha escorria do meu rosto, minhas mãos estavam com tapurus, havia isso por todos os lados, entrando e saindo de buracos em meu corpo.
Me arrastei até perto da cômoda, com muito esforço pude erguer o corpo. Passei a mão tentando limpar a poeira no espelho.
Quando pude ver alguma coisa por ele, estava bem atrás de mim, de pé com a cabeça de saco sujo de sangue mostrando olhos e boca.
Entrei em pânico ao ver meu rosto desfigurado, meus lábios eram uma coisa só agora.
Aquilo saia do meu rosto e escorria pelo pescoço, os cavidades secretavam pia e sangue, as moscas se alimentando e criando tapurus.
Minha pele estava esverdeada, meus olhos quase saindo da órbita ocular, não podia abrir a boca.
Não havia nada a se fazer.
Tudo que restou foi uma foto, junto com o homem estranho é minha avó.

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