Um Amigo Imaginário

57 6 0
                                        

Meu irmão sempre brincava sozinho, as vezes eu ouvia ele conversar. Nada que fosse de espantar, as vezes parecia haver duas crianças no quarto.
Uma noite ele disse que brincava sempre com uma menina, loira de vestido amarelo e rosa com cabelos ruivos.
Deixei pra lá por ele ser criança, achei que ele estava inventando aquilo.
O tempo passava e as coisas estranhas aumentavam.
Ele pedia prato e talhere a mais, quando nossa mãe coloca a mesa.
Guardava pães no travesseiro.
Um certo dia ele disse que a pequena Joana não podia brincar com ele, deixando assim meu irmão triste o resto do dia.
Tentei fazer as coisas junto com ele, chamando para jogar comigo.
Sempre que eu me aproximava sentia como um empurrão.
Logo evoluiu para coisas caindo das prateleiras.
Livros e bonecos voavam de um canto ao outro do quarto.
Ele só pedia que ela ficasse quieta e me pediu para sair do quarto e não falar com a mãe.
Fiz o que ele havia pedido, fui para sala ver tv. Passei o resto da noite no sofá.
Quando eu já estava quase pegando no sono, minha mãe mandou que eu fosse dormir.
Quando entrei no quarto, perto da cama do meu irmão havia uma menina de costas, fazendo carinho nele enquanto ele dormia.
Fui o mais silêncioso possível, mas ela evaporou.
Deitei e não parava de imaginar o que acabara de ver.
Eu só poderia estar dando asas as coisas do meu pequeno irmão.
Na manhã seguinte ele estava no canto do quarto sentado conversando.
Ele perguntou para que ela havia deixado eu vê-la.
Agora ele sabe que você existe, vai querer brincar com você.
Eu vou ficar sem amigo?
Então passei a ouvir a voz de uma menina responder meu irmão.
Estava a cada dia mais assustado com aquilo.
Minhas coisas dentro do quarto pareciam ter vontade própria, mudavam de lugar. Sumiam e apareciam em lugares diferentes.
Aquilo não me assustava tanto quanto o fato de as vezes ouvir vozes.
As vezes dizia que eu não saísse de casa, ou não usasse certa roupa.
Era como uma proteção.
Minha mãe estava achando meu irmão cada vez mais estranho, pelo fato dos pratos, copos e talheres a mais em cada refeição. Ele fazia aquilo ser tão real, falava como se alguém realmente estivesse entre nós.
Ela resolveu buscar ajuda, mas foi interpretado como um fato normal para crianças.
Ontem ele estava chorando quando entrei no quarto, pediu que eu fosse para minha cama e ficasse lá. Estava triste com a voz embargada, os olhos marejados.
Chamava sua amiga toda hora.
Eu pude ouvir quando ela respondeu, a voz ficou mais clara e perto da cama dele, ela falava calmamente para que ele se acalma-se.
Ele levantou a mão direita, parecia que era um sinal que eles tinham criado.
Foi quando ele desabou chorando, largando o rosto no travesseiro. Pedindo que ela não fosse.
Uma estranha luz tomou conta da porta do quarto, uma menina exatamente como ele descreveu. Ela estava de mãos dadas com uma mulher, parecia ser sua mãe ou irmã mais velha.
Ao se virar para se despedir a jovem menina revelou seu rosto, ela não tinha o lado direito da face, era um buraco, a língua caída perto do queixo, com o olho esquerdo virado.
Ela acenou e sumiu na clara luz que ali as envolvia.

DISTÚRBIOHistórias para pegar e não largar. Descubra agora