Um capuccino e uma fatia de bolo de limão. O café da manhã de sempre, sentado na mesa de sempre. Era a única da fachada de vidro que nunca estava ocupada, certamente por conta do sol que a atingia. Acabei me acostumando e mesmo naquele dia sem movimento, com várias mesas à disposição, resolvi sentar ali.
Admito que talvez o fato de o sol deixar meus olhos azuis ainda mais evidentes e, além disso, transformar a cor dos meus cabelos de um castanho claro em um loiro reluzente contasse para a escolha estratégica da mesa. Tinha, ainda, a fachada que era uma vitrine para todos que passavam pela calçada. Truques da vida.
Não tô morto!
Fiz um sinal para a moça que sempre me atendia e que, diante daquela estranha falta de movimento, repousava com seu queixo apoiado sobre as mãos cruzadas no balcão. Fingi passar um cartão no ar, para que ela trouxesse a maquineta de cartão. Ela fez uma careta, alarmada. Juntei as sombrancelhas imaginando por que seria.
— Quebrada? — Indaguei, quando ela me contou que estava sem maquineta.
— Pois é! Fazem três dias. Já pedimos outra, mas a empresa ainda não trouxe.
— E vocês não colocam uma placa avisando?
— Colocamos, aquele banner ali na porta. — Falou, apontando.
Vi o banner branco. Não conseguia ler o que estava escrito, porque ele estava com o verso virado para mim. Passei tão apressado que nem notei.
— Por isso o movimento fraco? — Minha pergunta, tentando desconversar, saiu quase como uma afirmação.
— Também. — Disse ela. — E tem a obra que começou ontem, na avenida paralela. Vedou o acesso a esse estacionamento aqui do lado. Muita gente parava aí pra vir tomar café aqui. Agora, o trânsito pela manhã fica um caos nessa rua. Ninguém tá parando mais.
Meu coração acelerou só de pensar em pegar um trânsito parado que me atrasasse, atrapalhando ainda mais minha rotina. Conferi a rua, os carros ainda fluíam. Respirei aliviado. Não quis mais conversar, tinha pressa. Peguei a carteira e conferi meu dinheiro. Uma nota de cem e outra de dois reais. A de dois não pagaria. Peguei a de cem, entreguei à moça. Mais uma careta.
— O que foi? — Questionei.
— É que abrimos agorinha e acho que com esse movimento fraco não vai ter troco. Mas vou conferir.
Era o que me faltava! Pensei, e quando ela ia até o caixa. Acompanhei sua conversa com o rapaz que recebia. Ao mostrar a nota, ele meneou a cabeça negativamente. Ela falou algo, ele abriu a gaveta. Tive esperanças, que acabaram assim que ele repetiu o movimento feito antes com a cabeça. Ela me encarou, tensa. Eu também fiquei tenso.
— Não tem como eu ficar devendo? Tô aqui todas as quintas.
— É que o caixa não vai bater quando formos passar para o pessoal da tarde. E quando a dona vier fechar o caixa, à noite.
— Então fica com o dinheiro, então. Semana que vem pego o troco.
— Tá doido? — Quase gritou.
— Como é? — Indaguei, perplexo.
— Desculpa, moço. — Falou, corando. — É que é muito dinheiro, se eu perder vou ter que tirar do meu salário que não é lá essas coisas.
— Então, qual a sugestão? Porque eu tô atrasado.
Conferi no relógio, o atraso de vindo minutos agora eram de dez. Olhei pela fachada de vidro, os carros começavam a andar mais lentos. Minhas mãos suaram.
— Podemos esperar outro cliente pagar, ou vou no Pet Shop aqui do lado, ver se eles trocam pra mim. — Sugeriu.
— Faça isso, fico no caixa aguardando. — Levantei, num salto e me pus de lado do caixa.
Quinze minutos atrasado. Eu ainda tinha que voltar no prédio e pegar meu carro. O trânsito na rua cada vez mais lento. Estava prestes a tomar uma medida desesperada e perguntar aos únicos dois clientes que estavam ali, dois senhores que tomavam café e liam seus jornais pacientemente, se eles trocaram o dinheiro para mim.
Foi quando a moça do café surgiu na fachada, animada, balançando o dinheiro que segurava. Mas quando ela chegou, logo vimos que faltaria três reais de troco. Eu estava prestes a deixar de gorjeta, quando outro atendente que já tinha se envolvido na história sugeriu que eu levasse outro capuccino, que custava quatro reais, mas sairia com desconto pelo transtorno.
Aceitei. Mas isso me fez esperar outros dois minutos, me fazendo sair da cafeteria vinte minutos atrasado. Peguei o copo de isopor e saí correndo. Assim que passei pela porta, esbarrei num cara alto, que passava com seu pastor alemão pela calçada. O capuccino fervente derramou na regata dele e o cachorro avançou em cima de mim.
Hoje não é teu dia, Luan. Pensei.
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Dia, Lugar e Hora
Short StoryA fixação que o jovem Luan Biagi tem pela sua rotina beira o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). E quando uma quinta-feira, que deveria ser igual a todas as outras, passa a sofrer interferências externas, atrapalhando assim seu itinerário habitua...
