Sinal Vermelho

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Cerca de quinze metros. Era tudo que eu tinha conseguido andar com meu carro, em cinco minutos. Eu ainda estava parado em frente à Cafeteira Gran Barí. Podia ver, inclusive, o copo de isopor, aquele que derramei no dono de Sansão, ainda jogado na calçada. O sinal vermelho ficou verde. Alguns segundos, voltou a ficar vermelho. Nem me movi.

Aquela rua tinha, geralmente, um trânsito calmo. Por isso, o sinal verde demorava poucos segundos, logo voltando a ficar vermelho e liberando o trânsito por mais tempo para as avenidas transversais, de maior movimento. Isso fazia com que, nos dias normais, por volta as oito horas da manhã o trânsito também ficava um pouco mais lento.

Por isso, nas quintas-feiras, em especial, eu corria para sair dali antes. Demorava mais por frequentar a cafeteria em frente ao prédio. Naquele dia, além de tudo que já havia ocorrido para me atrasar, ainda tinha o fato de a avenida paralela estar em obras, transferindo para minha rua uma quantidade absurda de carro. O trânsito estava dez vezes pior.

E eu tô dez vezes mais agoniado.

Verde. Vermelho. Verde. Vermelho. Agora, eu estava em frente ao Pet Shop, vizinho à cafeteria. Fiquei surpreso ao ver Sansão tomando banho, no espaço que ficava bem na vitrine, para chamar atenção dos donos de pets. Atrás de outra parede de vidro, protegido da água e da espuma, estava seu dono, que vestia a camisa manchada.

De repente, surgiu atrás dele, a moça do café, que andava apressada com algumas notas de dinheiro na mão. Certamente mais um problema com troco na cafeteria. Ela parou bruscamente, bem ao lado do cara louco, fungando o ar com o nariz. A careta de confusão entregou que ela parou por conta do cheiro de café, tão familiar para ela, mas não ali no Pet Shop.

Ela começou a aproximar cada vez mais o nariz dele, mais e mais, até que ele acabou percebendo sua presença e virou subitamente. Ela pulou pra trás, assustada com o movimento repentino do homenzarrão. Eu ri, mas o sorriso durou pouco, pois logo o sinal voltou a abrir e as buzinas atrás de mim indicaram que eu finalmente andaria, dois ou três metros que fossem.

Parei. Não conseguia mais ver o interior do Pet Shop, mas vi a moça do café sair sorrindo. Sinal verde, sinal vermelho. Anda, para. Aproximadamente vinte minutos depois, apenas um carro me separava do cruzamento. Mais de uma hora de atraso. A distonia, acentuada pelo nervosismo, deixava a palma das minhas mãos totalmente molhadas.

Finalmente chegou minha vez. Apenas um carro à minha frente, o semáforo ficou amarelo. O carro da frente passando, não acelerava, meu coração acelerando. Sinal vermelho, meu carro já estava com os pneus frontais sobre a faixa de pedestre. Acelerei e passei no sinal vermelho. Antes eu não conseguia ver, mas na esquina que virei tinha um guarda de trânsito, que me mandou parar.

Fim da segunda década do Século XXI, o mundo inteiro se digitalizando, mas aquele senhorzinho resistiu e resolveu não seguir a manada. Ainda escrevia a multa em um bloco de papel. Como se tivesse todo o tempo do mundo, ele olhava a placa, escrevia um pouco, voltava a conferir algo, circulava em volta do carro, pareceu errar algo, pois passou uma folha e começou a escrever tudo novamente.

Meu coração não podia bater em ritmo mais acelerado. Minha pressa estava me sufocando. E a cada vez que eu tentava argumentar com o guardinha, baixinho de cabelos alvos, ele estendida a mão em minha direção, me fazendo calar. Até que enfim ele destacou o papel – com toda paciência que me faltava – e me entregou, junto aos documentos. Peguei rápido e me virei para dar partida.

— Ei, mocinho. Espere aí! — Exclamou o velhinho.

— O que foi? — Indaguei, aflito.

— Essa foi só uma das multas. — Disse.

— Como é? "Das multas"? — Quase gritei as perguntas.

— Sim. A primeira por avançar o sinal vermelho do semáforo, gravíssima, sete pontos, duzentos e noventa e três reais e quarenta e sete centavos.

— Isso eu sei. — Falei, impressionado com a quantidade de detalhes dados por ele, sem ler em lugar nenhum, certamente por conta da longa experiência. — Mas e a outra?

— Estacionar em local proibido pela sinalização, infração média, quatro pontinhos, multa de cento e trinta reais e dezesseis centavos.

— Mas foi você que mandou parar aqui. — Argumentei.

— Aqui não. Mandei parar. Se o senhor tivesse parado uns dois metros mais à frente, estaria dentro da faixa branca. — Disse, se divertindo com minha desgraça.

— Eu não tô acreditando! — Protestei.

— Não? Se quiser posso fazer mais algumas averiguações, conferir se está tudo certinho com o veículo...

— Não! — Dessa vez foi um grito mesmo.

Os pneus ainda estavam bons, só que no limite, logo, seria minha palavra contra a dele. Luz de freio direita queimada. E ele não viu, ou preferiu não comentar, mas o retrovisor interno não estava no lugar. Fui passar uma bolsa, duas semanas antes, e acabei levando ele junto. Não consegui colocar de volta.

— Pode deixar. — Falei. — Obrigado!

A essa altura eu já tinha ligado o carro e partido. O atraso, na casa das horas.

Dia, Lugar e HoraOnde histórias criam vida. Descubra agora