Nem acreditei quando cheguei à minha loja, parei na fachada, lendo com orgulho a placa que dizia: Biagi Bags. Minha marca, meu orgulho. Era lá que eu desenhava, produzia e vendia bolsas super exclusivas.
Finalmente!
Respirei aliviado. Peguei a chave, abri a porta de vidro e entrei. Eu me sentia seguro ali dentro. Mais até que em minha casa. Talvez por isso meu tremor de raiva e nervosismo tenha diminuído, no mesmo momento. Minhas mãos também pararam de suar. Toquei meu peito e senti os batimentos do meu coração abrandando.
Tratei em começar logo a arrumação da bagunça no ateliê, nos fundos da loja. Logo, percebi que a energia do café da manhã já havia se dissipado com o estresse causado pelas intercorrências que tomaram quase toda minha manhã. Coloquei uma cápsula de capuccino na cafeteira, para me revigorar. Logo deu a hora do almoço e, para variar, saí atrasado.
Cheguei a pensar em comer na Café Doce Café, cafeteria vizinha à minha loja, onde eu desjejuava todas as terças-feiras. Mas a bagunça na minha rotina já estava me sufocando. Então, eu precisava desesperadamente retomar as rédeas do meu itinerário habitual. Por isso, fui até o shopping, duas quadras distante dali. Comeria no restaurante italiano de todas as quintas-feiras.
Tudo vai dar certo! Pensei, sem saber se acreditava mesmo nisso.
Chegando lá, escolhi meu prato, peguei a comanda e fui até o caixa, pagar. Assim que o rapaz me entregou o troco, uma outra funcionária estourou um desses lança confetes. O grito que dei foi vergonhoso. Somente quando os papéis cromados caíram ao meu redor, percebi que aquilo era pra mim. Ganhei uma promoção.
Até que enfim algo de bom nesse dia!
O restaurante estava premiando um cliente, a cada cinquenta, com um corte de cabelo grátis numa barbearia super badalada, que estava inaugurando aquele dia, em frente ao shopping. Tinha ouvido falar que um corte custaria quarenta reais, informação que o rapaz do caixa confirmou. Descobri também que a barbearia era do dono do restaurante.
O problema era que eu teria que ir à barbearia logo após almoçar, pois, como o atendimento acontecia com hora marcada e aquele dia estava bem movimentado, só sobrou aquele horário para mim. Eu cortava os cabelos sempre aos sábados, uma semana sim outra não. Faltavam só dois dias. Mas a promoção era válida somente para aquele dia, da inauguração.
Coloquei os prós e contras na balança. Quarenta reais eram uma boa economia, principalmente tendo em vista as multas que levei mais cedo. Me olhei no espelho que revestia um pilar do shopping, confirmei que meu cabelo já estava precisando de um corte. Mas meu dia estava uma bagunça. Tudo estava atrasado. Só que o corte era com hora marcada. Alguns minutos e estaria livre. Não tinha como piorar meu atraso. Aceitei.
Meia hora depois eu estava sentado na cadeira da barbearia, um cabeleireiro bem simpático, gordinho, e cheio de tatuagens tinha iniciado um corte degradê, que me convenceu a fazer, quando tudo se apagou. Pensei que era uma queda de energia rápida, comum na região. Mas na medida em que os segundos foram passando e nada da energia voltar, vi no rosto do cabeleireiro a tensão.
Em cinco minutos eu estava chorando descontroladamente, tendo apenas uma parte da cabeça raspada. Lembrava dos acontecimentos do dia, tentando identificar em que ponto específico ele tinha se tornado um completo desastre. Os funcionários estavam assustados e me cercavam, sem entender meu desespero. Até um rapaz com metade do rosto barbado e outra metade liso tentava me ajudar.
— Calma. Não é só você. Olha minha barba... — Disse.
— Mas... a... lâmina... não... precisa... de... energia. — Consegui falar, entre soluços.
Quando consegui me acalmar, resumi que meu dia estava totalmente fora de eixo. Não falaram, mas percebi que acharam um exagero. Ninguém compreendia a importância da rotina pra mim. Eles descobriram que o problema de energia era na instalação nova da barbearia. Um eletricista foi chamado. Saí dali um hora depois.
Voltei à minha loja somente na metade do turno da tarde. Quando entrei no meu ateliê o telefone fixo tocava. Corri para atender.
— Biagi Bags. — Falei, ao colocar o aparelho no ouvido.
— Aleluia! Já liguei umas vinte vezes. Posso ir buscar a bolsa?
— Quem é? — Indaguei, mas no mesmo momento reconheci a voz.
— Catarina! — Falamos juntos.
Ela era uma cliente especial. E tinha me encomendado uma bolsa para levar numa viagem ao exterior. Seu vôo era à noite daquele mesmo dia. Só aceitei o pedido, com apenas um dia de antecedência, por se tratar dela. Não contava com um esquecimento absoluto, causado por um dia tão conturbado.
Enrolei, dizendo que a bolsa estava quase pronta, com um pequeno atraso por um problema com a energia elétrica. Não menti. Eu realmente havia tido um problema com a energia que me atrasou, só não foi na loja. E também tinha adiantado os cortes da bolsa no dia anterior. Era só costurar tudo e fazer os acabamentos.
Pela primeira vez na vida pedi que nenhum cliente entrasse na loja, para que eu pudesse me dedicar única e exclusivamente à bolsa de Catarina.
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Dia, Lugar e Hora
Short StoryA fixação que o jovem Luan Biagi tem pela sua rotina beira o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). E quando uma quinta-feira, que deveria ser igual a todas as outras, passa a sofrer interferências externas, atrapalhando assim seu itinerário habitua...
