Pouco mais de um mês havia se passado desde o fatídico dia. Evitei ao máximo tocar no assunto, mas não pude escapar dos olhares de uma Morgana um tanto quanto curiosa. Ela dizia respeitar o meu tempo, já que sabia que fingir que nada havia acontecido era minha defesa, mas eu sabia que ela estava a ponto de ter um derrame se eu não abrisse a boca. Sem muitos detalhes, fui o mais breve que consegui: Ele se chama Toni. Nós dois iríamos para casa dele transar até eu descobrir que ele é casado. Também falei sobre a parte em que na cabeça dele eu tinha a obrigação de saber que ele era casado. Dei o assunto por encerrado, encarando uma Morgana tão confusa e pasma quanto eu. Ela queria saber mais, mas eu não queria.
26 de setembro de 2018, quarta-feira. Madri, Espanha.
- Amanhã nós temos dois horários seguidos de produção de texto. - falei me sentando no último degrau da escada.
- Que delícia! - Marconi exclamou irônico, se acomodando entre as minhas pernas no degrau abaixo.
- Eu não sei por quê eu peguei essa matéria. - comentou Níco esfregando o rosto, recebendo um aceno em concordância de Marconi.
- Seria porque a matéria é obrigatória? - falei rindo.
Nícolas deu um sorriso forçado fazendo um joinha para mim, me fazendo rir mais ainda.
- Níco acha que só de cálculos vive um engenheiro. - Morgana disse se aproximando de nós, depositando um beijo na testa do namorado.
- E não é? - questionou ele indignado.
- NÃO. - respondemos juntas devolvendo a indignação.
Estávamos esperando o alarme soar indicando que era hora de irmos para a sala de aula, sentados na escada central do colégio, que dava visão para toda a entrada do ambiente.
Aos poucos eu estava me adaptando a rotina escolar, faziam três semanas desde o início das aulas e meu corpo já havia se acostumado de maneira aceitável meus novos hábitos. Fiz minhas preces agradecendo por ter pessoas conhecidas lá, que foram responsáveis por me deixaram mais confortável em relação ao novo. Era horrível ser novata em um país que você não "conhece", mas toda essa transição seria mais agradável com amigos.
Os corredores do prédio estavam movimentados, professores e coordenadores zanzavam de um lado para o outro como se o mundo fosse acabar. Alguma coisa estava errada, claro que eu estava ali a pouco tempo, mas estava a tempo suficiente para saber que aquele não era um dia normal no Alyna Herrera-Cohen. Analisei meus amigos que pareciam indiferentes a confusão que parecia se tornar maior, ergui meu pulso e verifiquei o relógio e constatei que já haviam se passado doze minutos desde às nove da manhã. Não pude evitar a ruga que se formou no meio da minha testa, aquela famosa que sempre diz: algo de errado não está certo.
- Vocês não acham estranho o sinal ainda não ter tocado? - resolvi matar minha curiosidade. - Já são nove e doze.
Eles pararam a conversa animada sobre o aniversário de Níco, me encarando com as sobrancelhas arqueadas.
- Você não acompanha o seu calendário escolar, lindinha? - questionou Nícolas, tomando uma pose debochada.
- Quem acompanha calendário escolar, meu querido? - rebati devolvendo a pergunta no mesmo tom.
- Todo mundo! - responderam juntos, rindo da minha cara.
- Perda de tempo... - fui interrompida por um Marconi totalmente escorado em mim.
- Então, como a senhorita sabia que hoje era dia do uniforme.
- Intuição, babe. - falei dando um beijinho no ombro.
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Aqueles Olhos
FanfictionAos dezessete anos, Isadora tem muitos sonhos. Aos vinte e oito anos, Toni também tem muitos sonhos. Aos dezessete, Isadora se mudou para Madri. Aos vinte e quatro, Toni se mudou para Madri. Ela esta começando o seu caminho. Ele já tem a carreira co...