Triste Como Jamais Estivera

2.6K 248 180
                                        

Ao despertar, Izuku abriu os olhos. Não treinara quase nada no dia anterior e, no entanto, sentia como se tivesse levado uma surra.

Pensava em Uraraka... e na conversa que tiveram depois da aula... A seriedade nos olhos dela quando se sentou e pediu pra conversarem a respeito. E na expressão de vazio de Kacchan... A emoção da declaração, a falha e patética resposta de reciprocidade, o silencio constrangido...

.

.

Caminharam juntos depois da aula sem ter um lugar definido para conversarem. Izuku tentava puxar um assunto qualquer a fim de evitar cair em seu ciclo de murmuração, questionando-se longamente tudo o que poderia ter feito de errado nos últimos dias para a morena precisar ter uma conversa tão séria com ele.

A última coisa que jamais (nunca, never, nem em um milhão de anos) passaria em sua mente ansiosa seria justamente o que viria a acontecer; uma declaração. 

Não lembra nem como haviam chegado no  telhado... Mas, estando finalmente sozinhos, colocaram a limpo os objetivos que tinham e ele se lembrou de cada vacilo que seu coração deu ao decidir se amenizava algo ou se enfatizava outro, tentando calcular a resposta como quem pode controlar o resultado da conversa. Mas não conseguiria fazer isso. A sinceridade dela não permitia. Por mais que gostasse dela, que fosse correspondido, quando colocavam na mesa o que tinham e o que esperavam do futuro, o caminho que se desenhava era o de uma bifurcação.

Droga... estavam ainda no colegial. O que podiam achar que sabiam do futuro? Mas não deixou esse pensamento ir adiante. Porque uma coisa era ser um cidadão comum que ainda nem sabe ao certo que quer do amanhã, outra era ser herói.

Outra ainda o sucessor do Símbolo da Paz.

Se Uraraka tivesse a totalidade de seu sonho em torno de sustentar a família, talvez não fosse um dilema tão grande. No entanto, conforme ela contara, seu projeto crescera desde que ficaram amigos e ela começou a querer mais de si própria do que uma carreira medíocre.

Deku sorriu sem graça com a ironia.

Ela queria ser uma heroína durona e capaz de oferecer suporte pra civis e pra heróis, fosse em resgate, fosse em combate, mas também pretendia formar sua própria família. Queria uma companhia que não pegasse leve com ela, deixando-a cair na natureza acomodada, mas que também fosse presente e pudesse compartilhar da parceria que ela via nos pais dela.

E aquela era uma dinâmica que Midoriya só poderia sonhar um dia oferecer. Não conseguia se forçar a lutar com tudo contra ela como amigo, muito menos como namorado. E se fazer presente em casa...

Algo lhe dizia que não era provável.

Podiam fingir que não era bem assim. Podiam tentar forçar um relacionamento, jurando que o fato de gostarem do temperamento, da aparência e da personalidade um do outro bastava  ou tentarem aproveitar o tempo juntos e só se preocupar com o futuro quando a hora de seguir por rumos diferente chegassem. Mas a quem eles iriam enganar? Não era o estilo de nenhum deles esse tipo de relacionamento. Pelo menos nisso eram compatíveis.  

Enfim, eles decidem que o melhor pra ambos é manterem-se amigos. É o único relacionamento que dava margem pra seguirem cada um seu respectivo sonho.

O único que permitia que se gostassem sem sacrificar uma parte essencial do outro.

"Quem sabe no futuro, quando estiver tudo mais estabilizado..."

Uns dez, vinte anos, talvez... quantos anos leva pra uma sociedade se readaptar a um novo pilar de justiça?

"É... quem sabe... "

EstalinhosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora