Jooheon arrumou a coberta sobre os ombros do Kihyun sentado, em frente a cabeceira da cama que na verdade era o gigante vitral com visão para toda a cidade. Era possível se ver o jornal passando pelos painéis que ficavam em volta dos grandes prédios, com desenhos de nuvens de chuvas com raios. E a previsão do tempo era verdadeira, do lado de fora chovia intensamente inundando as ruas de Synthwave. Sabe se lá como o subúrbio estava com a quantidade de água descendo do céu suficiente para alagar boa parte da região. As chuvas noturnas pareciam impiedosas naquele ano.
Os dois se arrumaram debaixo da coberta e continuaram apreciando a vista. Kihyun havia explicado a razão de estar tão ocupado nos últimos meses: criando um androide idêntico ao seu falecido namorado. Jooheon de início estava irritado por ter sido excluído do projeto que ele mesmo havia criado, mas decidiu não julgar o amigo num momento como aquele. Agora, precisavam decidir se a invenção viria ou não até o público.
— Se você não estivesse obcecado pelo Changkyun, nós bem que poderíamos namorar — Jooheon disse com seu sorriso brincalhão no rosto, roçando seu ombro no do amigo.
— Você nunca perde a chance de uma piada não é? — Kihyun tentou parecer irritado com a situação, mas foi incapaz de segurar a sua primeira risada em semanas — Obrigado por estar aqui.
Yoo se deixou relaxar, dando um longo suspiro. Se arrumou de forma com que deitasse com a cabeça nas pernas de Jooheon, quem o aceitou prontamente. Deixou seus cabelos, agora já na cor natural, serem acariciados pelas mãos fofas do Lee até que finalmente pegasse num sono tranquilo ao qual não o traria pesadelos como casualmente fazia.
— Eu não estava brincando... — Jooheon sussurrou, ao que percebeu um dócil Kihyun adormecido em suas pernas, como se sua vida nunca houvesse sido conturbada como realmente era.
×××
Yoo Kihyun estava terminando seu turno na Offworld quando se lembrou do androide que havia deixado ligado na oficina subterrânea que era de Im Changkyun. Acreditava que ele não sairia dali devido a forma como era programado, mas mesmo assim tinha suas dúvidas. Seus princípios não o deixavam relaxar realmente, sentia que precisava parar de fugir daquele problema e enfrentá-lo de uma vez por todas ou colocasse um fim nele.
Seu grande medo era admitir que todo aquele trabalho não fora suficiente para repor o verdadeiro Changkyun. Ao analisar aquele androide completo, se sentia estúpido por criar esperanças amorosas contra aquele monte de softwares e engrenagens que não tinham 'vida própria' em si. Nem ele mesmo estava tendo algum tipo de vida ultimamente, o que poderia explicar o fato de que não era capaz de CRIAR outra vida — a não ser que futuramente se tornasse pai.
Kihyun desligou sua mesa digital, trancando seus arquivos com senha e saiu pela recepção casualmente. Como a rotina que estava seguindo nos últimos meses, tratou de se disfarçar com roupas simples e máscara no rosto até que chegasse na oficina subterrânea sem ser notado. Ironicamente foram naquelas ruas onde agora estava caminhando que Changkyun havia sido confundido e capturado, sendo levado aos distritos e perdendo nível de classes — dias após tendo sua morte declarada e o corpo desaparecido no depósito de lixo e moradia da escória da sociedade que eram chamados de distritos.
Sentado no sofá da oficina em modo de repouso, estava o androide substituto. Kihyun largou suas coisas sobre a mesa digital desligada e pensou um pouco no que faria com a máquina a sua frente. Antes de descartá-la precisava fazer alguns testes, para ter certeza se o seu projeto havia realmente dado certo ou possuía falhas. Yoo ainda não havia decidido se venderia seu protótipo para a Offworld ou guardaria em completo segredo sua grande invenção.
— Acorda, sucata — Kihyun disse em alto tom, sabendo que o androide acordaria. Ao perceber que ele se mexeu, prosseguiu — Eu vou fazer alguns testes em você. Abra o dispositivo de coleta de fluído.
Kihyun criou uma lista de testes que precisava fazer no androide Changkyun II, e ao longo de cerca de duas horas os concluiu. Estava um pouco admirado com o seu trabalho perfeito, todos os testes não haviam apresentados uma falha se quer e o processamento do 'cérebro' estava rápido o suficiente. Sentiu que Jooheon ao ver aquilo poderia gritar e chacoalhá-lo pelos ombros.
— Quando vou poder ir lá fora? — Changkyun androide perguntou, ainda sentado sobre a mesa em que Kihyun havia-o analisado.
— Nunca — Kihyun disse se abaixando e guardando algumas das ferramentas que havia usado dentro de armários planejados — Caso não sabia, ou se sua conexão com o banco de dados do mundo exterior estiver falha, Im Changkyun foi dado como morto. Ou seja, se te verem na rua teremos um problemão.
— Você é tão bobinho quando não se trata de engenharia — O androide disse acompanhado de um riso. Desceu da mesa e vestiu as roupas que Kihyun havia separado para ele — Você acha mesmo que alguém vai reconhecer um classe C? Eles provavelmente nem se lembram mais de mim. Eu sou tipo... um ninguém. Além disso, sou programado como o verdadeiro Changkyun, e convenhamos, eu não era nada bobinho.
Kihyun o olhou assustado com a semelhança que tinha com o verdadeiro Chang, que tinha certeza que responderia algo como aquilo. Em parte se sentia orgulhoso de trabalhar tão bem para criar um cópia perfeita como essa. Foi até a mesa e recolheu seus pertences, vestiu o casaco e a máscara.
— Pois bem, você me convenceu. Vista as roupas que separei para você e por favor tente se disfarçar, vamos até um lugar para o seu último teste.
Assim Kihyun e o androide saíram pelas ruas ainda molhadas da chuva do subúrbio. Mesmo que parecessem suspeitos com os casacos e máscaras conseguiram se disfarçar na rua. Ao chegarem ao meio da gigante passarela metálica de cerca de doze metros acima das ruas onde os carros passam, Changkyun sentiu o que seu processador traduzia como cheiro da chuva e brisa gelada. Desejou saber como os humanos sentiam aquilo, pois já não se lembrava mais da sensação.
Yoo Kihyun o levou até uma esquina, onde encaravam o enorme prédio azul metálico mas fosco, fazendo reflexos brancos em sua extensão. Metros acima, cerca da metade do prédio, a grande placa de um design moderno e inovador escrito 'Horizon: looking through'. Esperou que Changkyun androide pudesse analisar o que estava vendo e então disse:
— Essa é a Horizon, e lá em cima, no seu terraço, foi quando quis beijar você pela primeira vez só ouvindo suas palavras sobre o futuro que vivemos.
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CYBERPUNK | changki
Fiksi PenggemarEm 2077, Yoo Kihyun decidiu que usaria suas habilidades para construir o seu grande amor de volta. Ao invés de carne e osso, engrenagens e softwares. Mas ele não tinha certeza se um Androide seria capaz de matar a sua saudade de Im Changkyun.
