Epílogo
Centenas de quilômetros de distância do passado inovador, o mundo real ainda sobrevivia. Milagrosamente haviam riachos que escorriam pelas corredeiras sem dó, as folhas das árvores com um tom esverdeado vivo que criava uma fresca sombra sobre o solo fértil. O som espalhado pelos cantos de um cantar de pássaros de espécies diferentes, junto ao relaxante barulho das folhas secas do chão sendo amassadas pelas botas no caminhar aventureiro de Yoo Kihyun.
Sua pele nunca havia sido tão rosada devido as leves insolações que pegava todas as manhãs que cuidava de sua plantação, colhendo o fruto de seu trabalho artesão de meses que agora o dava o sustento do alimento. Suas panturrilhas coçavam devido as picadas de mosquitos, que adoravam sugar seu sangue humano suave escondido por sua pele macia e leitosa de vinte e poucos anos de vida fácil no interior do complexo Synthwave.
Suas mãos, antes bem cuidadas por manicures e que mal se sujavam com as engrenagens modernas, agora possuía alguns superficiais cortes que os espinhos das plantas lhe faziam. Seu cabelo já estava incontrolável, crescido volumosamente até o nível de suas orelhas e teimoso ao ponto de formar desengonçados cachos meio ressecados. Seu rosto estava salpicado de sardas solares e seu nariz vivia avermelhado, mas não era mais fissurado em seu visual como meses atrás.
Toda vez que caminhava em acampamento cinco quilômetros além da estrada, sozinho, ia se perder em seu paraíso secreto. A floresta úmida escondida que ele aproveitava os recursos ao máximo, mas seu preferido mesmo era o banho nas pequenas cascatas de água ainda não contaminada pelos resíduos da cidade grande. Provava diversas frutinhas que encontrava pelo caminho — vez ou outra tendo dores ou vômitos com os frutos venenosos que ainda não conhecia.
Kihyun nunca se sentiu tão em paz e grato com a vida que levava. Não se sentia mais solitário, mesmo o fato de que via pessoas apenas duas vezes ao mês quando precisava fazer trocas para conseguir suprimentos para sua sobrevivência. Seu mundo real era só seu e nada mais, suas experiências e percepções julgadas apenas por ele. Yoo estava aprendendo quem era, aceitando e gostando disso à sua própria e mais sincera forma.
Seu coração não pesava mais pela manhã ao acordar, ao perceber que ainda respirava. Agora, sempre que abria os olhos — percebia que enxergava, escutava, sentia e cheirava as coisas — estava imensamente feliz. Kihyun sentia que era a primeira vez que estava vivendo, e não quando saiu de dentro do útero da sua mãe e respirou oxigênio com os próprios pulmões minúsculos de um bebê.
Nem mesmo a cicatriz vermelha, profunda e grossa de cerca de quinze centímetros em seu pulso — onde originalmente ficavam seu dispositivo de saúde e identificação de classes — eram capaz de tirá-lo do seu profundo estado de paz. O calor na pele e a sensação do riacho e água escorrendo entre os dedos de seus pés o traziam seu mais sincero sorriso nos lábios surrados.
Kihyun nunca encontrou nada de Changkyun nos distritos — mesmo que tivesse sido levado de lá no seu terceiro dia e levado para a região oposta do país, onde atualmente trabalha em uma fábrica com testes manuais em androides, tem uma filha de quase um ano com uma mulher com quem conheceu no distrito onde mora, e agora os três dividem um pequeno apartamento juntos de classe C+. E não, mesmo pai e casado, nunca esqueceu Kihyun e sempre o guardou na memória como sua melhor lembrança e amor impossível que viveu três anos atrás.
Yoo guarda em seu bolso e leva em todo lugar que vai a foto que conseguiu imprimir de Im Changkyun em Synthwave. Não como objeto de saudade e dor, mas como motivação para continuar sendo corajoso e viver sua vida livre como autônomo que troca recursos naturais que encontra em lugares secretos por alimentos nos distritos ao redor da cidade grande. Vive na sua cabana cerca de três quilômetros ao oeste da população, escondida por uma vegetação grossa e de pouca utilidade.
Abandonou todos os luxos do seu passado futurista e agora ama a natureza que o mantém vivo,
pois Kihyun aprendeu a amar os outros, se amar e nunca desistir do que é importante para si.
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CYBERPUNK | changki
FanfictionEm 2077, Yoo Kihyun decidiu que usaria suas habilidades para construir o seu grande amor de volta. Ao invés de carne e osso, engrenagens e softwares. Mas ele não tinha certeza se um Androide seria capaz de matar a sua saudade de Im Changkyun.
