III

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Diana reagiu com revolta quando recebeu a notícia da boca de Luzia. Esposa de um dos funcionários da prefeitura, adorava ter a atenção de qualquer pessoa com o mínimo de prestígio que fosse... uma fofoqueira nata.

— Rafael me contou depois de ter ouvido da boca da tal secretária, dona primeira dama. A tal disse que o doutor prefeito prometeu separar da senhora pra ficar com ela.

Ela levou algum tempo para processar a notícia que teve, mas estava sã o suficiente para despachar Luzia educadamente antes de fazer o que fez. Diana apanhou a bolsa e, esquecendo um pouco do seu amor próprio, foi até o prédio da prefeitura.

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— Saia da minha sala agora! — disse Marcelo, incomodado com a presença daquela que já não era, nem nunca mais seria, a mulher que ele amou um dia.

Diana engoliu em seco, mas decidiu continuar:

— Você vai ter que me ouvir.

— A tua presença me dá asco.

Diana gargalhou, cínica.

— Vai ter que me aturar, meu querido. Ou você prefere desfazer perante a sociedade da cidade essa sua imagem de santo?

O calor de Bentarém naquela semana exigia um ar-condicionado bem mais potente, e mesmo no último, Marcelo não podia parar de suar.

— Eu proponho uma trégua dentro de casa. A Verena tá chegando aí e eu não quero mais problemas com a minha filha. Mas eu também espero, para o seu próprio bem, que você não invente de oficializar o que quer que seja com essa vagabunda que você chama de secretária.

— Verena devia ter ficado no Rio. Seria bem melhor para ela. Não gosto dela debaixo desse ambiente.

— De qual você tá falando? Do atraso que se chama Bentarém, ou da zona de guerra que nossa casa virou há algum tempo? — disse Diana, com as mãos apoiadas na mesa de mármore negro do marido.

Marcelo respirou fundo e cerrou os punhos.

— Tudo faz parte do mesmo pacote, não acha? — Marcelo baixara a guarda e respirou fundo.

Três batidas foram ouvidas à porta. Diana mordeu o canto da bochecha, nervosa. Sabia quem estava por trás.

— Entra! — disse Marcelo, temendo o que poderia acontecer.

Isabela saiu de trás da porta, Diana respirou fundo, manifestando toda sua rejeição à secretária.

Sem graça, a secretária entregou uma pasta vermelha a Marcelo, balbuciou algumas palavras, que a primeira dama preferiu não ouvir, e saiu da sala, fechando com cautela a porta atrás de si.

— Petulante essa garota, não? É nisso que dá ter intimidade com funcionária.

— Não precisa baixar o nível e falar dela. Diga o que tem pra dizer e se retire. — disse Marcelo, mais alto.

— Não precisa subir o tom, meu querido. — Diana queria ver até onde conseguiria perturbar o marido, mas lembrou de que não poderia demonstrar estar ameaçada — Era justamente sobre a Verena. Vim propor uma trégua.

— Você? — Marcelo riu. — Trégua?... Eu só posso ter enlouquecido pra estar ouvindo isso.

— Pela Verena, Marcelo. Por ela.

Marcelo coçou a cabeça e assentiu. Talvez assim Diana lhe deixasse em paz. Infelizmente não poderia fugir da discussão quando chegasse em casa, mas lidaria melhor com ela após a companhia de Isabela pela tarde.

— Bom... já não tenho mais nada para fazer aqui. Então passe bem. — Diana tomou a bolsa que estava na cadeira e saiu.

Marcelo sentou-se novamente em sua cadeira de prefeito e soltou um sonoro grito que pôde ser ouvido por Diana do lado de fora. Satisfeita, ela sorriu.

— Passe bem, dona Diana. — disse Isabela, sentada em sua mesa de secretária.

Os outros funcionários se espreitaram, tentando fingir que não estavam ali, mas atentos à confusão. Dando um sorriso malicioso, Diana pegou os papéis espalhados na mesa e os jogou no chão.

— Passar bem. Devia ir procurar emprego em algum lugar que combine mais com você, minha querida. A exemplo daquele fim de mundo do outro lado da cidade. Garanto que faria a vida lá.

— Aqui eu tenho tudo que me interessa, e um pouco mais, até. — debochou a secretária.

Tentando manter a pose, Diana tirou os óculos escuros da bolsa e pôs no rosto, batendo com força a porta de vidro na saída da prefeitura. 

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