QUATRO | MARIA CLARA

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— Mãe, é muito dinheiro...! — Quase gritando em surto, eu explicava para minha mãe tudo que deveria ser feito na minha ausência. Depois que eu pulei fora do carro assustando os homens da empresa de jardinagem, peguei um taxi e em dois minutos juntei tudo que precisava para fugir. Mas não tinha ainda pagado a hipoteca.

Não dava para confiar em meu pai, era um alcoólatra. E minha mãe mal conseguia andar. Ela tem fibromialgia e ultimamente a doença se intensificou. Eu não sabia o que fazer.

— Maria Clara, pelo amor de Deus, o que está acontecendo? Porque tem que viajar? Fique e pague a hipoteca segunda-feira.

— Não dá mãe. — Jamais eu diria a ela que o dinheiro era roubado. Além de mata-la de desgosto, minha mãe não iria aceitar. — É uma emergência na empresa, tenho que viajar agora. Mas vou transferir o dinheiro para sua conta e segunda-feira peça para o Daniel levar a senhora ao banco.

Daniel é meu irmão mais novo. Ele trabalha durante o dia e estuda a noite. Mal tem tempo para dormir.

— Sabe como a vida do coitado é corrida...

— Eu sei, vou ligar para ele. Ele pode vir no horário de almoço. — Peguei minha bolsa, coloquei no ombro e me abaixei para dar um beijo nela, sentada em sua confortável poltrona. — Se cuide, ligarei quando chegar lá. Se qualquer pessoa vir me procurar diga que não sabe onde estou.

— Você está com algum problema? Conte para sua mãe.

— Problema nenhum, meu amor. Volto em breve.

Eu não podia gastar quase dois dias de ônibus para chegar a São Paulo. Recorri ao voo. A todo instante era como se eu estivesse sendo seguida. Me mantive em alerta a cada segundo, pronta para correr a qualquer pequeno sinal de ameaça. Comprei passagens e de chapéu e óculos escuros esperei impacientemente até o momento do embarque.

Só dentro do avião, quando já estava no alto, eu respirei fundo, sorri e me deliciei com a visão de São Luís ficando lá embaixo. Eu estava livre.

Sei que fugir era só o atestado do meu crime. Se ele me denunciasse eu me tornaria procurada pela polícia. Ainda não queria pensar se foi um erro ou acerto ter fugido. Ao menos me dava tempo para pensar mais no assunto, tempo para planejar.

Assim que cheguei em São Paulo, a primeira coisa que fiz foi comprar uma tinta e no quarto do hotel, pintei meus cabelos de preto. Que é a cor natural. com pesar no coração, dei adeus a meu loiro platinado de anos.

Me ver morena novamente me deixou surpresa e até realçou meus olhos castanhos.

***

Duas semanas em São Paulo e eu já estava adaptada. Eu aluguei uma quitinete já mobiliada e consegui um emprego de garçonete a meia hora do prédio. A hipoteca da casa dos meus pais tinha sido paga, minha mãe estava em tratamento, não havia nenhum mandado de prisão contra mim e minha mãe disse que ninguém fora me procurar.

Tinha dado certo. Ou Fernando não conseguira desvendar e eu fugi sem precisão, eu ele descobriu e ignorou, o que eu desacreditava. Nenhum homem por mais rico que fosse iria virar as costas e ignorar um roubo de oitocentos mil reais.

As vezes eu me flagrava amedrontada, sem conseguir dormir, imaginando o que ele estava armando. O silencio dele estava me perturbando. Outras vezes eu ia para o shopping fazer compras e ria feliz da vida querendo acreditar que ele não se importou.

Acordei cedo como de costume, coloquei água para ferver e fui me arrumar. As meninas da lanchonete sempre tomam café lá, mas eu não consigo despertar totalmente se não sair de casa após beber uma xicara de café, sem falar que precisa ser o café que eu preparo. Nunca bebo qualquer coisa fora de casa.

De uniforme, cabelos presos em um rabo de cavalo, passei o café e de pé, recostada na pia bebi.

Era incrível como dinheiro poderia mudar a vida de uma pessoa. Com o valor do roubo eu quitei as dividas dos meus pais, estava pagando um tratamento especializado para minha mãe e ainda sobrou para eu ter um bom conforto.

É errado roubar. Um crime horrível. Ninguém tem o direito de roubar bens de outra pessoa, em hipótese alguma. Foi algo feito no calor do momento e que não deu mais para voltar atrás e agora, eu não me arrependo de ter feito, principalmente por que Fernando não parece ter se importado.

Após o café, conferi meu estojo de ampolas e seringas na bolsa e segui para o trabalho.

— Bom dia. — Cumprimentei o pessoal assim que cheguei. Fui para a sala de funcionários, guardei minha bolsa e voltei para começar o dia.

— E então? Vai sair com a gente no sábado? — Uma das minhas colegas de trabalho perguntou. Ajeitei a caderneta no bolso do avental e em questão de segundos, repassei em minha mente como seria uma noite com as colegas de trabalho. Eu não estava com esse tipo de espirito de confraternização. Neguei com um gesto.

— Acho que não. Estou tão cansada...

— Você acabou de chegar à cidade, será engolida viva se não se enturmar. — criticou — Precisa conhecer a selva de pedra.

Como se eu tivesse vindo da zona rural. São Luís é capital e é o município mais populoso do Maranhão. Decidi não a corrigir.

— Eu sei. — dei um sorriso. — Vou pensar.

— Além do mais, vai ter uns gatinhos top de linha. Vamos nos dar bem.

— A coisa ficou melhor agora. — Gracejei fazendo-a rir e fui para o balcão.

— Maria Clara, encomenda para você. — Meu chefe avisou passando por mim. — Resolva isso depressa, há clientes esperando. Odeio ver clientes esperando. Se puder faça o entregador comprar um salgado pelo menos.

— Encomenda? — Meu chefe não disse mais nada, foi para o caixa eu caminhei para o salão.

Desconfiada fui até a porta da lanchonete e um homem estava parado com uma prancheta na mão. Encostada a calçada, uma van de entregas.

— Maria Clara Gouveia?

— Sim, sou eu.

— Assine aqui por favor. — Empurrou a prancheta para mim.

— O que é isso? Eu não estou esperando encomenda.

Ele franziu o cenho e olhou mais uma vez o papel.

— Você é Maria Clara Gouveia com esse número de CPF? — Ditou o número do meu documento.

— Sim, essa sou eu. — A aflição me tomou. — Qual é a encomenda? — Imaginei que podia ser algo que minha mãe tivesse me mandado, mas sobrepujando essa hipótese, me lembrei imediatamente que minha mãe não sabia meu endereço.

— Está aqui. Veja se você reconhece. — Caminhou até a van, abriu a porta e eu o segui. Espiei dentro e o que eu vi foi um grande colchão e dois homens enormes. Um deles sorriu pra mim e antes que eu pudesse correr, fui empurrada para dentro caindo de cara no colchão, o entregador falso entrou atrás e a van arrancou em toda velocidade com o barulho sobrepondo aos meus gritos.

Um dos homens segurou facilmente meus pés, o outro às minhas mãos e o falso entregador me deixou aterrorizada ao pegar uma pequena seringa.

— O que vão fazer? Pare, por favor, eu tenho dinheiro, por favor...

Ele nem mesmo parou por segundos para me ouvir. Bateu com os dedos na seringa e a cravou em meu pescoço.

— Não tinha encomenda para você, gatinha. Você é a encomenda. — Foi o que escutei antes de cair em completa escuridão. 

[AMOSTRA] DOCE DOMÍNIO | Dinastia Capello 01Histórias para pegar e não largar. Descubra agora