Naquela mesma manhã, Camila estava sentada no banco carona da van ao lado de Jonas que bebia seu café. Estavam a exatamente 12 minutos andando da entrada da universidade, o tempo era crucial para o sucesso da missão. O plano era Camila entrar primeiro, fazer uma ronda no local e esperar até todos irem para as aulas. Jonas chegaria logo depois para ficar de vigia da sala onde os equipamentos estavam escondidos.
Essa não era a primeira missão deles juntos na policia. Era a terceira. Na primeira missão em Viena, Camila precisou burlar o endereço eletrônico para entrar em um sistema protegido, sempre que fazia isso ela tinha menos de 4 minutos para copiar tudo o que precisava e apagar seus rastros. Faltando 40 segundos dois homens entraram atirando por uma abertura no teto e por pouco ela não levou um tiro na perna. Metade dos arquivos foram perdidos. Na segunda missão, em Istambul, Jonas foi pego durante a vigia e levou três dias para Camila conseguir sua localização e salva-lo.
Ainda assim, os dois estavam confiantes. Repassaram o plano duas vezes antes de saírem e para aumentar os ânimos, foram tomar café da manhã na lanchonete favorita dos dois. Frappuccino de baunilha para Jonas e chá de camomila para Camila. De bônus eles compraram dois muffins de chocolate para depois comemorarem o sucesso da missão. Nada poderia dar errado.
Camila checava sua imagem na câmera do celular, ela não tinha o costume de usar maquiagem, até porque o seu trabalho não deixava lá muito tempo livre para vida social. Mas hoje ela decidiu abrir a gaveta de itens esquecidos e tirou de lá uma base, rímel e três batons diferentes. Ela analisava os riscos que fez na mão para comparar qual cor ficaria melhor.
– Pra quê tudo isso? – Jonas a olhou – Você sabe que não pode ser vista.
– E com o batom eu automaticamente acendo um bat-sinal pro mundo? – respondeu ainda olhando seu reflexo.
– Você tá diferente.
– É só um batom, Jonas.
– Não o batom. Você!
Camila o olhou.
– Acha que eu não percebi que você tem estado um pouco distante ultimamente?
Ela abaixou os ombros e tampou o batom.
– Eu só tô... Eu não sei. Um pouco decepcionada.
– Decepcionada? Vamos ver – Jonas numerou com os dedos – Você tem um emprego, dinheiro, comida, café! – ergueu o copo para provar seu ponto – O que mais você quer?
– Você tá querendo me dizer que não sente falta do jeito como a gente trabalhava antes.
Jonas não disse nada e se mexeu desconfortável.
– A gente era tão bom. As pessoas tremiam só quando escutavam o nosso nome. A gente era respeitado. Agora, a gente precisa pedir permissão pra fazer qualquer coisa e preencher uns 200 relatórios toda vez que não seguimos o protocolo exatamente como eles mandam.
– Lembra daquela vez, na Argentina que o cara se mijou quando viu a gente chegando no prédio?
Os dois riram.
– E em Gales, quando você acertou uma bala em dois caras de uma vez?
– Bons tempos... – disse Camila.
– Você sente falta de atirar?
O clima na van ficou tenso. Antes de assinar o acordo com a polícia secreta ela era atiradora especial. Com dez anos de idade ela sabia montar uma AK-107 de olhos vendados.
– Às vezes – admitiu fitando a Glock 18 no colete de Jonas.
Automaticamente ela se lembrou de todos os nomes da parte da pistola. Quase podia sentir a adrenalina de segurar a arma em sua mão. A sensação de recarregar o pente da munição e apertar o gatilho era indescritível. Sentia mais falta do que era capaz de admitir e não podia evitar, afinal, é o que ela foi treinada a fazer.
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Quebrando regras
RomanceSara Navarro vive uma vida normal de estudante na faculdade, ela quase nunca tem notícias do pai e mal o conhece. É só quando Camila, uma misteriosa agente recém-contratada da policia secreta aparece em sua vida que Sara descobre a verdadeira identi...