CRIAÇÃO MENTAL DE IMAGEM

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Aquela situação estava esquisita. Todas as pessoas da turma estavam sendo expostas. Processo? Quem processaria aquele que não se sabe quem é? A vergonha possuíra a alma dos desafortunados que usavam filtros, cobriam seus rostos, elevavam seus queixos (por vezes, o bumbum ou a peitchola), tudo para seduzir os seguidores e ter mais uns likezinhos marotos.
Rastear, queriam rastear, mas como?

Giza, linda, popular, cara de índia, dançava todos os anos num boi de orquestra no período junino. Foi completamente exposta: uma foto sua, com três espinhas verdíssimas se espalhara como vírus em período de inverno. Giza fazia tutorial de make no YouTube.

Elias, tão preocupado com seu topete e com a contemporaneidade das coisas, se emudecera ao saber que, nos grupos da escola, um vídeo com uma música que ele criara quando tinha dez anos dispersou-se como açúcar na água de café. Elias era muito inspirado pelas músicas de programas de auditório dos anos 80/90.

Vanessa, cujo nome nunca será nome de gente idosa (não consigo conceber algum neto chamando a vó de "vó Vanessa"), vomitava sua dose diária de comida, quando pelo WhatsApp chegou uma foto dela dançando no ministério de dança da igreja. Vomitou mais um pouco, dessa vez alguns mililitros de sangue.

Arthur, bonachão, um rapaz impossível de praticar bullying com qualquer um, admirava-se com a audácia de quem quer que fosse o autor da divulgação de uma foto sua segurando um cartaz numa feira cultural da sua antiga escola, com os dizeres "Abaixo toda forma de repressão - mais empatia". Continuou divertindo a todos com maior esmero, usando um assistente compulsório. 

Novas revelações foram sendo divulgadas. Com o passar do tempo, as  reais facetas se tornaram banais. Todos compreenderam que ninguém é perfeito mesmo. Os humilhados foram exaltados e aproveitaram disso para propagar a palavra da True Face, religião politeísta que pregava que cada um era seu Buda após a exposição. Todos deveriam, por obrigação, facultativamente expôr algo do seu pretérito. Quem não se desvelava tinha baixo score social, não era aceito em clubes, não conseguia meia-entrada no cinema e teatro, não tinha lugar de fala nos debates das faculdades, tornava-se uma mazela que precisava ser expurgada dos coletivos, pois aquele cujo passado não era sujo, deveria sujar-se para alcançar a perfeição e o equilíbrio dos imundos, e aquele que negasse seu processo de empoeiramento, era refém dos padrões de moral, ética e liberdade que assolam o mundo.

Tudo retornou ao pó. Mas o autor das fotos foi revelado:

Você, sacana!

PesaDreamnhosWhere stories live. Discover now