Louco desejo

4.2K 352 12
                                        

Respiro fundo. Uma, duas, três vezes, tentando me acalmar. Não adianta, é claro. A culpa está presa na minha garganta, um nó que se recusa a ceder. Reunindo a pouca coragem que me resta, abro a porta do meu apartamento. Encontro Savannah no nosso quarto, arrumando minhas roupas no closet, ela está separando tudo por cores, tamanho, modelo, vez ou outra, ela leva uma peça ao nariz e aspira o meu perfume, um sorriso bobo estampado no rosto.
Neste instante, uma dor aguda e lancinante atravessa meu peito. Eu desejei, com toda a força da minha alma, que eu fosse apenas um cara normal, sem mácula, sem pecados. Que eu retornasse do trabalho e encontrasse minha bela esposa arrumando minhas coisas, então eu iria até ela, a pegaria no colo e a conduziria até nossa cama, onde faríamos amor até esgotar nossas energias e nossas sanidades. Mas não. Eu sou um ser podre por dentro. Um verme envenenado pela vingança. Não posso dar nada a ninguém que não seja dor e destruição.

— Andrew... eu não havia percebido que...  Ela se vira, surpresa, com uma das minhas camisas na mão.
Me aproximo dela, lentamente, como um homem caminhando para o cadafalso. Fito seus olhos límpidos, tão desprovidos de ódio, malícia e vingança. E neste instante, eu a invejo. Queria ser assim puro, imaculado, intocado pelo mundo. Mas a vida cuidou de me manchar, de arrancar toda a inocência que um dia eu tive. Agora, só restou em mim ódio, desprezo ao homem que me tornei. Minhas pernas fraquejaram, a estrutura do meu ego colapsou. Então, caí de joelhos aos pés de Savannah. Abaixei a cabeça e abracei sua cintura, escondendo o rosto no seu ventre. Logo, as lágrimas começaram a cair dos meus olhos. Já havia tanto tempo que eu não chorava que eu tinha esquecido a sensação ardente do pranto.

— O que está havendo, meu amor? Fala comigo... — indaga Savannah, a voz embargada pela preocupação.

— Eu não mereço que me chame de amor. Eu...

— Fique calmo, estou contigo. Respira, Andrew.

Savannah se ajoelha também, no chão frio, e me abraça. Deixo as lágrimas caírem, lágrimas que por anos eu reprimi no meu peito, engolindo o choro para parecer forte. Como se eu fosse uma criança ferida, Savannah me acaricia o cabelo, me acalmando com o toque dela.

— Me perdoa, Savannah... por favor, me perdoa... — Sussurro, a voz falhando.

— Não tem nada para perdoar. Você não fez nada de errado.

— Tem sim. Eu sou um monstro, Savannah. Quando você souber a verdade, irá me desprezar. Irá fugir de mim.

— Que verdade tão terrível é essa? — Ela pergunta, a respiração presa.

— Você pode confiar em mim, meu amor.

— Não posso falar. Se eu falar, te perderei para sempre. E eu não suporto a ideia de você ir embora.

Ela segurou meu rosto entre as mãos pequenas e quentes, fixando o seu olhar no meu, com uma intensidade que me desmonta por inteiro.

— Eu te amo, Andrew. E sempre estarei com você, até o dia que você quiser. Mesmo que o mundo acabe.

— Eu sempre vou querer você aqui comigo. Sempre.

Ela se inclinou para mim e tentou me beijar, mas desviei o rosto no último segundo, o peso da minha culpa me impedindo de tocá-la. Ela me fitou confusa, os olhos marejados.

— Eu...

— Me desculpe, Savannah. É que eu não... não posso te tocar agora.

— Não precisa explicar. Toma um banho quente enquanto eu faço um chazinho de camomila para você.

Assim que Savannah some do meu campo de visão, descendo as escadas, eu corro para o banheiro. Arranco a roupa que estou vestindo, jogando-a com nojo para o canto. Entro debaixo do chuveiro e abro a água fria, o mais gelada possível. Pego a esponja e começo a esfregar com força na minha pele, tentando apagar as marcas do que fiz. Ainda sinto na pele, na alma, o cheiro enjoativo, as carícias falsas, os beijos de Candela. E por mais que eu esfregue a minha pele até quase sangrar, não consigo apagar. Ainda sinto a presença dela em mim, me contaminando.

UM ANO Para Te amar Histórias para pegar e não largar. Descubra agora