TRÊS - Parte 3

414 75 12
                                    

Encaro a mata que é o quintal da casa. O luar violeta dá um tom diferente para as plantas, mas é um diferente familiar, se é que isso faz sentido. Respiro fundo e cruzo os braços, me apoiando no parapeito da sacada. Isso é o que eu queria. Isso...

Isso é um sonho. Só pode ser um sonho, porque... Luar violeta?

E mesmo assim, não quero sair daqui. Saber que é um sonho não mudou o fato de que parece que todas as minhas preocupações desapareceram e que isso aqui é certo. Mesmo com o luar violeta. Mesmo que o vento esteja batendo no meu rosto e eu não esteja sentindo frio. Só... Paz.

Olho ao redor. É a sacada da casa, mas como ela deve ter sido anos atrás, quando a casa era nova. O cimento ainda está claro – não pintado, só claro – e o piso está impecável. Ou talvez isso só seja como eu quero que a sacada volte a ficar, não como era. E isso não é o suficiente para me fazer parar de encarar as árvores. Tem alguma coisa lá. Eu sei que tem. Eu sei o que é, só preciso conseguir me lembrar...

E não estou sozinha aqui. Tem alguém me encarando, vindo de dentro da casa. Uma presença que eu consigo sentir de alguma forma.

— O que você está fazendo aqui?

A voz é masculina, grave e aveludada, e consegue fazer essa pergunta não parecer uma ameaça.

Dou de ombros, ainda olhando para as árvores iluminadas pelo luar violeta.

— É a minha casa.

Quem quer que seja ri baixo e o som se espalha pelo vento de uma forma que não deveria ser possível.

— É mesmo?

— A papelada está toda nas minhas coisas. Aposto que já viu.

O homem – se é que posso chamar essa presença de homem – se aproxima. Solto os braços, ainda apoiada no parapeito. Não sei o que está acontecendo aqui. Não sei onde estou, mesmo que seja a minha casa. Ou um sonho dela. Eu deveria ter medo. Deveria estar preocupada, no mínimo, depois de tudo o que aconteceu, e agora isso, mas...

— Talvez. Mas ser dona desta casa é mais do que assinar um documento.

Dou de ombros. Não faço a menor ideia do que ele está falando e, sinceramente? Não faço questão de saber. Não importa o que ele diga, a casa é minha.

— Não está com medo?

Consigo ver fios de... fumaça? Não, não é fumaça. É escuro demais para ser fumaça. Quase parece sombra, mas está se movendo por conta própria sobre o parapeito, sem nada que pudesse estar causando isso. Mas são fios de escuridão, se espalhando e contraindo como se estivessem vivos, não muito longe de onde minha mão estar.

Se eu olhar para o lado...

Não. Ainda não.

— Não vou ter medo na minha casa. E se você quisesse fazer alguma coisa, não precisaria vir falar comigo em um sonho.

Ele ri de novo e os fios de escuridão se espalham ainda mais, num movimento quase hipnótico. É estranho. Eu realmente deveria ter medo, mas... Olho para a lua e então para as árvores de novo. Por que eu deveria ter medo? É um sonho. Só isso. E mesmo que não fosse... Que motivo eu teria para ter medo? Não sou mais uma criança para ter medo do escuro. Então...

Nenhuma opção é exatamente racional. Mas isso não faz diferença quando tem uma lua violeta brilhando no céu.

Escuto um ruído farfalhante, como se uma das árvores estivesse logo ao meu lado mas... O homem. A criatura. Isso foi ele se mexendo.

Fecho os olhos, sentindo o vento fresco no meu rosto e presença dele ao meu lado. Eu realmente deveria ter medo – nem que fosse o medo instintivo de alguma coisa que eu não conheço. Mas só consigo sentir que estou onde deveria estar.

***

N.A.: o pior é que ontem eu super estava lembrando de postar logo que desse meia noite... Aí saiu um MONTE de notícias sobre o jogo e ooooops, oi surto, adeus memória hahahahaha 

Sombra e Luar (Entre os Véus 1) - DEGUSTAÇÃOOnde histórias criam vida. Descubra agora