I.II.

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Às vezes, a ira ou marasmo em torno de uma desilusão amorosa torna-se constante em certo período de nossas vidas. Cautela! O ocorrido não provém da maldade que há em nossos cupidos: é o contrário. Eles trabalham partindo do conceito que a dor, proveniente do rompimento da relação desenvolvida, deve ser sentida para que haja um aprendizado e evolução.

O caso de Paul parecia com o descrito: terminara um relacionamento de um ano fazia três meses. Contudo a superação dava-se vagarosamente.

Traição sempre é um assunto delicado para se lidar.

O tempo é o curativo para as feridas expostas. Cautela.

Tudo não passava daquilo que Ringo pensava. Era o melhor.

A portinhola para o jardim do amor, entretanto, abria-se novamente para McCartney.

O momento chegou. Estava preparado o suficiente. Aprendera. Correria no meio das roseiras e tulipas.

Quando adentrou em sua casa, a mochila voou para um lado do quarto desorganizado — diga-se de passagem, lotado de caixas —, um disco foi posto na vitrola e as notas fizeram morada em seus atos.

— Oh, meu menino, que alegria vê-lo assim — comentou Ringo, sobre a estante de pinho, sorrindo ao visualizar os movimentos suaves e contentes de Macca. — Finalmente, alguém que o compreende.

Jogou-se na cama, abraçando o travesseiro; olhou pela janela e vislumbrou as folhas das árvores.

— Alguém que me compreende... — sussurrou.

Do outro lado da cidade, John encontrava-se sentado de frente à sua escrivaninha, fazendo um poema num caderninho preto.

Os traços com garranchos, finalmente, aparentavam algo de tênue. A sensação de pertencimento fazia as palavras terem um formato diferente, mais afeiçoado.

Não passava de uma questão psicológica, de intensidade do que se deixava passar do grafite para o papel.

— Como o Paul pode dizer que isso é letra de poeta? Pfff... Haja paciência para com os apaixonados... — comentou George.

Apaixonados.

Não amantes.

Apaixonados.

Mas como é possível algo exacerbado em pouco tempo?

Na verdade, não é: muitos acreditam piamente em amor à primeira vista.

Peço perdão, inclusive, em quebrar tal crença desde já.

O que surge ao percebemos um alguém belo, inteligente ou semelhante a nós é uma mera atração com uma flama veemente.

Um ou mais desses fatores instigam a busca aprofundada no outro ser. Apenas.

Por isso, o amor não mantém presença nesta história ainda.

Nunca apreciei, verdadeiramente, a botânica, porém façamos uma comparação para que haja um entendimento maior.

A afeição é o primeiro estágio da nossa plantinha: ela será a semente e raiz dela, fixa à terra desconhecida e preparada para adaptação de cada ser.

Se essa etapa for realizada, chegaremos na paixão: é o caule, a parte bem estruturada, resistente, por enquanto, ao que vier; servirá de ligação.

A terceira, e última, é o amor: as folhas, responsáveis pela fotossíntesse, tendo cuidado com o restante, e pelo mantimento dessa árvore. Frutos também, pois serão capazes de doação em qualquer emergência ou apenas promovendo o deleite, explosão de sabores naquele que o experimenta.

Caso a sua árvore tenha sido derrubada ou arrancada, é provável que tenha sido apenas uma paixão, já que, não estava preparada para suporte da copa.
Isso não necessariamente é sinônimo de fraqueza. Demonstra, unicamente, que ela pôde até onde dava, fora interrompida em dada situação.

Os ventos, as chuvas e as secas em demasia podem resultar no enfraquecimento.

Ou até mesmo a semente posta em terras inapropriadas para o seu cultivo causam o mesmo efeito.

Por isso, frisamos a cautela: tanto no cuidar quanto no plantar.

Em suma, as relações humanas urgem um amadurecimento. É impossível, na nossa natureza, algo surgir do nada ou do ínfimo.

Até possuirmos o pomar completo, esperemos a chama que habita o coração de nossos observados causarem um ardor maior, uma efusão amorosa.

les cupidons | mclennon.Onde histórias criam vida. Descubra agora