Noite perdida

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Cansada pela noite não dormida e pela fome que invadia seu corpo, Charlie havia deitado assim que chegara no dormitório. O olhar, curioso, voltava-se para o pacote que havia ganho de Adam. Dentro da sacola encontrava-se um sanduíche de peito de peru, algo que Charlie preferiu deixar de lado.

Para ela, ele demonstrara ser um sujeito intrigante. Um garoto conturbado, por assim dizer. Fechando os olhos, a menina não passa mais que cinco minutos refletindo sobre as ações do garoto até sua mente substituir seus pensamentos por figuras borradas de John.

David John. Ele sim era um rapaz por quem perder seu tempo. Estudante de Direito e da mesma turma que sua colega de quarto, naquele momento estava na fila da cantina, servindo seu almoço. Arroz, massa, carne, feijão e algumas folhas ocupavam cada centímetro de seu prato, uma refeição bem balanceada. Ao passar pela ala das saladas, lembra-se instantaneamente de Charlie e, assim como para ela, algumas memórias carinhosas passam por sua mente.

Ele serve-se de beterraba, lembrando do dia em que a garota havia ocupado todo seu prato com o vegetal. Ou raiz tuberculosa. Aquilo acontecera pois David havia feito uma aposta de que ninguém conseguiria se manter apenas com beterraba, que, a propósito, ele detestava. O desgosto do rapaz por beterraba e o fato da menina adorar a salada gerou a aposta, que foi ganha por ela após um almoço e um jantar nada diversificados.

Um sorriso brota em seu rosto ao lembrar que, após o almoço, os lábios da menina tomaram uma intensa cor rosada, destacando seus olhos. Ele não disse para ela e sequer cogitava em contar, mas o brilho em seu rosto após ganhar a aposta fora extraordinário. Ele adorava a maneira como a vida e a alegria ressaltavam as expressões da menina, que, na verdade, era uma das coisas que mais gostava nela.

Desde o dia da aposta ele passara a se servir de beterraba todos os dias na cantina.

Ela, por outro ver, apenas mantinha as expressões brilhantes ao seu lado. Charlie nutria um carinho enorme pelo garoto, um sentimento com toda certeza retribuído, porém não confessado. Nenhum dos dois parecia notar que o sorriso um do outro ficava mais radiante ao se aproximarem. Ou talvez apenas não quisessem admitir que os dois se gostavam.

Para Charlie, John nutria uma beleza grandiosa. E isso não era percebido apenas por ela, mas também por muitos outros da universidade. Os músculos, não aparentes de mais nem aparentes de menos. A altura perfeita. Sua pele negra era acetinada ao toque. O físico do garoto era um dos mais impressionantes.

– Charlie. – Chama uma voz, no fundo dos pensamentos da menina.

Não apenas sua aparência, mas também sua personalidade é admirável. Gentil e atencioso, todos seus conhecidos, mesmo que não amigos, apreciam sua presença.

– Charlie!

A garota acorda em um salto, assustada. O sonho que estava tendo logo some de sua memória, não deixando sequer o gosto de suas doces emoções.

– Caramba, você é uma pedra ou o que?

A testa de Charlie se franze, os olhos apertados tentando enxergar através da claridade. Ao ver em sua frente uma garota alta, de cabelos castanhos e pele oliva, a menina joga-se na cama com um resmungo, virando as costas para a recém-chegada.

– Ah! Não me presto para isso. – Reclama a menina. – Levanta, molenga! – acrescenta, puxando as pernas da loira, que logo cai dura no chão com um gemido.

– Desnecessário. – Murmura Charlie, com a face contra o assoalho.

– Totalmente necessário. Vamos nessa, já são seis horas e você me prometeu que...

– Três horas? Lena, eu não dormi a noite inteira, só mais trinta minutos. – Pede, sentando-se no chão e esfregando os olhos.

– Seis, Charlie, Seis. São seis horas.

– Foi o que eu disse – confirma, com um bocejo despreocupado.

– Meu deus... Charlie, olhe aqui. – Helena mostra-lhe seu celular, que marcava seis e dez.

– Seis! – exclama, arregalando os olhos.

– Sim.

– Seis do tipo três mais três!

E se levanta, apressada.

– Isso.

– Helena! Por que não me disse antes?! –Repreende.

– Mas eu... – a colega suspira, desistindo. – Deixa.

***

Todo o final de ano O Círculo planejava um torneio entre seus participantes mais populares, mas Adam nunca conseguira chegar até a final. Ele, por mais que se esforçasse, sempre acabava sendo derrotado nas semifinais por algum cara musculoso com pelo no peito.

Nesse ano que se passara, Alex não teve tempo para organizar o evento no final do ano, então avisou a todos os concorrentes (e potenciais apostadores) que o evento seria arranjado logo no início de março ou final de fevereiro, quando as festinhas de fraternidades começassem.

Vinte e seis de fevereiro.

Charlie passara a semana inteira perguntando aos seus colegas que dia era. Não apenas para ela como também para Adam cada dia passado era um dia a menos de suas esperas para o final do semestre.

Adam, em sua grande maioria, não comparecia às aulas para ter a chance de perguntar aos seus colegas que dia era. Por isso ele tinha um calendário, que ele admitia também não olhar nunca, para ser sincero. Um grande porém era de que naquela semana ele também consultara que dia era todas as manhãs, para ter certeza de que não se atrasaria para o grande evento da noite do dia vinte e seis.

Charlie sai do dormitório às 18:40, após arrumar-se para jantar com seu pai e ajudar sua colega com o que ela precisava. Três horas se passam e ela sente-se um pouco chateada e enjoada, mas ainda consegue esconder isso de Helena. Como o pai de Charlie não havia aparecido e ela se recusava a comer, as duas passam pela lancheria Teddy's a pedido de Helena para comprar sucos e batatinhas, que são beliscadas com pouca vontade por Charlie.

A menina se sente abandonada novamente, embora soubesse no fundo que o encontro não teria sido muito agradável de qualquer forma. Seu pai não fazia questão de sorrir ou ter uma conversa normal com ela em nenhuma ocasião, nem mesmo em dias considerados "especiais". Esta era sem dúvida uma noite perdida...

Por outro lado, um pouco passado das dez Adam chega para o torneio - levemente atrasado, mas mesmo assim pontual. Em datas como aquela era normal que Alex chamasse todos mais cedo, para ter tempo de as competições acontecerem. Aquele era o dia em que ele finalmente derrotaria as muralhas e chegaria à final. Consequentemente, ganharia a final também.

Confiante, entra no porão e dirige-se à área de preparação, onde vários lutadores alongavam-se e trocavam de roupa. O fedor de suor masculino impregnava o ambiente sem janelas, mas nenhum daqueles homens ligava para aquilo. Estavam lá para lutar, não fungar flores.

Bem, era isso então. Aquele era o dia! Adam podia sentir em suas veias. Ele dá alguns pulinhos e se alonga, tirando a camiseta e estralando algumas partes do corpo. Todos ali fazem movimentos parecidos, se preparando para o primeiro round. O rapaz não consegue conter um sorriso maroto, crescendo no canto da boca.

Aquilo seria demais. Depois de ganhar do último cara e mantendo o bom-humor, ele levaria qualquer garotinha bonita que encontrasse na festa para o dormitório. É, esse seria um ótimo prêmio para o vencedor – mas não melhor que o dinheiro, claro.

Estralando os dedos na frente do corpo, o rapaz não consegue conter um sorriso ao imaginar sua vitória.

Sobre os UrsosOnde histórias criam vida. Descubra agora